domingo, 7 de fevereiro de 2021

Bolsonaro na encruzilhada: governar ou alimentar o bolsonarismo?


Muita gente não vê tanta diferença entre o Bolsonaro chefe do executivo e o Bolsonaro chefe da milícia bolsonarista. Mas há, e muita. Aliás, o sucesso de um alimenta o fracasso do outro. À medida que Bolsonaro investe no governo, se afasta do bolsonarismo e vice-versa.

É verdade que Jair Bolsonaro é fundamentalmente um bolsonarista. É o chefe de uma milícia ideológica fundada numa visão de mundo do século XVII, um fanfarrão verborrágico em estado bruto, que propaga uma moral tóxica pré-moderna, ainda muito popular no Brasil.

“Bolsonaro nos mostra no espelho” (Ricardo Rangel), dando visibilidade e representatividade ao “O Jair que há nós” (Ivan Lago): “preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência... em quase tudo) [...] racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto”.

É uma ingenuidade achar que o bolsonarismo surgiu de uma hora pra outra, tendo uma única causa/origem. Ele foi gestado e parido numa sucessão/coexistência/contradição de eventos, que se iniciaram nas jornadas de 2013. Idelber Avelar apresenta pelo menos 10 eventos grandiosos decisivos, que desvelam o passado recente de um “país que evolui por solavancos de um superlativo a outro”.

Muito já se falou sobre isso. Não vou me alongar aqui. Deixo a sugestão de quatro textos que dissecam o bolsonarismo e o “homo bolsonarus”, um “confuso e perigoso animal artificial que encarna momentos arcaicos da sociabilidade brasileira”, no dizer de Renato Lessa.

“Homo bolsonarus”, de RenatoLessa (https://bit.ly/3tDfIUE)

“A rebelião do eles: léxico, morfologia e sintaxe do fascismo bolsonarista”, de Idelber Avelar (https://bit.ly/36SOhfM)

“Bolsonaro nos mostra o espelho”, de Ricardo Rangel (https://outline.com/pufkXb)

“O Jair que há em nós”, de Ivann Lago (https://bit.ly/2YVu19g)

Por infortúnio do nosso destino, esse animal foi alçado à condição de presidente, uma posição que visivelmente ele não sabe ocupar, embora tire dela o máximo de regalias que pode. Depois que os brasileiros nos colocaram nessa furada, só restaram duas opções a Bolsonaro: a) continuar comandando a milícia bolsonarista e sabotar o governo ou b) governar e negar, a contragosto, seu ímpeto bolsonarista mais profundo.

Temos inúmeros exemplos de que, nos dois primeiros anos de mandato, Bolsonaro optou por alimentar o bolsonarismo e solapar o governo. De tantos exemplos, talvez a gestão da pandemia seja o mais emblemático. O presidente demitiu dois ministros que seguiam minimamente orientações técnicas e fez o que pode para tornar a pandemia mais trágica do que já era. Só sossegou quando pôs no comando da pasta um militar subserviente que aceitou todas as pautas do bolsonarismo: negação da pandemia, boicote ao isolamento social, boicote ao uso de máscara, promoção da cloroquina, boicote às vacinas etc.

Muitos outros exemplos poderiam ser apresentados. Em praticamente todos os ministérios houve crises provocadas por Bolsonaro por querer transformar o bolsonarismo em plataforma de governo: no MEC, no Ministério da Justiça, no Ministério da Relações Exteriores, no Ministério da Economia etc.

Em 2018, o bolsonarismo mostrou ser uma plataforma de campanha muito eficaz. É preciso considerar, contudo, que houve naquele momento um alinhamento perfeito de tragédias. O sucesso do bolsonarismo tem muito a ver com sucessivos fracassos das instituições políticas, algo já bastante explorado nas análises políticas.

Uma vez presidente, Bolsonaro - incapaz que é de entender minimamente as institucionalidades - imaginou que poderia simplesmente transformar a milícia bolsonarista em governo. Não deu certo e nunca daria. O bolsonarismo é abertamente antigoverno, anti-instituição, antipolítica, antidiálogo, anticilivilização etc.

Em ações recentes, Bolsonaro começou a pender para o lado do governo, o que implica abandonar elementos fundamentais do bolsonarismo. No bojo dessa inflexão podem ser citadas algumas mudanças: a) adesão ao centrão; b) aceitação da vacina; c) diplomacia nas relações com a China; d) recuo na promoção da cloroquina etc. As mudanças até aqui não chegam a caracterizar um plot twist, mas tem dado um pequeno alento a um governo que estava completamente minado.

E por que Bolsonaro está aderindo ao governo e se afastando do bolsonarismo? A resposta é simples. Bolsonaro percebeu (ou alguém fez essa tarefa para ele, o que é mais provável) que o bolsonarismo não lhe dará a reeleição. Muito pelo contrário. Se ele continuar dando gás para o bolsonarismo, talvez nem termine o mandato. A derrota de Trump no EUA não deixa de ser um alerta. Mesmo com o governo funcionando, o sucesso do trumpismo, que bebe na mesma fonte fascista do bolsonarismo, foi fundamental para a vitória de Biden.

