quinta-feira, 7 de maio de 2020

Viver é organizar o caos


A vida pessoal é uma narrativa que a gente constrói a partir de um conjunto complexo de experiências e fatores. Ela é sempre uma narrativa particular entre várias possíveis.

Tudo que está à nossa volta é muito caótico e impessoal. Graças à nossas narrativas pessoais, conseguimos encaixar tudo em um único eixo, o eu. Lá criamos categorias e hierarquias para tudo: pessoas, afetos, desafetos, experiências, objetos, conhecimentos, sabores, desejos, crenças, sensações. Tudo fica mais ou menos organizadinho dentro da gente.

A princípio, temos à disposição de nossas narrativas um conjunto quase infinito de experiências, fatos, pessoas. O problema é que nossa vida, embora seja aberta ao novo, não comporta um enredo muito complexo e difuso. Não dá para agregar muitos elementos em nossa história. O pouco que a gente consegue juntar já traz autocontradição. Imagina se a gente agregasse mais!

Se passássemos a incluir indiscriminadamente um número exagerado de pessoas, experiências, fatos, objetos em nossa trama, a gente mergulharia numa espécie de caos narrativo, com conflitos pipocando para todo lado. Não haveria mente que suportasse isso. Seria loucura na certa! (Se bem que, olhando por essa perspectiva, a loucura seria uma virtude, seria a capacidade de não se restringir).

Contudo, a vida normalizada impõe seu ritmo. Temos que construir uma linha mais ou menos estável para a nossa trajetória. Isso implica sempre escolher algo. E toda vez que a gente escolhe alguma coisa, um conjunto quase infinito de outras coisas é deixado de lado. Escolher é, no fundo, uma atitude de autolimitação; escolher é simplificar e ordenar o caos.

Viver é, em última instância, abdicar do todo.
Me agarro a um único fio, entre vários disponíveis,
e sigo tecendo a trama dos dias.

Sempre que vejo fotografias, sinto um pesar pelas narrativas que não aconteceram. Toda cena potencializa um conjunto enorme de acontecimentos. Mas, infelizmente, apenas uma narrativa seguirá a diante.

Sinto falta dos acontecimentos/narrativas que não se realizaram.
Sinto falta das amizades que não prosperaram e das que nunca aconteceram.
Sinto falta das crenças que se perderam.
Sinto falta das ignorâncias/dessaberes que se desfizeram.
Sinto falta dos conhecimentos que não chegaram.
Sinto falta dos encontros que não aconteceram.
Sinto falta.

Por outro lado, a história que construímos pode ser plena, apesar das ausências.

Me sinto pleno com a narrativa tecida.
Me sinto pleno com as pessoas que estão na base da minha história.
Me sinto bem com os acontecimentos vividos.
Me sinto bem com as amizades construídas.
Me sinto bem com as crenças que foram aportando em mim.
Me sinto bem com as novas ignorâncias/dessaberes.
Me sinto bem com o que aconteceu.
Me sinto bem.


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