quinta-feira, 7 de maio de 2020

Viver é organizar o caos


A vida pessoal é uma narrativa que a gente constrói a partir de um conjunto complexo de experiências e fatores. Ela é sempre uma narrativa particular entre várias possíveis.

Tudo que está à nossa volta é muito caótico e impessoal. Graças à nossas narrativas pessoais, conseguimos encaixar tudo em um único eixo, o eu. Lá criamos categorias e hierarquias para tudo: pessoas, afetos, desafetos, experiências, objetos, conhecimentos, sabores, desejos, crenças, sensações. Tudo fica mais ou menos organizadinho dentro da gente.

A princípio, temos à disposição de nossas narrativas um conjunto quase infinito de experiências, fatos, pessoas. O problema é que nossa vida, embora seja aberta ao novo, não comporta um enredo muito complexo e difuso. Não dá para agregar muitos elementos em nossa história. O pouco que a gente consegue juntar já traz autocontradição. Imagina se a gente agregasse mais!

Se passássemos a incluir indiscriminadamente um número exagerado de pessoas, experiências, fatos, objetos em nossa trama, a gente mergulharia numa espécie de caos narrativo, com conflitos pipocando para todo lado. Não haveria mente que suportasse isso. Seria loucura na certa! (Se bem que, olhando por essa perspectiva, a loucura seria uma virtude, seria a capacidade de não se restringir).

Contudo, a vida normalizada impõe seu ritmo. Temos que construir uma linha mais ou menos estável para a nossa trajetória. Isso implica sempre escolher algo. E toda vez que a gente escolhe alguma coisa, um conjunto quase infinito de outras coisas é deixado de lado. Escolher é, no fundo, uma atitude de autolimitação; escolher é simplificar e ordenar o caos.

Viver é, em última instância, abdicar do todo.
Me agarro a um único fio, entre vários disponíveis,
e sigo tecendo a trama dos dias.

Sempre que vejo fotografias, sinto um pesar pelas narrativas que não aconteceram. Toda cena potencializa um conjunto enorme de acontecimentos. Mas, infelizmente, apenas uma narrativa seguirá a diante.

Sinto falta dos acontecimentos/narrativas que não se realizaram.
Sinto falta das amizades que não prosperaram e das que nunca aconteceram.
Sinto falta das crenças que se perderam.
Sinto falta das ignorâncias/dessaberes que se desfizeram.
Sinto falta dos conhecimentos que não chegaram.
Sinto falta dos encontros que não aconteceram.
Sinto falta.

Por outro lado, a história que construímos pode ser plena, apesar das ausências.

Me sinto pleno com a narrativa tecida.
Me sinto pleno com as pessoas que estão na base da minha história.
Me sinto bem com os acontecimentos vividos.
Me sinto bem com as amizades construídas.
Me sinto bem com as crenças que foram aportando em mim.
Me sinto bem com as novas ignorâncias/dessaberes.
Me sinto bem com o que aconteceu.
Me sinto bem.


terça-feira, 5 de maio de 2020

Os eus e os outros


 Ele passou o dia recolhido em si.

Gastou muitas horas conversando com os eus perdidos na sua memória e com os outros.
Se lembrou de muitas coisas vividas pelos vários eus, em vários momentos. Ficou nostálgico. Até chorou num dado momento! Mas tudo acaba. Esgotaram-se os eus a serem rememorados. Até a memória tem um limite de recriação. Aí ele procurou a companhia dos outros que moram dentro dele.

Gastou um tempão conversando com dois deles. Mas antes de conversar com os outros, ele teve que resolver um pequeno problema. É que ele quis saber quem eram os outros que viviam dentro dele.

“Mas quem são os outros?”, perguntou a si mesmo em voz alta. E continuou: “Os outros não existem. Os outros são invenções minhas. Os outros são variações de mim mesmo dentro de mim!”.

Instaurou-se nele um impasse momentâneo, que foi resolvido logo em seguida: “Os outros são pessoas que, embora tenham um corpo físico no mundo, moram dentro de mim. Eu crio essas pessoas dentro de mim, mas faço isso de acordo com o que vejo no mundo externo. Sem estímulos externos não posso criar nenhum outro. Por isso, eles são diferentes de mim”.

