quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Extrema-direita, o campo da barbárie


 “Eu sou de centro-direita”, diz Bolsonaro (bit.ly/2L0ONOy).

Os conceitos de esquerda e direita têm sido constantemente questionados. A principal crítica está relacionada ao fato de esses conceitos serem distribuídos numa escala binária, polarizada. Nesse sentido, o espectro político é dividido em apenas dois campos, deixando de fora elementos que supostamente não cabem em nenhum dos polos.

É consenso que todos os paradigmas binários são teoricamente frágeis. Aliás, em última instância, qualquer paradigma classificatório, relativo ao mundo social, é precário, mesmo que tenha três, quatro ou cinco campos. Nenhum paradigma vai conseguir abarcar todas as nuances da vida social. E, se algum paradigma tiver a pretensão de ser exaustivo, apresentando um campo para cada recorte social, perderá por completo a função e a validade teórica, uma vez que será absurdamente extenso.

É importante enfatizar que, mesmo sendo binário, o modelo esquerda-direita pode abrir espaços em cada lado para abarcar particularidades, mudanças sociais e inovações ideológicas. Assim, me parece que os nossos arranjos políticos ainda podem ser pensados e analisados sob a lente esquerda-direita.

Alguns grupos sociais e/ou sujeitos recusam a identificação esquerda-direita. Se dizem acima dessa classificação. Nesse caso, é importante analisar que fatores levam tais grupos e/ou sujeitos a negar a identificação. Que posições sociais ocupam, que lhes cobram uma suposta isenção?

Nenhuma recusa identificatória, no campo ideológico, é gratuita. Há sempre um ganho em vista, a ser mantido ou conquistado. Pessoas em posições de liderança, quando compreendem a heterogeneidade do grupo social que lideram, tendem a recusar a identificação ideológica.

Líderes religiosos, por exemplo, quando conseguem fazer uma leitura adequada da complexidade social, tendem a dizer que não são nem de direita, nem de esquerda. Ancoram sua identidade em algum elemento da ideologia religiosa para justificar suas posições.

A seguir faço uma breve discussão sobre duas questões importantes a respeito da classificação esquerda-direita especificamente no campo político.

A primeira diz respeito às classificações centro-esquerda e centro-direita. Tanto líderes de esquerda quanto de direita, quando percebem que o seu campo ideológico de origem está sofrendo algum revés na opinião pública, tendem a se identificar como pertencentes à centro-esquerda ou à centro-direita. Esse apego à noção de centro - uma zona de intersecção - serve como apoio para conquistar a adesão dos grupos populacionais que não têm clareza quanto ao campo ideológico de filiação. Desse modo, dizer-se de centro-esquerda ou de centro-direita é, na verdade, um estratagema, uma jogada política.

A outra questão diz respeito à recusa das classificações extrema-esquerda e extrema-direita. Diferentemente das identificações centro-esquerda e centro-direita, que são dadas pelos próprios grupos sociais ou sujeitos, as identificações extrema-esquerda e extrema-direita são dadas pelo outro. Dificilmente um grupo social ou líder político se identifica assim. Isso porque o qualificador extrema tem carga negativa, indicando uma posição de desequilíbrio, de insensatez, de incivilidade etc.

As instituições sociais e do estado, quando se veem ameaçadas por determinados grupos ou líderes políticos, tratam logo de posicioná-los nas extremidades do espectro, o lugar da barbárie, o lugar do desrespeito às regras sociais e civilizatórias. É importante frisar que esse é um mecanismo discursivo importante de autoproteção das instituições. Em geral, esse tipo de classificação se baseia em ameaças ou ações destrutivas concretas, realizadas pelos grupos e/ou líderes políticos que são assim identificados.

Nesse sentido, é bastante significativo, no atual cenário político, a tentativa do presidente Jair Bolsonaro em se identificar como centro-direita. Desde que tomou posse, o presidente vem seguidamente atacando as instituições e os contratos civilizatórios, razão pela qual a imprensa e as demais instituições o classificam no campo da extrema-direita.

Quanto tinha apoio popular suficiente, o presidente fazia questão de se mostrar no campo da direita. Porém, no último mês, depois de uma sequência de crises no governo (em grande parte causadas por ataques do presidente a contratos sociais e civilizatórios firmados em escala global), Jair Bolsonaro vem tentando se deslocar discursivamente para a centro-direita. Agora, resta saber se essa tentativa de se desligar do campo da barbárie, a extrema-direita, surtirá algum efeito na opinião pública.

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