sábado, 24 de março de 2018

Os idiotas não vão dominar o mundo



Outro dia postei um texto sobre o aumento da imbecilidade em tempos de redes sociais. Eu disse no post que os imbecis não passarão (para conferir o texto, aqui vai o link goo.gl/kUWsWt). Continuo achando (ou continuo tendo esperança) que os imbecis não passarão. Contudo, não sei se nossa geração verá isso. Acho que não. A extinção da imbecilidade é um projeto humano de longo prazo, talvez pra dez gerações adiante. Sou esperançoso.

Nelson Rodrigues, numa perspectiva bem pessimista, prenunciou exatamente o contrário: a idiotice vai aumentar; ela se tornará a norma, a regra, a convenção. Ele diz taxativamente: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos".


João Montanaro, para a Folha de S. Paulo (goo.gl/LVCEGE)


Vendo a propagação de fake news no Facebook, Twitter e Whatsapp, fico muito tentado a mudar de opinião e seguir a visão pessimista de Nelson Rodrigues. É impressionante a legião de idiotas que estão compartilhando tresloucadamente fake news nas redes sociais. As pessoas estão perdendo (ou nunca tiveram mesmo) o senso elementar de plausibilidade, de verossimilhança, de verdade.

A impressão que dá é que as pessoas estão operando com o cérebro desligado. Não há um mínimo de reflexão. Em alguns casos, a gente fica indagando: “Será que o/a fulano/a de tal leu mesmo esse texto? Será que ele/ela realmente acredita nisso?”.

Nesses tempos de polarização extrema, me parece que as pessoas, ao se depararem com um texto que tenha qualquer teor político, ativam um único de critério interpretação: “Esse texto reflete, reforça e propaga a minha opinião?”. Se sim, é obviamente verdadeiro; se não, é obviamente falso. Quando uma pessoa nota que um determinado texto defende sua opinião, ela imediatamente decreta que o tal texto expressa, obviamente, uma verdade importante e precisa ser compartilhado. Por outro lado, quando nota que o texto defende uma opinião contrária, ela agora decreta que o tal texto é falso, um discurso de gente extremista.

“Os imbecis perderam a modéstia”, disse também Nelson Rodrigues. A gente tem notado que os idiotas estão cada vez mais orgulhosos de sua condição. Eles sentem um prazer enorme em compartilhar os textos que reforçam o pensamento de seu bando. Pouco importa se o texto mente, falseia, ofende. Isso não é critério de avaliação. O que importa mesmo é a celebração do ódio, o júbilo do bando diante do extermínio da alteridade e da diferença.

Continuo tendo esperança, mesmo com tanta idiotice por perto. Um dia o ser humano conseguirá vencer o ódio, a barbárie e a ignorância.


quarta-feira, 14 de março de 2018

Os imbecis não passarão


Os imbecis sempre existiram aos montes. Mas, atualmente, parece que eles se tornam onipresentes. Humberto Eco tinha razão. As redes sociais trouxeram os imbecis para a praça pública e lhes deram um megafone estridente. Agora eles podem se juntar, formar manadas e se reforçarem mutuamente.

Parece que, algum tempo atrás, havia certo constrangimento em torno da estupidez. Ninguém era elogiado por ser imbecil. Compreensivelmente, os imbecis eram mais retraídos, silenciosos. Além disso, mesmo quando o imbecil era um falastrão, sua audiência era relativamente restrita. Agora, eles não têm mais receio de mostrar suas entranhas e têm uma audiência inimaginável.

Contudo, não custa lembrar, os tempos são outros.

É verdade que os diversos casos de desgraça na vida profissional, decorrentes de pronunciamentos abjetos nas redes sociais (envolvendo diversas formas de preconceitos), ainda são insuficientes para mostrar aos imbecis que o mundo de hoje é diferente. Eles (com os seus milhares de compartilhamentos e likes) continuam promovendo sessões públicas de elogio à estupidez. Mas, felizmente, há avanços civilizatórios que são incontornáveis, irrefreáveis. Certos discursos de ódio – relativos a gênero, etnia, religião etc. – não são mais tolerados.

Há algo que os imbecis, por serem imbecis, não conseguem perceber. A ampla visibilidade que conquistaram com as redes sociais são, a um só tempo, a sua glória e a sua desgraça. Enquanto se lambuzam extasiados em suas fezes verbais, os imbecis acabam mostrando quem são, como pensam e como vivem, facilitando enormemente o trabalho de denúncia. Ao se exporem freneticamente, acabam selando o próprio destino. Eles não passarão!