Depois que resolveu o problema da identidade dos outros, começou a conversa.

Primeiramente conversou com o TB, com quem tinha conversado externamente, isto é, no mundo físico, no dia anterior. Aquela conversa cheia de conflito não acabou ali. O TB que mora dentro dele veio à tona e puxou o assunto novamente. Apresentou outra vez os argumentos absurdos do dia anterior. E agora cada argumento parecia ainda mais absurdo. “Como você pode pensar de forma tão primitiva assim, TB?”, chegou a perguntar, já demonstrando muita irritação com o amigo. Mas se acalmou e continuou apresentando as refutações e explicações para cada ponto levantado por TB. Sentiu que venceu o debate. Ficou feliz. TB não conseguia mais fazer nenhuma contraposição relevante. Então TB foi se apagando, até ir embora de vez.

Não passou um minuto e JS bateu à porta. Chegou discretamente. Começaram a conversar. O diálogo durou pouco tempo. Foi uma conversa amena. Não houve disputa de ideias e de argumentos. Então, sem contenda, JS logo se apagou do pensamento dele. Foi embora.

Ele se viu na companhia dos seus eus novamente. Aí convocou um deles a um novo diálogo.

“Uma prova de que os outros que moram na gente não são uma mera criação é o fato de uns serem mais queridos que os outros, não é?”, disse ele.

“Realmente uns são mais queridos que outros, mas isso não prova nada. Por exemplo, a gente tem vários eus e uns são mais queridos que outros. Os eus da infância são mais afáveis que os da vida adulta. Eles são os que geram maior afeição na gente. Alguns eus da vida adulta chegam até gerar antipatia na gente. Existe, portanto, uma variação de afeto em relação aos eus do mesmo jeito que existe uma variação de afeto em relação aos outros. Repito: a variação no afeto na prova nada”, disse um dos eus.

“Tá certo. Esse argumento é ruim mesmo. De todo modo não é disso que eu queria falar”, disse ele, com certo desdém.

“E é sobre o que é?”, insistiu o eu.

“Sabe? muitas pessoas moram dentro da gente de forma calma, serena. Eles não fazem baderna; não perturbam o pensamento. JS é uma dessas pessoas. Mora aqui há bastante tempo e nunca fez confusão. Nunca me fez ficar remoendo, com raiva, suas ideais. Já outras pessoas só trazem perturbação, do dia que entram até o dia que a gente morre. Que coisa!”

“É verdade! Mas sem a perturbação dos outros, o pensamento se tornaria preguiçoso. Aposto que nem se esforçaria pra fazer mais nada. Ficaria inerte a até ser tomado pela morte”, ponderou o eu.

“A vida é assim mesmo, né? cheia de contradição. Os outros infernizam, mas são absolutamente necessários. Desejo que eles tenham vida longa dentro da gente! Matar os outros é também matar a gente”, disse ele encerrando a conversa.

Depois desse período de recolhimento em si, ele foi pra cozinha conversar com a filha. Ela tinha acabado de chamar ele para o lanche da tarde.


quarta-feira, 29 de abril de 2020

O ativismo político do judiciário


Estou escrevendo um texto sobre a crise política que se abateu sobre nós desde as “jornadas de 2013”. De lá para cá, entramos num turbilhão político (e econômico) medonho, avassalador. Decidimos nos lançar num buraco sem fim. Depois de nos lançarmos no buraco, decidimos que a “melhor coisa” a fazer era aprofundar mais o buraco. Começamos a cavá-lo desvairadamente. Nesse momento, parece não haver nenhuma perspectiva de que queremos, primeiramente, parar de cavar e, depois, sair do buraco.

Hoje, 7 anos depois dessa decisão, não há um brasileiro – exceto o 1% mais rico – que não esteja sofrendo algum tipo de consequência desse turbilhão. Obviamente, quem mais está sofrendo é quem já sofria muito: o brasileiro empobrecido.

Em 2013, o brasileiro estava começando a ver no horizonte o fim da pobreza e da indignidade social. Mas de repente o curso da história mudou. Demos uma guinada de 180 graus e passamos ir na direção do passado, buscando, com todas as nossas forças políticas e institucionais, restaurar a infâmia. Esse assunto será tratado, de forma mais detalhada, no texto que vou publicar daqui a alguns dias.

