domingo, 28 de abril de 2019

Filosofo, logo sou humano


Dois traços típicos da espécie humana nos trouxeram até aqui: a dúvida e a rebeldia. Só podemos representar nossas ideias na tela de um computador ou de um smartphone porque acumulamos ao logo de nossa história muitas perguntas e muita teimosia. Para sermos verdadeiramente humanos,  precisamos perguntar e desobedecer.

Se no primórdio de nossa espécie tivéssemos silenciado todas as nossas dúvidas e subjugado todo o nosso ímpeto de rebeldia, teríamos sido facilmente suplantados por outra espécie mais sagaz. (Não que o modo de dominação da espécie humana sobre as outras seja elogiável! Certamente não é! Mas isso é assunto para outro post).

Foram as constantes perguntas que fizemos (e continuamos fazendo atualmente) – sobre um montão de coisas (mundo, pedra, árvore, chuva, corpo, sexo, divindade, amor, desejo etc.) – que pavimentaram nossa história.

Foram as constantes recusas em seguir o óbvio e a norma que nos fizeram conquistar o planeta e o espaço. Nossa inquietante iniciativa de perguntar e de insurgir (subverter os limites do corpo, do pensamento, do espaço, do tempo) nos fez construir o cosmos e explorá-lo.

De fato, a dúvida e a desobediência estão na base do que somos (nosso ser), do que fazemos (nosso poder) e do que conhecemos (nosso saber).

É importante dizer que não foi por acaso que a nossa aventura no campo do saber (a construção da ciência) tenha começado exatamente pela filosofia. Para fazer ciência, temos que partir de uma dúvida e de uma insubordinação. Um mundo que não gera curiosidade e revolta não pode ser conhecido, estudado, conquistado.

É lastimável que hoje em dia, depois de tantos milênios de aventura filosófica, ainda existam pessoas contrárias à filosofia, como se fosse possível viver sem filosofar. Ser contrário à filosofia é simplesmente um contrassenso humano. É como se o vegetal, de hora para outra, começasse a planejar uma política para a erradicar a fotossíntese.

Em primeira e última instância, só existe humano porque existe filosofia. Filosofo, logo sou humano.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Outra identidade para viver


Você quer ou não quer continuar com o mundo que recebeu da sua família, especialmente o mundo religioso?

Essa é uma pergunta que toca um dos aspectos centrais de nossa identidade. O que somos resulta, em grande parte, de uma herança familiar. Aquilo que cada um de nós concebe como “eu” é, em grande medida, uma concessão identitária da família.

Quando decidimos continuar com mundo herdado da família (ou se essa questão nunca veio à tona), certamente vivemos num ambiente de paz identitária, experimentando um forte sentimento de pertença, de igualdade.

Quando decidimos romper com o mundo herdado da família, certamente passamos a viver numa espécie de exílio identitário, mesmo estando entre as pessoas que amamos e que nos amam. Num cenário mais complicado, passamos a enfrentar fortes conflitos internos e externos.

Em geral crescemos em famílias religiosas. Desde pequenos, somos expostos a um conjunto de ideologias de uma certa religião. Herdamos concepções, crenças, valores, ritos e comportamentos.

Esse conjunto de coisas define a verdade sobre tudo que envolve a nossa vida: mundo, terra, vida, animais, ser humano, corpo, etnia, passado, futuro, verdade, desejo, retidão, caráter etc.

A transmissão familiar é feita de forma tão naturalizada que esse pacote de verdades jamais é concebido como uma criação social situada. É visto como algo que existe desde sempre, que é compartilhado por todo mundo. Jamais é visto como um pacote que existe ao lado e em competição com outros pacotes religiosos.

Quem se dispõem a ir além da herança familiar e construir um percurso espiritual próprio logo descobre que todo pacote religioso é carregado de problemas. Diante da dessa constatação, a única saída é começar a se desfazer das parafernálias e tranqueiras herdadas.

Essa ruptura nunca é emocionalmente pacífica. Abrir mão de um mundo herdado é sempre doloroso. Não há como abrir mão de uma herança identitária sem abrir mão de pessoas. Toda vez que abandonamos os deuses de nossos pais, acabamos também abandonando, em certo sentido, os nossos próprios pais. As pessoas sempre incorporam as divindades que seguem.

Assim, ao recusar um valor religioso familiar importante, acabamos recusando também, em parte, um pedaço das pessoas que amamos. Por isso, construir por conta própria uma composição identitária é sempre uma tarefa melancólica, desafiadora; é recusar o que somos para ser outra pessoa.

Só quem realmente quer construir a própria a espiritualidade é capaz de peregrinar no mundo, buscar novos deuses, buscar novos valores, buscar uma nova fé. Só quem consegue conviver com a angústia da liberdade e da autonomia é capaz de dizer para si mesmo: quero outra identidade para viver. A opção mais fácil é sempre ficar em casa, no aconchego do que é conhecido, do que é partilhado, do que é igual.

terça-feira, 9 de abril de 2019

A leitura é uma atividade política


A escola básica brasileira tem encontrado muita dificuldade em ensinar os jovens a ler e interpretar. Os resultados dos exames nacionais e internacionais vem mostrando reiteradamente essa dificuldade.

É importante dizer que ler e interpretar são atividades inerentemente políticas. Ou seja, só uma escola que se vê como uma agência social e política consegue ensinar os alunos a ler e interpretar. 

Obviamente, perceber a escola como uma agência política não é uma tarefa tão simples. Requer certo grau de formação e politização. Só pessoas que receberam uma formação filosófica abrangente são capazes de entender que a escola faz política a todo momento e que ler um texto requer uma posição política diante do mundo.

O inominável, que está ocupando a presidência da República, é um sujeito inepto e oportunista. Ele está usando sua incapacidade de compreender e fazer política como uma plataforma política. Ou seja, ele está fazendo uma combinação perfeita de estultice e oportunismo.

Ele disse hoje: “Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política” (https://bit.ly/2UFWLlR). Uma afirmação como essa, sob todos os aspectos, é uma insanidade, uma estupidez, uma afronta à sociedade.

Estamos convivendo com a mediocridade elevada à condição de projeto.

Mesmo sem adotar explicitamente um posicionamento antipolítica, nossa escola básica já enfrenta uma enorme dificuldade em ensinar a leitura. Imagine o que acontecerá quando a antipolítica for transformada numa política de governo!

A afirmação do presidente nos mostra a necessidade urgente de construirmos uma ampla rede de resistência política para salvarmos o MEC, a Educação Básica e a Universidade.

Sem resistência política, a mediocridade e a barbárie continuarão vencendo. Se a proposta do governo vencer, nossa escola básica deixará de ser escola antes mesmo de ter conseguido ser uma escola. 

Não custa dizer novamente: Uma escola só é uma escola de verdade quando faz política.