domingo, 7 de fevereiro de 2021

A tal direita civilizada não existe

 

O projeto de oposição a Bolsonaro liderado pela centro-direita tem tudo para continuar fracassando. Não deixe de ler o texto de Luis Felipe Miguel, na Folha (https://outline.com/aPSwJY), para entender os passos do fracasso até aqui.

O tombo mais recente foi a derrota vexatória na eleição da Câmara. A tal direita civilizada de Rodrigo Maia e João Dória foi engolida pelo centrão e pelo bolsonarismo. Embora enfrente problemas pontuais na opinião pública, Bolsonaro tem agora muito mais força do que no início do mandato.

O centrão (MDB, PSL, PL, PP, PSD, REPUBLICANOS, PTB, PROS, PODE, PSC, AVANTE, PATRIOTA, SOLIDARIEDADE) é o excremento da política. Isso todo mundo sabe. Ninguém espera qualquer coisa minimamente boa, justa e honesta do centrão. Ele é o que é. Fim da análise.

A grande armadilha (que sempre captura a sociedade brasileira) é achar que existe uma direita civilizada no Brasil. Ela simplesmente não existe. A direita brasileira é incivilizada na sua natureza mais profunda. Ela aceita, em pequenos lapsos temporais, as regras civilizatórias apenas por conveniência.

No geral, a tal direita civilizada (Rodrigo Maia, Dória, Sergio Moro, Huck, Imprensa Corporativa etc.) se constitui da mesma matéria ideológica que a tal direita chucra (Bolsonaro, Movimento Evangélico, Forças Policiais etc.). O fundamento ideológico é idêntico, parte dos mesmos pilares:

a) ódio ao Estado como um ente responsável por garantir direitos universais;

b) ódio aos pobres;

c) ódio aos grupos identitários minorizados.

Isso significa que toda vez que a tal direita civilizada se encontrar numa encruzilhada política como a de 2018, ela penderá para a direita chucra. Isso está na sua raiz. Por isso, Bolsonaro caminha, nesse momento, a passos largos para a reeleição em 2022. Só um cataclismo pode mudar essa tendência.

Não custa lembrar que, no campo bolsonarista, a tal direita civilizada é sinônimo de esquerda. Vi no WhatsApp o depoimento de uma pessoa que ilustra muito bem isso. Segundo a pessoa, a “esquerda de Rodrigo Maia” foi derrotada pela “direita de Arthur Lira”. Isso é um delírio, obviamente. Mas faz todo sentido no pensamento de quem vê o mundo pela lente limítrofe de Bolsonaro: “Eu sou um presidente de direita. Então todos os meus adversários são de esquerda”.

A representação que o universo paralelo bolsonarista constrói para a direita civilizada não deixa de ser uma oportunidade de autocrítica para toda a direita brasileira. Talvez haja aí o impulso para que a tal direita civilizada se torne de fato civilizada.

A sociedade brasileira merece uma direita comprometida com os processos civilizatórios do século XXI. Uma direita que se reduz a Bolsonaro (que, pelo histórico parlamentar, é muito mais centrão que direita) é uma vergonha.

Sostenes Lima

@Limasostenes

Nenhum comentário:

Postar um comentário