segunda-feira, 2 de março de 2020

Civilização versus extrema-direita


Existem hoje dois mundos em competição. De um lado, está o mundo regido por valores civilizatórios básicos: humanismo, democracia, defesa do planeta, direitos humanos etc. Do outro, está o mundo paralelo inventado pela extrema-direita. Trata-se uma realidade altamente tóxica, baseada em falsidades, desinformação, obscurantismo, demonização do outro, violência discursiva, nacionalismo etc. 
É desesperador ver que, neste momento, o mundo paralelo da ultradireita está em vantagem.

Do lado da civilização, estão alguns fundamentos básicos que precisam ser sempre reafirmados, embora óbvios. Em momentos de retrocesso, é preciso apontar para o futuro, enfatizando as bases da utopia que buscamos. Para chegar até aqui, o projeto humano teve que superar, com certa frequência, arroubos de barbárie. Superaremos mais uma vez.

Faço a seguir uma retomada de alguns princípios civilizatórios fundamentais para iluminar as trevas que estamos vivendo atualmente.

1. A vida é valiosa. Isso significa que a nossa casa (o planeta) precisa ser pensada de forma ecossistêmica. A vida na terra é regida por um equilíbrio precário, que pode ser definitivamente desmantelado. Sem responsabilidade ambiental, todos seremos extintos, mais cedo do que imaginamos.

2. A ciência constrói e valida o nosso saber sobre o mundo. A ciência constitui o sistema de saber mais confiável que o ser humano já inventou. E esse sistema é confiável porque está aberto, continuamente, à reflexão teórica, à experimentação e à revisão.

O senso comum, desenvolvido a partir de experiências sociais e culturais imediatas, tem um papel importante em nossos processos de socialização, enculturação e organização política, mas não pode ser colocado como parâmetro. Por estar enraizado na tradição e em valores culturais particulares, o senso comum tende a ser muito resistente à revisão e à mudança.

Além disso, o senso comum também tende a ser resistente a experimentações científicas mais sofisticadas e abstratas. Ele confia cegamente em nossas experiências sensoriais mais elementares. Por exemplo, se meus olhos veem o sol se movendo diariamente, pelo senso comum, tenho a evidência de que a terra está parada. Só quem tem uma visão crítica do senso comum consegue buscar na ciência uma verdade que vai além dos sentidos. Os terraplanistas confiam cegamente no que os seus olhos veem.

3. A informação deve ser verdadeira, do contrário não é informação. Todos as sociedades têm necessidade de trocar informação. Por isso desenvolvemos ao longo da história uma instituição, na esfera da vida pública, com o papel de fazer circular notícias. A instituição jornalística tem, assim, o papel de identificar, selecionar, apurar e divulgar as informações que têm valor para uma sociedade.

É verdade que nem sempre as instituições jornalísticas fazem isso com toda a responsabilidade necessária, seguindo os passos apontados acima. Como são empresas, frequentemente a busca pelo lucro fala mais alto. Mas, a despeito dos problemas, ainda não inventamos um sistema de partilha de informação melhor do que o jornalismo.

A alternativa à imprensa, que é a circulação de informação/desinformação/mentiras via app de mensagem – whatsapp - e via redes sociais, tem provocado uma série de problemas à vida social e às instituições públicas, constituindo uma séria ameaça à vida civilizada e às democracias.


4. A democracia é o melhor sistema político já inventado pelos humanos. Entendemos por democracia um sistema político baseado no governo do povo, que constitui seus representantes via escolhas eleitorais periódicas, reguladas por um sistema que impede a fraude e a desigualdade nas condições de disputa. 

Além dessas características básicas, o sistema democrático defende que a) a coisa pública jamais deve ser tomada pelo interesse particular;  b) os representantes eleitos devem respeitar a instituições; c) os direitos civis e individuais devem ser protegidos pelas instituições; d) a igualdade formal entre os seres humanos, garantida por lei, deve ser realizada no âmbito da vida prática, do dia.

Embora a democracia representativa apresente eventualmente alguns problemas, não temos alternativa melhor. Qualquer coisa política feita fora da democracia é infinitamente pior do que as coisas feitas dentro da democracia.

Esses são alguns fundamentos do mundo social regido por princípios civilizados e democráticos. Esse é o mundo que toda pessoa minimamente humanizada deseja para vida social.

Como dito no início, temos dois mundos em competição. Do outro lado está o mundo da extrema-direita, que se opõe a todos esses fundamentos.


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