quarta-feira, 17 de abril de 2019

Outra identidade para viver


Como você se sente em relação ao mundo que recebeu da sua família, especialmente o mundo religioso? Você quer ou não dar continuidade a esse mundo? 

Essas perguntas tocam em um dos aspectos centrais de nossa identidade. O que somos resulta, em grande parte, de uma herança familiar. Aquilo que cada um de nós concebe como “eu” é, em grande medida, uma concessão identitária da família.

Viver de acordo com mundo herdado da família, em geral, nos garante um ambiente de paz identitária; nos permite experimentar um forte sentimento de pertença, de igualdade.

Contudo, quando decidimos romper com o mundo oferecido pela família, passamos a viver numa espécie de exílio identitário, mesmo estando entre as pessoas que amamos e que nos amam. Num cenário mais complicado, passamos a enfrentar fortes conflitos internos e externos.

Em sociedades fortemente influenciadas pela religião como a nossa, é comum crescermos em famílias religiosas. Desde pequenos, somos expostos a um conjunto de ideologias de uma certa religião. Herdamos concepções, crenças, valores, ritos e comportamentos.

Esse conjunto de coisas define a verdade sobre tudo que envolve a nossa vida: mundo, terra, vida, animais, ser humano, corpo, etnia, passado, futuro, verdade, desejo, retidão, caráter etc.

A transmissão familiar é feita de forma tão naturalizada que esse pacote de verdades jamais é concebido como uma criação social situada. É visto como algo que existe desde sempre, que é compartilhado por todo mundo. Jamais é visto como um pacote que existe ao lado e em competição com outros pacotes religiosos.

Quem se dispõem a ir além da herança familiar e construir um percurso espiritual próprio logo descobre que todo pacote religioso é carregado de problemas. Diante dessa constatação, a única saída é começar a se desfazer das parafernálias e tranqueiras herdadas.

Essa ruptura nunca é emocionalmente pacífica. Abrir mão de um mundo herdado é sempre doloroso. Não há como abrir mão de uma herança identitária sem abrir mão de pessoas. Toda vez que abandonamos os deuses de nossos pais, acabamos também abandonando, em certo sentido, os nossos próprios pais. As pessoas sempre incorporam as divindades que seguem.

Assim, ao recusar um valor religioso familiar importante, acabamos recusando também, em parte, um pedaço das pessoas que amamos. Por isso, construir por conta própria uma composição identitária é sempre uma tarefa melancólica, desafiadora; é recusar o que somos para ser outra pessoa.

Só quem realmente quer construir a própria a espiritualidade é capaz de peregrinar no mundo, buscar novos deuses, buscar novos valores, buscar uma nova fé. Só quem consegue conviver com a angústia da liberdade e da autonomia é capaz de dizer para si mesmo: quero outra identidade para viver. A opção mais fácil é sempre ficar em casa, no aconchego do que é conhecido, do que é partilhado, do que é igual.

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