domingo, 28 de outubro de 2018

Fake news e a morte da verdade: a barbárie venceu



Vejo mais um vídeo, entre tantos que circulam por aí, com uma fake news bárbara, ofensiva e absurda. Me entristeço. Estamos diante da barbárie. A mentira venceu a guerra da comunicação. 

João Montanaro, para a Folha de S. Paulo (goo.gl/LVCEGE)

As mídias sociais, com ênfase para o WhatsApp, inauguram um novo tipo de esfera pública, sem qualquer de tipo de regulação discursiva da informação. Isso significa que a circulação dos discursos, neste momento, está perigosamente isenta da regulação do pacto civilizatório. Não há mais verdade; o que existe é o desejo da verdade. Neste momento, a verdade é o que cada um quer que seja verdade. 

É nesse contexto que assistimos assustados à propagação de narrativas que fazem prevalecer violentamente "certas verdades" que materializam desejos não submetidos à castração civilizatória. Estamos mergulhados numa militância comunicativa insana e fratricida.

Entendo esfera pública aqui como o espaço de circulação dos discursos que constituem e (de)formam uma sociedade.

Já achávamos as mídias tradicionais brasileiras abjetas, agora estamos tendo que conviver com um novo paradigma de circulação pública da informação, muito mais devastador, abjeto, difuso e completamente imune a qualquer tipo de controle das instituições do Estado e dos regimes civilizatórios e éticos. 

De posse de uma série de potencialidades tecnológicas, os sujeitos ocuparam (participação ativa) a esfera pública e estão largados lá (participação passiva), de uma maneira que os aparelhos públicos (imprensa, por exemplo) e as instituições do Estado não conseguem mais interpelá-los do mesmo modo que faziam antes. Munidos de uma falsa ideia de autonomia e liberdade, os sujeitos agora interpelam a si mesmos. Mal sabem que são, em grande parte, marionetes de algoritmos.

Nesta campanha presidencial brasileira, as fake news venceram a guerra das narrativas.

Qualquer pessoa que queira, por consciência ética e cidadã, fazer checagem de imagens, textos e vídeos de WhatsApp tem que gastar um tempo enorme para isso. E, enquanto gasta um tempo enorme fazendo a checagem, a informação falsa continua se espalhando, alcançando uma infinidade de outros usuários.

Lembremos que, com a velocidade, fugacidade e multiplicidade da informação, uma checagem tem pouquíssima chance de chegar junto com a fake news. E, se a checagem chega com uma hora de atraso, passa a ter um efeito persuasivo muito limitado. Atualmente, os sujeitos se ligam muito mais afetivamente que racionalmente com a informação. Isso quer dizer que se o afeto aplicado em determinada atividade comunicativa já foi deslocado, o efeito de uma checagem será praticamente nulo.

A interpretação racional dos discursos é baseada fundamentalmente na recuperação/ rememoração/ reconceituação dos objetos discursivos. Já a interpretação afetiva dos objetos de discurso é baseada fundamentalmente na experiência imediata, no sentimento que os objetos (sejam verdadeiros ou falsos) suscitam no momento. Quando a interpretação afetiva é ativada, o afeto gera a convicção do fato e logo se desloca para o outro objeto, não podendo mais ser recuperado.

Me parece que as checagens podem até fazer sentido quando pensamos nos aparelhos de comunicação públicos e institucionalizadas (as mídias tradicionais), mas parecem não ter muito efeito nos ambientes (mídias) pessoais de circulação da informação, como o WhatsApp.

Nosso regime civilizatório, neste momento, retrocede. Penso que ainda não temos meios técnicos e conhecimentos para atacar as fake news. Creio que em breve encontraremos novas formas de regular minimamente a esfera discursiva pública e restaurar o pacto civilizatório. Mas, enquanto esse momento não chega, nos resta reconhecer que a civilização está perdendo para a barbárie. Ao reconhecer a derrota, comecemos a planejar a reconstrução do projeto humano.


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