Por ora, quero chamar a atenção para um outro detalhe importante da nossa tragédia pós “jornadas de 2013”. Trata-se do ativismo político do judiciário. Esse é um tema complexo que demanda uma grande discussão. Não temos espaço suficiente para discutir aqui todos os aspectos da questão. Por isso, vou mencionar apenas um tipo de ativismo político que tem se tornado recorrente na política brasileira recente: a intervenção do STF em nomeações do Governo Federal.

Em entrevista à CNN hoje (29/04) pela manhã, o ex-ministro do STF, Ayres Britto defendeu a interversão do STF em nomeações do governo como um recurso que visa proteger a constituição. Ao discutir a decisão do ministro Alexandre de Moraes, em suspender nomeação do diretor geral da PF, Alexandre Ramagem, Ayres Britto, disse que a decisão do ministro Alexandre de Moraes visou impedir que o executivo agisse de forma não republicana.

O ex-ministro Ayres Britto fez uma retomada das decisões recentes que o STF tomou nessa direção. Cita os casos de Lula, Cristiane Brasil, José Dirceu, Wellington César Lima e Silva. (Esses casos estão detalhados no fim deste artigo, com as devidas fontes [1]).

Por fim, o ex-ministro justificou: “Então, é uma linha de entendimento do Supremo que o habilita a sair, em última análise, em defesa da Constituição [...]. Nós estamos chamando o feito à ordem constitucional”(https://bit.ly/2Ygvt6K).

Desde 2013, a sociedade brasileira tem se entregado, de forma desastrada, a um clamor por esvaziamento da política. Emergiu e se consolidou entre nós a ideia de que a política é o nosso grande demônio. É ela que nos rouba tudo; é ela que nos faz ser atrasados; é ela que impede a melhoria dos serviços públicos etc.

As manifestações de 2013 não tinham como alvo, a princípio, nenhum político. Num primeiro momento, a indignação social estava voltada para baixa qualidade dos serviços públicos, especialmente o serviço de transporte urbano. Pouco a pouco a manifestação foi se tornando pulverizada e logo passou a ter como alvo as instituições políticas, especialmente o Congresso Nacional.

Havia um clamor popular por reinvenção da política. E esse clamor se transformou em ataque severo à política. Desde então, vimos crescer na sociedade uma negação da política como instrumento de mediação da esfera pública.

A política foi derrotada. Não demorou muito para que toda a indignação com o sistema político se voltasse contra os políticos individualmente e contra espectros políticos específicos. Foi esse o contexto que fez irromper, com força, o antipetismo, a antipolítica e a oposição ferrenha ao Congresso Nacional.

Para entendermos a entrada do judiciário no campo político, precisamos voltar a 2012. Ali estava plantada a derrocada da política e ascensão do ativismo judiciário. Em 17 de dezembro de 2012, depois de quatro meses e meio de intensa exposição midiática, o STF concluiu o que ficou conhecido como "julgamento do mensalão" (https://glo.bo/3aLxY3P).

Joaquim Barbosa, então presidente do STF e relator da ação penal 470, se tornou herói nacional. Não havia, na história da suprema corte brasileira, até aquele momento, um único julgamento que tivesse sido televisionado e que tivesse transformado um dos ministros em celebridade nacional. A história nos diz que quando um juiz vira um herói é um sinal de que nossas instituições estão em crise.

Com a política sob forte ataque e negação, a sociedade brasileira passou a depositar no judiciário toda sua expectativa de mudança. O judiciário, estimulado pela grande mídia, aceitou o papel de protagonista político. O STF se tornou, definitivamente, um ator combativo no campo político.

Não bastasse a atuação do STF, tivemos, em 2014, a entrada definitiva das outras instâncias da justiça no campo da política. Em 17 de março de 2014 se iniciou uma operação de investigação que mudaria por completo o rumo da política brasileira. A operação Lava-Jato foi uma grande empreitada política protagonizada pela Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF), Justiça Federal do Paraná e Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

O lava-jatismo se tornou, então, um poderoso partido político, tendo o juiz Sergio Moro como o grande líder. Esse partido foi formado a partir de um consórcio de várias instituições e atores: grande mídia, STF, setores políticos e partidários, movimento evangélico etc. Criou-se, portanto, o caldo institucional que promoveria a escalada do caos político. As eleições de 2014 sofreram, de alguma forma, o respingo desse caldo. Mas o pior se estabeleceu a partir de 2015.

