quarta-feira, 18 de março de 2020

O que o colapso político pode nos ensinar



O colapso que estamos vivendo hoje começou a ser pavimentado em 2016, com um golpe parlamentar. De lá para cá as coisas só pioraram. Em 2018, o Brasil elegeu um novo presidente. E fez isso de forma raivosa e irracional. Como resultado, temos hoje um país inteiro em colapso.

Em meio a essa crise, podemos aprender alguma coisa, se houver a mínima disposição em ler o passado para construir um futuro diferente. Elenco a seguir pelo menos quatro lições importantes das eleições de 2018.

1) O voto de protesto leva ao caos. Votar com o fígado é cavar a própria sepultura. O voto antissistema é raivoso e irracional. E, por afinidade, descamba para o lado mais estúpido, incompetente e abjeto. Quem votou por protesto, que aprenda a lição: Deu merda de novo!

Agora que o sistema foi posto em ruína pelo antissistema, precisamos desesperadamente do sistema funcionando. Então, a turma do tio do zap já pode enfiar o rabo entre as pernas e voltar para o silêncio e para a insignificância. Temos uma pandemia e uma economia em colapso a enfrentar.

2) O voto religioso-moralista é facilmente manipulado. Valores morais e religiosos (Deus, família, heterossexualidade, costumes etc.) são a ponte para a manipulação. Esses valores são, em geral, manipulados por quem, hipocritamente, preza muito a violência e a barbárie. Infelizmente, os evangélicos foram engolfados pelo discurso manipulador da extrema-direita.

Agora os crentes - fanatizados e cegados pelo moralismo - já podem se enfurnar novamente em suas igrejas e confessar o mal que fizeram ao país. E que nunca mais saiam de lá para fazer política! Deu merda!

3) O voto populista leva ao fascismo. O voto no herói-salvador está relacionado com o voto antissistema, mas tem características específicas. Esse tipo de voto é baseado na fé irracional numa figura fora do padrão, um sujeito “antissistema”, um messias. Acredita-se que esse sujeito encarna poderes mágicos para restabelecer a paz.

O que a história mostra é que esse tipo de sujeito nada mais é do que um fascista, que busca de apoio popular para implantar seu projeto de poder. O que um líder fascista mais deseja é ser um ditador. Uma vez autorizado pelo povo, o fascista pode perseguir ferozmente seus inimigos reais e imaginários.

O fascismo se baseia numa guerra lunática do “bem” contra o “mal”. Do lado “bem” estão os conservadores, bajuladores e patriotas. Do lado do “mal” estão todos que não aderem ao projeto fascista. Os inimigos são, em geral, rotulados por um nome que engloba todos os opositores. No caso brasileiro atual, os inimigos são os “petistas”.

Estamos nessa crise hoje porque boa parte da população brasileira achou que um lunático, com raciocínio sub-humano (e cheio de teorias conspiratórias) era o salvador. 

Chega! Já temos evidência suficiente para ver que o projeto desse sujeito é autoritário, populista, fascista e autocentrado. Deu merda! Que os ingênuos percam a ingenuidade! Que os oportunistas de plantão (tipo Amoedo, Doria etc.) declarem logo seu arrependimento e trabalhem unidos pelo país! Só assim podemos começar a dolorosa reconstrução do Brasil.

4) Os votos 1), 2) e 3) podem destruir uma democracia. O objetivo de quem é eleito baseado no voto irracional e antissistema é conduzir a sociedade ao colapso, para então estabelecer o Estado de exceção. Se a sociedade não acordar a tempo, bye, bye democracia! Estamos numa crise profunda e sem governante.

O autoritarismo está à espreita, com os militares no entorno do poder prontos para dar o bote. Que os milicos da ativa voltem para o quartel e os milicos aposentados voltem para o pijama. Deu merda!

Só a sociedade civil pode governar a si mesma.
Só a política pode salvar a si mesma.
Só a democracia pode salvar a si mesma.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Civilização versus extrema-direita


Existem hoje dois mundos em competição. De um lado, está o mundo regido por valores civilizatórios básicos: humanismo, democracia, defesa do planeta, direitos humanos etc. Do outro, está o mundo paralelo inventado pela extrema-direita. Trata-se uma realidade altamente tóxica, baseada em falsidades, desinformação, obscurantismo, demonização do outro, violência discursiva, nacionalismo etc. 
É desesperador ver que, neste momento, o mundo paralelo da ultradireita está em vantagem.

