sábado, 25 de abril de 2020

Como fica o bolsonarismo depois da saída de Sergio Moro


O bolsonarismo era, até o momento, sustentado por cinco núcleos político-ideológicos: olavismo, movimento evangélico, neoliberalismo, militarismo e lava-jatismo. Hoje, com a saída de Sergio Moro do governo, houve um grande baque na sustentação.

Apresento abaixo uma breve descrição de cada um desses pilares e a reconfiguração do apoio ao presidente Bolsonaro.

a) Núcleo olavista

Esse núcleo está embasado na noção de guerra cultural. Acredita-se que o Brasil, após a redemocratização, foi tomado por uma ideologia comunista que se estabeleceu fortemente no sistema educacional e nas instituições culturais. O núcleo olavista é representado no governo principalmente pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O núcleo tem os seguintes temas como agenda básica: conservadorismo, anticomunismo, antiglobalização e nacionalismo/patriotismo.

Avaliação: O núcleo continua forte; segue com o apoio maciço dos seguidores. É interessante dizer que esse núcleo tem uma forte atuação nas redes sociais, especialmente no Twitter, com milhares de robôs. É nesse núcleo que está situado o gabinete do ódio, isto é, o centro de produção e disseminação de fake News de apoio a Bolsonaro e de destruição da reputação dos adversários.

b) Núcleo religioso

Esse pilar está embasado na noção de resgate moral da sociedade. Acredita-se que a sociedade brasileira se degenerou em seus costumes e precisa ser restaurada por meio de uma agenda cristã. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, é a representante desse núcleo. As principais agendas são: costumes, família, anti-identitarismo e combate à “ideologia de gênero”. O movimento evangélico brasileiro é, em sua maior parte, o maior afiançador desse núcleo ideológico. Existe nas igrejas evangélicas uma forte adesão a Bolsonaro. Ele é visto como o enviado de Deus para restaurar o país da corrupção e da degeneração moral.

Avaliação: Esse núcleo sofreu um forte revés no apoio. Sergio Moro tem uma grande penetração entre os evangélicos. Não custa lembrar que o procurador Deltan Dallagnol, parceiro de Moro nos desdobramentos da operação Lava-jato, é evangélico e percorreu o Brasil dando palestras em várias igrejas evangélicas. Penso que a debandada de seguidores aqui é da ordem de mais de 50%. O depoimento de reprovação do pastor Silas Malafaia, no Twitter, é um indicativo claro do tombo. Embora mantenha o apoio ao presidente, Malafaia foi veemente em dizer que a saída de Moro é um "erro político total".

c) Núcleo neoliberal

Esse núcleo defende a redução do Estado de bem-estar social. Tem como pautas principais a redução dos direitos do trabalhador, redução da assistência social, redução do investimento nos serviços públicos (educação e saúde, principalmente), redução da seguridade social etc. Junto à redução do Estado de bem-estar social, está também o projeto de concessão de diversos serviços à iniciativa privada e os projetos de privatização das empresas públicas. Esse núcleo tem como principal representante o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Avaliação: Esse núcleo ainda mantinha certo apoio do empresariado. A mídia tradicional já tinha abandonado o barco no início da pandemia, ao apoiar as medidas de isolamento social. Penso que agora houve um forte esvaziamento. O empresariado era muito ligado ao capital político de Sergio Moro. O núcleo teve uma redução de apoiadores em mais de 70%, considerando a debandada desde o início da pandemia.

d) Núcleo militarista

O núcleo militarista se assenta na ideia de que as Forças Armadas são responsáveis pela proteção da República e pela segurança nacional. Esse núcleo é representado no governo pelos ministros generais: Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). Há ainda, obviamente, o próprio presidente, Jair Bolsonaro, que é capitão da reserva e o vice-presidente, Hamilton Morão, que é general da reserva. O núcleo é alinhado com o discurso anticomunista, segundo o qual o Brasil vive uma ameaça constante de uma revolução comunista. Esse discurso é, obviamente, uma memória da ditadura militar e é amplamente reforçado pelo discurso olavista. Isso não dizer que o militarismo está plenamente alinhado com o olavismo. O ponto de contato é apenas o discurso anticomunista.

Avaliação: Esse núcleo é bastante ligado a Sergio Moro porque defende a pauta anticorrupção. Aliás, essa pauta foi uma das bases de sustentação ao golpe militar de 1964. Esse núcleo perde, então, um apoio considerável. Resta saber o que acontecerá com os militares no governo. Eles estão vendo a imagem das Forças Armadas cada vez mais associada aos desmandos de Bolsonaro. E isso é bastante problemático. O núcleo militarista contava com pequeno apoio popular, de forma que a maior perda é mesmo dentro do próprio governo. Do ponto de vista externo, a perda de apoio deve ter girado em torno de 50%.

e) Núcleo lava-jatista

O lava-jatismo é uma recorte político-ideológico bastante recorrente na história brasileira, embora só recentemente tenha alcançado uma forte penetração no Judiciário e no governo propriamente dito. Esse núcleo tem como pautas básicas o combate a corrupção e o punitivismo legal. A pauta anticorrupção esteve presente em praticamente todas as crises políticas brasileiras, desde o golpe que instaurou a República, em 1889, até o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016. As grandes massas sempre se mostraram bastante sugestionáveis a qualquer movimento da mídia na promoção da agenda de combate à corrupção. Temos enfrentado crises políticas sucessivas que têm como mote a denúncia de corrupção no governo. A novidade histórica recente foi a entrada avassaladora do Ministério Público e do Judiciário nesse núcleo político-ideológico por meio da operação Lava-jato. Sergio Moro se tornou a estrela desse núcleo, acumulando um grande capital político. Jair Bolsonaro, entendendo o grande patrimônio que Moro representava, prontamente o inseriu em seu quadro de ministros.

Avaliação: A saída de Sergio Moro do governo provoca uma tragédia colossal no bolsonarismo lava-jatista. A perda é de 100% dos apoiadores. O colapso desse núcleo será, possivelmente, a razão do fim do governo Bolsonaro. Não custa lembrar que Moro conta com o apoio maciço da mídia tradicional. O Jornal Nacional de hoje, por exemplo, gastou mais da metade da edição exaltando Sergio Moro e, consequentemente, demonizando Bolsonaro.


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