A história política recente é bastante conhecida. Dessa forma, não há necessidade de relembrarmos detalhadamente os fatos políticos de 2015 a 2020. Vou apenas enumerar alguns deles:

2015: contestação dos resultados da eleição, aprofundamento da Lava-Jato, eleição de Eduardo Cunha para presidência da Câmara, crise econômica;
2016: impeachment de Dilma, crise econômica;
2017: caso JBS, denúncias contra Temer, crise econômica;
2018: crise econômica, eleições baseadas na antipolítica e antissistema, vitória de Bolsonaro;
2019: crise política persistente, crise econômica persistente, crise da imprensa e fake News, ameaças constantes às instituições democráticas;
2020: crise política persistente, crise econômica persistente, crise da imprensa e fake News, ameaças constantes às instituições democráticas, COVID-19.

Junto com o lava-jatismo, emergiu o movimento político da antipolítica. Parece contraditório, mas foi isso mesmo que aconteceu . Surgiu dentro da própria política um movimento oportunista de negação da política, amplamente alinhado com o lava-jatismo. Esse movimento era, a princípio, bastante diverso em termos de liderança. Como se tratava de uma grande oportunidade política, diversos políticos logo se aliaram à antipolítica como tábua de salvação da própria pele.

Jair Bolsonaro foi o político que melhor se adaptou ao movimento da antipolítica, tornando-se em 2018 seu grande líder. Sua plataforma política se estabeleceu, portanto, em duas bases elementares e vazias: ativismo político do judiciário (lava-jatismo) e movimento antissistema (antipolítica). Foi a partir dessas duas bases que ele, mesmo sem ter um plano de governo e sem participar efetivamente do processo eleitoral, induziu 57 milhões de brasileiros a acreditar que o ativismo judiciário e a antipolítica seriam o caminho para a solução da crise que temos enfrentado desde 2013. O que se viu depois do início do governo Bolsonaro foi só o agravamento das crises política e econômica.

É a partir desse contexto que devemos entender o recente ativismo do judiciário. É esse amplo pano de fundo que explica mais uma intervenção do STF em atos do Governo Federal.

Para finalizar, é importante dizer que os próprios políticos são os principais responsáveis pela derrocada da política e pela ascensão do ativismo do judiciário. Foram os próprios políticos que se recusaram a promover as reformas políticas que a população tanto pedia. Foram os próprios políticos que se recusaram a reorientar o curso de nossa política. Foram os próprios políticos que alimentaram a autofagia, ao canalizarem a indignação pública a um campo político específico (petismo), na esperança de que os outros campos políticos seriam poupados.

Agora, o que resta à política, como saída necessária e urgente, é a realização de uma grande aliança política, em torno de princípios democráticos, com vistas à restauração e reinvenção da política. Sem a política, não há salvação para nossa democracia. Sem a política, jamais sairemos da crise política e da crise econômica. O judiciário não pode salvar a política. Essa não é a sua vocação constitucional.

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[1] Intervenções do STF em atos do Governo Federal

Confirmação do processo de cassação do mantado do deputado José Dirceu, mesmo o deputado estando licenciado da função
A decisão foi tomada pelo plenário, em 30 de novembro de 2005 (https://bit.ly/2YkVe5Y).

Proibição de Wellington César Lima e Silva exercer a função de ministro da Justiça, sendo membro do Ministério Público
A decisão foi tomada pelo colegiado do STF, em 09 de março de 2016 (https://glo.bo/2VQYJj8).

Suspensão da nomeação de Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil
A decisão foi proferida pelo ministro Gilmar Mendes, em 18 de março de 2016 (https://glo.bo/35sxOgN).

Suspensão da posse de Cristiane Brasil como ministra do Trabalho
A decisão foi proferida pela ministra Carmem Lúcia, em 22 de janeiro de 2018 (https://glo.bo/2KNh22m).


sábado, 25 de abril de 2020

Como fica o bolsonarismo depois da saída de Sergio Moro


O bolsonarismo era, até o momento, sustentado por cinco núcleos político-ideológicos: olavismo, movimento evangélico, neoliberalismo, militarismo e lava-jatismo. Hoje, com a saída de Sergio Moro do governo, houve um grande baque na sustentação.

