sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Distopia evangélico-fascista


As igrejas evangélicas pentecostais são as principais (às vezes as únicas) instituições sociais presentes em áreas urbanas empobrecidas. Os líderes pentecostais assumem nesses contextos papéis de liderança política e comunitária. Eles entendem as mazelas do dia a dia e agem. Eles oferecem à comunidade, além de amparo existencial e direção moral, uma precária rede de proteção social. Disso decorre, em geral, a autoridade e o prestígio político entre os fiéis.

As pessoas, uma vez lançadas num mundo de subcidadania, buscam na vida religiosa uma saída para as agruras da vida. Os líderes oferecem a si mesmos e aos fiéis uma interpretação e uma proposta messiânica (com contornos teológicos, morais, políticos e sociológicos) para enfrentar os sofrimentos de cada dia. É muito difícil, para quem não tem outra fonte de significação e agência no mundo, recusar as respostas e propostas do discurso religioso.

Não é novidade que, num contexto de crise econômica aguda, haja uma aliança de morte entre o movimento pentecostal e o bolsonarismo. Mas, antes de fazermos uma crítica radical do apoio dos evangélicos de periferia ao bolsonarismo, precisamos, no mínimo, reconhecer o papel social desempenhado pelo movimento. A crítica - sem uma autocrítica da sociedade como um todo e dos movimentos sociais progressistas em particular - é absurdamente injusta.

O rompimento da aliança bolsocrente só é possível com a atuação intensa do Estado e de outras organizações da sociedade civil. Só quando houver uma ampla oferta de cidadania e de outros discursos, poderemos ver o enfraquecimento do bolsonarismo evangélico.

Enquanto o mundo evangélico pentecostal tiver o monopólio da interpretação da vida (pública e privada), estaremos entregues ao poder necropolítico do bolsonarismo, muito bem expresso no slogan evangélico-fascista: “Deus acima de todos. Brasil acima de tudo”. Estamos imersos numa teocracia evangélico-fascista distópica. Não podemos sucumbir.