Sostenes Lima

@Limasostenes


A tal direita civilizada não existe

 

O projeto de oposição a Bolsonaro liderado pela centro-direita tem tudo para continuar fracassando. Não deixe de ler o texto de Luis Felipe Miguel, na Folha (https://outline.com/aPSwJY), para entender os passos do fracasso até aqui.

O tombo mais recente foi a derrota vexatória na eleição da Câmara. A tal direita civilizada de Rodrigo Maia e João Dória foi engolida pelo centrão e pelo bolsonarismo. Embora enfrente problemas pontuais na opinião pública, Bolsonaro tem agora muito mais força do que no início do mandato.

O centrão (MDB, PSL, PL, PP, PSD, REPUBLICANOS, PTB, PROS, PODE, PSC, AVANTE, PATRIOTA, SOLIDARIEDADE) é o excremento da política. Isso todo mundo sabe. Ninguém espera qualquer coisa minimamente boa, justa e honesta do centrão. Ele é o que é. Fim da análise.

A grande armadilha (que sempre captura a sociedade brasileira) é achar que existe uma direita civilizada no Brasil. Ela simplesmente não existe. A direita brasileira é incivilizada na sua natureza mais profunda. Ela aceita, em pequenos lapsos temporais, as regras civilizatórias apenas por conveniência.

No geral, a tal direita civilizada (Rodrigo Maia, Dória, Sergio Moro, Huck, Imprensa Corporativa etc.) se constitui da mesma matéria ideológica que a tal direita chucra (Bolsonaro, Movimento Evangélico, Forças Policiais etc.). O fundamento ideológico é idêntico, parte dos mesmos pilares:

a) ódio ao Estado como um ente responsável por garantir direitos universais;

b) ódio aos pobres;

c) ódio aos grupos identitários minorizados.

Isso significa que toda vez que a tal direita civilizada se encontrar numa encruzilhada política como a de 2018, ela penderá para a direita chucra. Isso está na sua raiz. Por isso, Bolsonaro caminha, nesse momento, a passos largos para a reeleição em 2022. Só um cataclismo pode mudar essa tendência.

Não custa lembrar que, no campo bolsonarista, a tal direita civilizada é sinônimo de esquerda. Vi no WhatsApp o depoimento de uma pessoa que ilustra muito bem isso. Segundo a pessoa, a “esquerda de Rodrigo Maia” foi derrotada pela “direita de Arthur Lira”. Isso é um delírio, obviamente. Mas faz todo sentido no pensamento de quem vê o mundo pela lente limítrofe de Bolsonaro: “Eu sou um presidente de direita. Então todos os meus adversários são de esquerda”.

A representação que o universo paralelo bolsonarista constrói para a direita civilizada não deixa de ser uma oportunidade de autocrítica para toda a direita brasileira. Talvez haja aí o impulso para que a tal direita civilizada se torne de fato civilizada.

A sociedade brasileira merece uma direita comprometida com os processos civilizatórios do século XXI. Uma direita que se reduz a Bolsonaro (que, pelo histórico parlamentar, é muito mais centrão que direita) é uma vergonha.

Sostenes Lima

@Limasostenes

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Distopia evangélico-fascista


As igrejas evangélicas pentecostais são as principais (às vezes as únicas) instituições sociais presentes em áreas urbanas empobrecidas. Os líderes pentecostais assumem nesses contextos papéis de liderança política e comunitária. Eles entendem as mazelas do dia a dia e agem. Eles oferecem à comunidade, além de amparo existencial e direção moral, uma precária rede de proteção social. Disso decorre, em geral, a autoridade e o prestígio político entre os fiéis.

As pessoas, uma vez lançadas num mundo de subcidadania, buscam na vida religiosa uma saída para as agruras da vida. Os líderes oferecem a si mesmos e aos fiéis uma interpretação e uma proposta messiânica (com contornos teológicos, morais, políticos e sociológicos) para enfrentar os sofrimentos de cada dia. É muito difícil, para quem não tem outra fonte de significação e agência no mundo, recusar as respostas e propostas do discurso religioso.

Não é novidade que, num contexto de crise econômica aguda, haja uma aliança de morte entre o movimento pentecostal e o bolsonarismo. Mas, antes de fazermos uma crítica radical do apoio dos evangélicos de periferia ao bolsonarismo, precisamos, no mínimo, reconhecer o papel social desempenhado pelo movimento. A crítica - sem uma autocrítica da sociedade como um todo e dos movimentos sociais progressistas em particular - é absurdamente injusta.

O rompimento da aliança bolsocrente só é possível com a atuação intensa do Estado e de outras organizações da sociedade civil. Só quando houver uma ampla oferta de cidadania e de outros discursos, poderemos ver o enfraquecimento do bolsonarismo evangélico.

Enquanto o mundo evangélico pentecostal tiver o monopólio da interpretação da vida (pública e privada), estaremos entregues ao poder necropolítico do bolsonarismo, muito bem expresso no slogan evangélico-fascista: “Deus acima de todos. Brasil acima de tudo”. Estamos imersos numa teocracia evangélico-fascista distópica. Não podemos sucumbir.