Apresento abaixo uma breve descrição de cada um desses pilares e a reconfiguração do apoio ao presidente Bolsonaro.

a) Núcleo olavista

Esse núcleo está embasado na noção de guerra cultural. Acredita-se que o Brasil, após a redemocratização, foi tomado por uma ideologia comunista que se estabeleceu fortemente no sistema educacional e nas instituições culturais. O núcleo olavista é representado no governo principalmente pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O núcleo tem os seguintes temas como agenda básica: conservadorismo, anticomunismo, antiglobalização e nacionalismo/patriotismo.

Avaliação: O núcleo continua forte; segue com o apoio maciço dos seguidores. É interessante dizer que esse núcleo tem uma forte atuação nas redes sociais, especialmente no Twitter, com milhares de robôs. É nesse núcleo que está situado o gabinete do ódio, isto é, o centro de produção e disseminação de fake News de apoio a Bolsonaro e de destruição da reputação dos adversários.

b) Núcleo religioso

Esse pilar está embasado na noção de resgate moral da sociedade. Acredita-se que a sociedade brasileira se degenerou em seus costumes e precisa ser restaurada por meio de uma agenda cristã. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, é a representante desse núcleo. As principais agendas são: costumes, família, anti-identitarismo e combate à “ideologia de gênero”. O movimento evangélico brasileiro é, em sua maior parte, o maior afiançador desse núcleo ideológico. Existe nas igrejas evangélicas uma forte adesão a Bolsonaro. Ele é visto como o enviado de Deus para restaurar o país da corrupção e da degeneração moral.

Avaliação: Esse núcleo sofreu um forte revés no apoio. Sergio Moro tem uma grande penetração entre os evangélicos. Não custa lembrar que o procurador Deltan Dallagnol, parceiro de Moro nos desdobramentos da operação Lava-jato, é evangélico e percorreu o Brasil dando palestras em várias igrejas evangélicas. Penso que a debandada de seguidores aqui é da ordem de mais de 50%. O depoimento de reprovação do pastor Silas Malafaia, no Twitter, é um indicativo claro do tombo. Embora mantenha o apoio ao presidente, Malafaia foi veemente em dizer que a saída de Moro é um "erro político total".

c) Núcleo neoliberal

Esse núcleo defende a redução do Estado de bem-estar social. Tem como pautas principais a redução dos direitos do trabalhador, redução da assistência social, redução do investimento nos serviços públicos (educação e saúde, principalmente), redução da seguridade social etc. Junto à redução do Estado de bem-estar social, está também o projeto de concessão de diversos serviços à iniciativa privada e os projetos de privatização das empresas públicas. Esse núcleo tem como principal representante o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Avaliação: Esse núcleo ainda mantinha certo apoio do empresariado. A mídia tradicional já tinha abandonado o barco no início da pandemia, ao apoiar as medidas de isolamento social. Penso que agora houve um forte esvaziamento. O empresariado era muito ligado ao capital político de Sergio Moro. O núcleo teve uma redução de apoiadores em mais de 70%, considerando a debandada desde o início da pandemia.

d) Núcleo militarista

O núcleo militarista se assenta na ideia de que as Forças Armadas são responsáveis pela proteção da República e pela segurança nacional. Esse núcleo é representado no governo pelos ministros generais: Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). Há ainda, obviamente, o próprio presidente, Jair Bolsonaro, que é capitão da reserva e o vice-presidente, Hamilton Morão, que é general da reserva. O núcleo é alinhado com o discurso anticomunista, segundo o qual o Brasil vive uma ameaça constante de uma revolução comunista. Esse discurso é, obviamente, uma memória da ditadura militar e é amplamente reforçado pelo discurso olavista. Isso não dizer que o militarismo está plenamente alinhado com o olavismo. O ponto de contato é apenas o discurso anticomunista.

