quarta-feira, 4 de setembro de 2019

As ditaduras de lá vs a ditadura de cá


Há uma diferença enorme entre o modo como o Brasil e os demais países sul-americanos lidam com a ditadura. Uma onda política perversa mergulhou o Brasil, Argentina, Uruguai e Chile num mar trevas e terror, nos anos de 1964 a 1990. Por mais de duas décadas, ditaduras sanguinárias perseguiram, exilaram, prenderam, torturam e mataram centenas de pessoas.

Em termos de truculência, as ditaduras de lá e a ditadura daqui se assemelham na crueldade. Em termos de memória e de reparação história, as ditaduras de lá são bem diferentes da ditadura de cá.

No Chile, Argentina e Uruguai, todos os campos políticos democráticos (direita, centro e esquerda) rebatem veementemente o período de ditadura que enfrentaram. Não existem por lá políticos que passam pano para Augusto Pinochet (Chile), Jorge Rafael Videla (Argentina) ou Gregorio Álvarez (Uruguai). E não é só o mundo político que tem repulsa da ditadura. A sociedade como um todo repudia esse período da história. 

Aliás, na Argentina, até mesmo os familiares dos ditadores têm “vergonha de se associar a eles”, como mostra a reportagem “O túmulo dos ditadores que ninguém quer recordar”, do El País (https://bit.ly/2LwSo4K).

É nesse contexto que devemos analisar a seguinte fala de Bolsonaro a Michelle Bachelet, cujo pai foi morto pelo regime de Pinochet:

"Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do [Augusto] Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Parece que quando tem gente que não tem o que fazer, como a senhora Michelle Bachelet, vai lá para a cadeira de direitos Humanos da ONU" (https://bit.ly/2kiApGW). 

É nesse contexto que devemos entender o desastre que o Brasil está promovendo a si mesmo no campo diplomático. No Chile, não há políticos, mesmo na direita, que estejam dispostos a se aliar com bajuladores de ditadura.

Infelizmente, no Brasil temos vários políticos que celebram a ditadura. Temos também uma enorme parcela da população que apoia a ditadura. Existe em nossa sociedade uma constante tentativa de revisionismo histórico desse período asqueroso. 

O fato é que fracassamos, como sociedade, em construir uma memória da ditadura como de fato ela foi: cruel, sangrenta e assassina. Fracassamos, como sociedade, ao não punir as mortes e as violações de direitos humanos praticadas por militares e pelos presidentes militares-ditadores.

O resultado desse fracasso continua a nos perturbar. 

Precisamos voltar aos porões da ditadura e mostrar, sem rodeios, as monstruosidades que Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo praticaram, no período de 1964 a 1985. Precisamos mostrar, sem rodeios, a face monstruosa de Ustra. Sem esse trabalho cívico-político, continuaremos usando a democracia para eleger escórias humanas autoritárias e antidemocráticas. Sem esse trabalho continuaremos a ter escolas, ruas, viadutos etc. com nome de ditadores. Isso é muito vergonhoso, uma verdadeira afronta à nossa democracia. Nosso mundo não pode mais comportar homenagens a genocidas.

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