sábado, 5 de setembro de 2020

As ditaduras de lá e a ditadura de cá


Há uma diferença enorme entre o modo como o Brasil e os demais países sul-americanos lidam com a ditadura, uma onda política perversa que varreu nossa história nos anos 1960 a 1980.

No Chile, Argentina e Uruguai, todos os campos políticos democráticos (direita, centro e esquerda) rebatem veementemente o período de ditadura que enfrentaram. Não existem por lá políticos que passam pano para Augusto Pinochet (Chile), Jorge Rafael Videla (Argentina) ou Gregorio Álvarez (Uruguai). E não é só o mundo político que tem repulsa da ditadura. A sociedade como um todo repudia esse período da história.

Aliás, na Argentina, até mesmo os familiares dos ditadores têm “vergonha de se associar a eles”, como mostra a reportagem “O túmulo dos ditadores que ninguém quer recordar”, do El País (https://bit.ly/2LwSo4K).

É nesse contexto que devemos analisar a fala de Bolsonaro a Michelle Bachelet, cujo pai foi morto pelo regime de Pinochet:

Está acusando que não estou punindo policiais que estão matando muita gente no Brasil. Essa é a acusação dela. Ela está defendendo direitos humanos de vagabundos. Ela critica dizendo que o Brasil está perdendo seu espaço democrático. Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 73, entre eles seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Eu acho que não preciso falar mais nada para ela (Jair Bolsonaro - https://glo.bo/3a0mXyl)

Michelle Bachelet, seguindo a linha do Macron em se intrometer nos assuntos internos e na soberania brasileira, investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares. Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época (Jair Bolsonaro - https://bit.ly/36SzMbT)

É nesse contexto que devemos entender o desastre que o Brasil está promovendo a si mesmo no campo diplomático. No Chile, não há políticos que se aliem a bajuladores de ditadura.

Infelizmente, no Brasil temos vários políticos que celebram a ditadura. Temos também uma enorme parcela da população que apoia a ditadura. Existe em nossa sociedade uma constante tentativa de revisionismo histórico desse período asqueroso.

O fato é que fracassamos, como sociedade, em construir uma memória da ditadura como de fato ela foi: cruel, sangrenta e assassina. Fracassamos, como sociedade, ao não punir as mortes e as violações de direitos humanos praticadas por militares e pelos presidentes militares-ditadores.

O resultado desse fracasso continua a nos perturbar.

Precisamos voltar aos porões da ditadura e mostrar, sem rodeios, as monstruosidades que Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo praticaram, no período de 1964 a 1985. Precisamos mostrar, sem rodeios, a face monstruosa de Ustra. Sem esse trabalho cívico-político, continuaremos elegendo escórias humanas. Sem esse trabalho continuaremos a ter escolas, ruas, viadutos etc. com nome de ditadores. Isso é muito vergonhoso, asqueroso.

 

Sostenes Lima

@Limasostenes

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