Avaliação: Esse núcleo é bastante ligado a Sergio Moro porque defende a pauta anticorrupção. Aliás, essa pauta foi uma das bases de sustentação ao golpe militar de 1964. Esse núcleo perde, então, um apoio considerável. Resta saber o que acontecerá com os militares no governo. Eles estão vendo a imagem das Forças Armadas cada vez mais associada aos desmandos de Bolsonaro. E isso é bastante problemático. O núcleo militarista contava com pequeno apoio popular, de forma que a maior perda é mesmo dentro do próprio governo. Do ponto de vista externo, a perda de apoio deve ter girado em torno de 50%.

e) Núcleo lava-jatista

O lava-jatismo é uma recorte político-ideológico bastante recorrente na história brasileira, embora só recentemente tenha alcançado uma forte penetração no Judiciário e no governo propriamente dito. Esse núcleo tem como pautas básicas o combate a corrupção e o punitivismo legal. A pauta anticorrupção esteve presente em praticamente todas as crises políticas brasileiras, desde o golpe que instaurou a República, em 1889, até o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016. As grandes massas sempre se mostraram bastante sugestionáveis a qualquer movimento da mídia na promoção da agenda de combate à corrupção. Temos enfrentado crises políticas sucessivas que têm como mote a denúncia de corrupção no governo. A novidade histórica recente foi a entrada avassaladora do Ministério Público e do Judiciário nesse núcleo político-ideológico por meio da operação Lava-jato. Sergio Moro se tornou a estrela desse núcleo, acumulando um grande capital político. Jair Bolsonaro, entendendo o grande patrimônio que Moro representava, prontamente o inseriu em seu quadro de ministros.

Avaliação: A saída de Sergio Moro do governo provoca uma tragédia colossal no bolsonarismo lava-jatista. A perda é de 100% dos apoiadores. O colapso desse núcleo será, possivelmente, a razão do fim do governo Bolsonaro. Não custa lembrar que Moro conta com o apoio maciço da mídia tradicional. O Jornal Nacional de hoje, por exemplo, gastou mais da metade da edição exaltando Sergio Moro e, consequentemente, demonizando Bolsonaro.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Fazer viver e não deixar morrer: por uma comunidade planetária

O neoliberalismo continua manejando cruelmente a vida e a morte. Garante que alguns vivam e deixa que outros morram. A pandemia tem classe e tem cor. Debora Diniz e Giselle Carino mostram, no artigo "É hora de olhar a pandemia a partir do nosso lugar", as faces sociais, econômicas, etárias da morte por Covid-19: "Os corpos velhos em maior risco de letalidade pela doença têm sexo, cor e classe. Serão os corpos mais vulneráveis ao racismo, pobreza e sexismo que morrerão" (https://bit.ly/2UUUgex).

Contudo, há uma ideologia cruel que, em parte, a pandemia não respeita. Para ela, não existe nacionalidade. A Covid-19 ataca os humanos, não as nações. "O vírus demonstra que a comunidade humana é igualmente precária", afirma Judith Buttler (https://bit.ly/2UWuTt4).

Estamos diante de uma encruzilhada: ou realizamos uma cooperação global jamais vista, sem ranços nacionalistas, ou pereceremos todos. Nenhum país vencerá sozinho.

Teremos que, pela via da dor, desenvolver a consciência de que somos uma aldeia global, uma família. Até aqui vínhamos usando a globalização apenas como um instrumento perverso de divisão internacional da riqueza, da pobreza e do trabalho.

Não dá mais para seguir nessa linha. Agora temos que realmente pensar no planeta como a nossa casa. Vivemos todos ou perecemos todos! "Sabemos que a pandemia não é cega e tem alvos privilegiados, mas mesmo assim cria-se com ela uma consciência de comunhão planetária, de algum modo democrática", defende Boaventura de Sousa Santos (https://bit.ly/34o9ITR).

Ninguém mais pode ser ignorado. "Ninguém pode ficar para trás", como diz Ilona Szabó de Carvalho, na Folha de S. Paulo (https://bit.ly/2Vd0B46).

