segunda-feira, 6 de maio de 2019

A linguagem, sempre a linguagem


A linguagem constitui os sujeitos; os sujeitos constituem a linguagem.

Esse processo de mútua constituição se desenrola numa relação de vai e vem sem fim. Os estudiosos caracterizam esse movimento constitutivo da linguagem e dos sujeitos como uma “relação dialética”, reconhecendo que essas duas ações são interdependentes, intrincadas e ininterruptas.

Assim, a ordem das ações (linguagem constitui sujeito – sujeito constitui linguagem) é meramente um detalhe, uma exigência da linearidade da língua. Nunca podemos demarcar isoladamente uma dessas ações num dado momento, evento, cenário, prática ou estrutura social.

Embora seja um lugar comum para quem estuda a área, o reconhecimento de que tudo se faz pela linguagem não é algo facilmente perceptível. Em nossa vida cotidiana, tendemos a acreditar que as coisas simplesmente existem, independentemente da linguagem. Tendemos achar que as relações sociais são construídas de forma natural, como resultado de uma sequência de fatos eternamente repetidos, fatos que sempre existiram e que sempre existirão. Não é por acaso que qualquer mudança social que instabilize algumas práticas cause tanto estranhamento e revolta em certos grupos sociais, especialmente os grupos privilegiados.  

Dada a naturalidade com que usamos a linguagem cotidianamente, tendemos a achar que ela simplesmente nomeia e representa coisas, de forma direta, transparente e, em alguns poucos casos, de forma precária.

Em geral, as pessoas não questionam o fato de “deus” ser uma palavra masculina e “divindade” ser uma palavra feminina. Conduzidos pela história, simplesmente usamos essas palavras. Pouco importa se a entidade que chamamos de “deus” tenha gênero ou não; ou se essa entidade, tendo gênero, seja do masculino ou feminino. Simplesmente, seguimos o fluxo histórico. Se no processo sociocultural, dentro do qual fomos constituídos como sujeitos, uma entidade sem gênero é nomeada com uma palavra no masculino (“deus”), simplesmente repetimos o processo sem qualquer questionamento. Tendemos achar que a linguagem, nesse caso, não faz mais do que representar tal objeto.

Uma pessoa que não reconhece o papel constitutivo da linguagem poderia levantar o seguinte argumento:

“Ora, a linguagem não constrói o objeto ‘DEUS’; ela simplesmente o representa. Se na língua portuguesa não há nomes sem gênero, não resta outra saída aos falantes senão usar uma palavra masculina ou feminina. O fato de a entidade ‘DEUS’ ter sido representada numa palavra masculina foi um mero acaso. Poderia ter sido, igualmente, representada numa palavra feminina. Foi só uma questão de loteria da língua, por conta de uma leve precariedade”.

Contudo, o fato é que, do ponto de vista das ciências da linguagem, o uso de uma palavra masculina para nomear a divindade judaico-cristã não é um mero acidente. O gênero gramatical das palavras que usamos no dia a dia não é, em grande parte, uma mera loteria linguística. Resulta de um processo de constituição social complexo, em que a linguagem assume um papel importante na hierarquização dos gêneros, dando ampla vantagem e dominação ao gênero masculino.

O fato de usarmos a palavra “denegrir” como sinônimo de “difamar” também não é um mero acaso linguístico. Existe uma construção social racista que dá suporte a esse uso.

A língua constrói todo um sistema complexo de hierarquização dos gêneros, das raças, das classes sociais etc. O grande desafio da educação linguística escolar é mostrar que tudo que se faz em uma sociedade se faz na e pela linguagem. Não existe uma sociedade racista que não aloje esse racismo na linguagem. Não existe uma sociedade sexista, machista e patriarcal que não aloje esses comportamentos na linguagem.

Portanto, é na linguagem que devemos buscar e corrigir as bases do que somos. É na ressignificação e reconstrução da linguagem que podemos construir uma nova sociedade. Não há possibilidade de avanço humanístico e civilizatório para a sociedade que despreza o ensino-aprendizagem da linguagem.