segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ter fé


Ter fé é afirmar minha fé em Deus, contrariando todas as forças interiores e razões exteriores.
Ter fé é recusar a inexistência de Deus, apesar de razoável.
Ter fé é desejar, com o ímpeto mais profundo da minha alma, que Deus exista.

Ter fé é seguir uma jornada em busca de Deus, tendo em mão um mapa em branco, sem qualquer inscrição.
Ter fé é querer me encontrar com Deus, sem auxílio de qualquer narrativa e prática religiosa.
Ter fé é embarcar numa jornada que só acabará quando minha vida terminar.
Ter fé é acreditar que vale a pena seguir essa jornada, mesmo sabendo que ela provavelmente não me levará a lugar algum.

Ter fé é não se conformar que Deus seja fundamentalmente uma ausência.

Ter fé é fazer da ausência de Deus a razão para um poema.

domingo, 1 de novembro de 2015

Sou um peregrino perdido


“A verdade acontece ao longo do diálogo. [...] Há que repetir uma e outra vez: a fé não é uma questão de problemas, mas de mistério, por isso nunca devemos abandonar o caminho da busca e da indagação”.
Tomáš Halík[1]


A verdade se insinua frágil e fugazmente enquanto os diálogos e itinerários acontecem. Interrompidos os diálogos e os itinerários, a verdade se derrete diante do calor escaldante do solipsismo e da inércia.

Estou em um caminho cujo destino desconheço quase completamente. Não sei exatamente para onde vou. A cada momento surgem novos saberes e meu caminho é refeito.

Não tenho apego ao destino. Me apego ao caminhar. Estou seguro de que vale a pena caminhar. Essa é a feição da minha jornada espiritual. A cada dia me refaço e reconstruo minhas trajetórias. Sou um peregrino, e todo peregrino se realiza enquanto anda, viaja, se move. Minha memória se acumula de jornadas de insucessos.

Sigo a perspectiva de fé de Tomáš  Halík:

Ter fé significa “seguir no encalço”; neste mundo, toma a forma de uma caminhada infindável. A verdadeira fé religiosa na terra nunca pode terminar, como se fosse uma busca bem-sucedida de um ou outro objeto – ou seja, encontrando-o e tomando posse dele –, porque não se orienta para um fim material, mas para o coração do mistério, que é inesgotável, como um poço sem fundo.[2]

Sou um peregrino que se reconhece perdido.

Perdido em dois sentidos. Por um lado, me apego à ideia de que existe alguém que esteja à procura de mim, alguém de quem me desliguei. Penso que há alguém que pede o meu retorno, tal qual o pai cujo filho decidiu ir embora e nunca mais deu notícias. Sou o perdido de alguém e vagueio pela vida sonhando com esse reencontro.

Por outro lado, sou um perdido que não sabe para onde ir. A vida é para mim um labirinto. Vagueio por becos. Subo, desço, viro à direita, viro à esquerda, avanço, retrocedo. Chego a lugares novos e volto a lugares pelos quais já passei. Não sei exatamente para onde irei amanhã. É na aurora que a trajetória de cada dia é desenhada.

Como sou um peregrino, não me conformo com a ideia de que não vale a pena vaguear, mesmo que esteja andando para trás. Vagueio com paixão.

Um dia chegarei a um destino e este será o último destino.

E, até esse dia chegar, tentarei fazer das minhas andanças uma experiência de amor e ternura. Quero peregrinar amando e sonhando.




[1] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 30-31.
[2] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 32.