Do lado da civilização, estão alguns fundamentos básicos que precisam ser sempre reafirmados, embora óbvios. Em momentos de retrocesso, é preciso apontar para o futuro, enfatizando as bases da utopia que buscamos. Para chegar até aqui, o projeto humano teve que superar, com certa frequência, arroubos de barbárie. Superaremos mais uma vez.

Faço a seguir uma retomada de alguns princípios civilizatórios fundamentais para iluminar as trevas que estamos vivendo atualmente.

1. A vida é valiosa. Isso significa que a nossa casa (o planeta) precisa ser pensada de forma ecossistêmica. A vida na terra é regida por um equilíbrio precário, que pode ser definitivamente desmantelado. Sem responsabilidade ambiental, todos seremos extintos, mais cedo do que imaginamos.

2. A ciência constrói e valida o nosso saber sobre o mundo. A ciência constitui o sistema de saber mais confiável que o ser humano já inventou. E esse sistema é confiável porque está aberto, continuamente, à reflexão teórica, à experimentação e à revisão.

O senso comum, desenvolvido a partir de experiências sociais e culturais imediatas, tem um papel importante em nossos processos de socialização, enculturação e organização política, mas não pode ser colocado como parâmetro. Por estar enraizado na tradição e em valores culturais particulares, o senso comum tende a ser muito resistente à revisão e à mudança.

Além disso, o senso comum também tende a ser resistente a experimentações científicas mais sofisticadas e abstratas. Ele confia cegamente em nossas experiências sensoriais mais elementares. Por exemplo, se meus olhos veem o sol se movendo diariamente, pelo senso comum, tenho a evidência de que a terra está parada. Só quem tem uma visão crítica do senso comum consegue buscar na ciência uma verdade que vai além dos sentidos. Os terraplanistas confiam cegamente no que os seus olhos veem.

3. A informação deve ser verdadeira, do contrário não é informação. Todos as sociedades têm necessidade de trocar informação. Por isso desenvolvemos ao longo da história uma instituição, na esfera da vida pública, com o papel de fazer circular notícias. A instituição jornalística tem, assim, o papel de identificar, selecionar, apurar e divulgar as informações que têm valor para uma sociedade.

É verdade que nem sempre as instituições jornalísticas fazem isso com toda a responsabilidade necessária, seguindo os passos apontados acima. Como são empresas, frequentemente a busca pelo lucro fala mais alto. Mas, a despeito dos problemas, ainda não inventamos um sistema de partilha de informação melhor do que o jornalismo.

A alternativa à imprensa, que é a circulação de informação/desinformação/mentiras via app de mensagem – whatsapp - e via redes sociais, tem provocado uma série de problemas à vida social e às instituições públicas, constituindo uma séria ameaça à vida civilizada e às democracias.


4. A democracia é o melhor sistema político já inventado pelos humanos. Entendemos por democracia um sistema político baseado no governo do povo, que constitui seus representantes via escolhas eleitorais periódicas, reguladas por um sistema que impede a fraude e a desigualdade nas condições de disputa. 

Além dessas características básicas, o sistema democrático defende que a) a coisa pública jamais deve ser tomada pelo interesse particular;  b) os representantes eleitos devem respeitar a instituições; c) os direitos civis e individuais devem ser protegidos pelas instituições; d) a igualdade formal entre os seres humanos, garantida por lei, deve ser realizada no âmbito da vida prática, do dia.

Embora a democracia representativa apresente eventualmente alguns problemas, não temos alternativa melhor. Qualquer coisa política feita fora da democracia é infinitamente pior do que as coisas feitas dentro da democracia.

Esses são alguns fundamentos do mundo social regido por princípios civilizados e democráticos. Esse é o mundo que toda pessoa minimamente humanizada deseja para vida social.

Como dito no início, temos dois mundos em competição. Do outro lado está o mundo da extrema-direita, que se opõe a todos esses fundamentos.