Junto com o coronavírus, estão se a alastrando descontroladamente uma série de vírus ideológicos (fake news, teorias conspiratórias, xenofobia etc.). Mas, como enfatiza Slavoj Žižek, "é possível que outro vírus ideológico, este muito mais benigno, também deva se alastrar e, com sorte, infectar a todos nós: o vírus de começarmos a pensar em possibilidades alternativas de sociedade, possibilidades para além do Estado-nação, e que se atualizam nas formas de cooperação e solidariedade globais" (https://bit.ly/2USlGBV).


quarta-feira, 18 de março de 2020

O que o colapso político pode nos ensinar

O colapso que estamos vivendo hoje começou a ser pavimentado em 2016, com um golpe parlamentar. De lá para cá as coisas só pioraram. Em 2018, o Brasil elegeu um novo presidente. E fez isso de forma raivosa e irracional. Como resultado, temos hoje um país inteiro em colapso.

Em meio a essa crise, podemos aprender alguma coisa, se houver a mínima disposição em ler o passado para construir um futuro diferente. Elenco a seguir pelo menos quatro lições importantes das eleições de 2018.

1) O voto de protesto leva ao caos. Votar com o fígado é cavar a própria sepultura. O voto antissistema é raivoso e irracional. E, por afinidade, descamba para o lado mais estúpido, incompetente e abjeto. Quem votou por protesto, que aprenda a lição: Deu merda de novo!

Agora que o sistema foi posto em ruína pelo antissistema, precisamos desesperadamente do sistema funcionando. Então, a turma do tio do zap já pode enfiar o rabo entre as pernas e voltar para o silêncio e para a insignificância. Temos uma pandemia e uma economia em colapso a enfrentar.

2) O voto religioso-moralista é facilmente manipulado. Valores morais e religiosos (Deus, família, heterossexualidade, costumes etc.) são a ponte para a manipulação. Esses valores são, em geral, manipulados por quem, hipocritamente, preza muito a violência e a barbárie. Infelizmente, os evangélicos foram engolfados pelo discurso manipulador da extrema-direita.

Agora os crentes - fanatizados e cegados pelo moralismo - já podem se enfurnar novamente em suas igrejas e confessar o mal que fizeram ao país. E que nunca mais saiam de lá para fazer política! Deu merda!

3) O voto populista leva ao fascismo. O voto no herói-salvador está relacionado com o voto antissistema, mas tem características específicas. Esse tipo de voto é baseado na fé irracional numa figura fora do padrão, um sujeito “antissistema”, um messias. Acredita-se que esse sujeito encarna poderes mágicos para restabelecer a paz.

O que a história mostra é que esse tipo de sujeito nada mais é do que um fascista, que busca de apoio popular para implantar seu projeto de poder. O que um líder fascista mais deseja é ser um ditador. Uma vez autorizado pelo povo, o fascista pode perseguir ferozmente seus inimigos reais e imaginários.

O fascismo se baseia numa guerra lunática do “bem” contra o “mal”. Do lado “bem” estão os conservadores, bajuladores e patriotas. Do lado do “mal” estão todos que não aderem ao projeto fascista. Os inimigos são, em geral, rotulados por um nome que engloba todos os opositores. No caso brasileiro atual, os inimigos são os “petistas”.

Estamos nessa crise hoje porque boa parte da população brasileira achou que um lunático, com raciocínio sub-humano (e cheio de teorias conspiratórias) era o salvador. 

Chega! Já temos evidência suficiente para ver que o projeto desse sujeito é autoritário, populista, fascista e autocentrado. Deu merda! Que os ingênuos percam a ingenuidade! Que os oportunistas de plantão (tipo Amoedo, Doria etc.) declarem logo seu arrependimento e trabalhem unidos pelo país! Só assim podemos começar a dolorosa reconstrução do Brasil.

4) Os votos 1), 2) e 3) podem destruir uma democracia. O objetivo de quem é eleito baseado no voto irracional e antissistema é conduzir a sociedade ao colapso, para então estabelecer o Estado de exceção. Se a sociedade não acordar a tempo, bye, bye democracia! Estamos numa crise profunda e sem governante.

O autoritarismo está à espreita, com os militares no entorno do poder prontos para dar o bote. Que os milicos da ativa voltem para o quartel e os milicos aposentados voltem para o pijama. Deu merda!

