quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A coisa


Minha filha tinha uma tarefa da escola pra fazer. Ela precisava escrever uma crônica, sobre qualquer tema. Então ela me pediu uma sugestão. Minha ideia foi: “Escreva uma crônica sobre uma sociedade que perdeu a capacidade de nomear”.  

Ela foi escrever a crônica. E eu me impus o desafio de fazer a mesma tarefa escolar dela. Está aqui o resultado:

Uma certa sociedade, que vive não muito distante daqui, passou chamar todos os seres e objetos de coisa. E isso aconteceu porque, num dado dia, essa sociedade entrou num conflito violento e generalizado por conta de uma disputa em torno do verdadeiro nome de um alimento especial.

Irrompeu-se uma guerra civil porque um grupo dizia que o verdadeiro nome desse alimento era “bolacha”, outro dizia que era “biscoito”, outro dizia que era simplesmente “uma coisa de comer”.

Com o avanço da violência, os agentes públicos se viram na obrigação de pacificar a sociedade. Então instituíram uma lei que proibia dar nomes aos seres e aos objetos. Tudo deveria ser chamado de “coisa” simplesmente.

Daí a pessoas passaram a produzir frases assim: “Hoje comprei aquela coisa que você me recomendou enquanto tomávamos a coisa naquela coisa de ontem”.

Dois séculos depois, ninguém mais sabia que a coisa (a língua) já tinha sido cheia de nomes. Todos se satisfaziam com uma única forma de nomear.  E todos, de forma incrível, se entendiam perfeitamente bem nesse mundo morto!

Só que, para infelicidade dessa sociedade, o seu Coisa resolveu estudar a história da coisa (da língua). Então descobriu que, num passado não muito longe, a língua, que agora estava em paz e morta com um único nome, tinha tido uma vida agitada, com inumeráveis nomes.

Então o seu Coisa cansou de ser coisa. Passou a pedir que as pessoas chamassem ele de Fernando. Essa atitude estimulou uma revolta. Todos passaram a reivindicar um nome próprio, uma vida própria, uma identidade própria. E isso lançou a sociedade numa disputa de palavras novamente.