Só a sociedade civil pode governar a si mesma.
Só a política pode salvar a si mesma.
Só a democracia pode salvar a si mesma.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Civilização versus extrema-direita


Existem hoje dois mundos em competição. De um lado, está o mundo regido por valores civilizatórios básicos: humanismo, democracia, defesa do planeta, direitos humanos etc. Do outro, está o mundo paralelo inventado pela extrema-direita. Trata-se uma realidade altamente tóxica, baseada em falsidades, desinformação, obscurantismo, demonização do outro, violência discursiva, nacionalismo etc. 
É desesperador ver que, neste momento, o mundo paralelo da ultradireita está em vantagem.

Do lado da civilização, estão alguns fundamentos básicos que precisam ser sempre reafirmados, embora óbvios. Em momentos de retrocesso, é preciso apontar para o futuro, enfatizando as bases da utopia que buscamos. Para chegar até aqui, o projeto humano teve que superar, com certa frequência, arroubos de barbárie. Superaremos mais uma vez.

Faço a seguir uma retomada de alguns princípios civilizatórios fundamentais para iluminar as trevas que estamos vivendo atualmente.

1. A vida é valiosa. Isso significa que a nossa casa (o planeta) precisa ser pensada de forma ecossistêmica. A vida na terra é regida por um equilíbrio precário, que pode ser definitivamente desmantelado. Sem responsabilidade ambiental, todos seremos extintos, mais cedo do que imaginamos.

2. A ciência constrói e valida o nosso saber sobre o mundo. A ciência constitui o sistema de saber mais confiável que o ser humano já inventou. E esse sistema é confiável porque está aberto, continuamente, à reflexão teórica, à experimentação e à revisão.

O senso comum, desenvolvido a partir de experiências sociais e culturais imediatas, tem um papel importante em nossos processos de socialização, enculturação e organização política, mas não pode ser colocado como parâmetro. Por estar enraizado na tradição e em valores culturais particulares, o senso comum tende a ser muito resistente à revisão e à mudança.

Além disso, o senso comum também tende a ser resistente a experimentações científicas mais sofisticadas e abstratas. Ele confia cegamente em nossas experiências sensoriais mais elementares. Por exemplo, se meus olhos veem o sol se movendo diariamente, pelo senso comum, tenho a evidência de que a terra está parada. Só quem tem uma visão crítica do senso comum consegue buscar na ciência uma verdade que vai além dos sentidos. Os terraplanistas confiam cegamente no que os seus olhos veem.

3. A informação deve ser verdadeira, do contrário não é informação. Todos as sociedades têm necessidade de trocar informação. Por isso desenvolvemos ao longo da história uma instituição, na esfera da vida pública, com o papel de fazer circular notícias. A instituição jornalística tem, assim, o papel de identificar, selecionar, apurar e divulgar as informações que têm valor para uma sociedade.

É verdade que nem sempre as instituições jornalísticas fazem isso com toda a responsabilidade necessária, seguindo os passos apontados acima. Como são empresas, frequentemente a busca pelo lucro fala mais alto. Mas, a despeito dos problemas, ainda não inventamos um sistema de partilha de informação melhor do que o jornalismo.

A alternativa à imprensa, que é a circulação de informação/desinformação/mentiras via app de mensagem – whatsapp - e via redes sociais, tem provocado uma série de problemas à vida social e às instituições públicas, constituindo uma séria ameaça à vida civilizada e às democracias.


4. A democracia é o melhor sistema político já inventado pelos humanos. Entendemos por democracia um sistema político baseado no governo do povo, que constitui seus representantes via escolhas eleitorais periódicas, reguladas por um sistema que impede a fraude e a desigualdade nas condições de disputa. 

Além dessas características básicas, o sistema democrático defende que a) a coisa pública jamais deve ser tomada pelo interesse particular;  b) os representantes eleitos devem respeitar a instituições; c) os direitos civis e individuais devem ser protegidos pelas instituições; d) a igualdade formal entre os seres humanos, garantida por lei, deve ser realizada no âmbito da vida prática, do dia.

Embora a democracia representativa apresente eventualmente alguns problemas, não temos alternativa melhor. Qualquer coisa política feita fora da democracia é infinitamente pior do que as coisas feitas dentro da democracia.

Esses são alguns fundamentos do mundo social regido por princípios civilizados e democráticos. Esse é o mundo que toda pessoa minimamente humanizada deseja para vida social.

Como dito no início, temos dois mundos em competição. Do outro lado está o mundo da extrema-direita, que se opõe a todos esses fundamentos.