terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Abraão e Isaque



Por Luis Fernando Verissimo[1]

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho.

Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: “Abraão, Abraão, não estendas tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.” E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:

- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...

- Você era um menino...

- Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

- Era a voz do anjo me falando dos céus.

- Não ouvi a voz do anjo. Ouvi os trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos  chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!

- Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

- Um horror.

- Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

- Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu os meus olhos cheios de água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

- O fio do cutelo encostou na minha garganta.

- Mas eu não o matei!

- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

- O que é que eu sei?

- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

- Ele estava me testando.

- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

- Era o anjo do Senhor falando comigo.

- Eram trovões.

- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

- Na origem de todos os povos há uma cerimônia de sangue.

- Então na origem de todos os povos há uma abominação.

- Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

- Por todos os tempos, pai.
  




[1] Texto extraído de: Verissimo, Luis Fernando. Diálogos impossíveis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 53-55.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ter razão ou ser feliz?



“Nunca se justifique; os amigos não precisam e os inimigos não acreditam”.
Autor desconhecido


Outro dia li uma historinha interessante, que mostra com clareza como a obsessão por estar certo, por ter razão e/ou por ter a opinião que encerra o diálogo pode ser um obstáculo para a felicidade. Vejamos a história:


Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem.

Percebendo que, além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema algum se chegarem um pouquinho atrasados.

Aí ele quis saber:

- Você tinha certeza de que eu estava indo pelo caminho errado. Por que você não insistiu um pouco mais?

E ela diz:

- Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!


Optar por ser feliz é bem menos complicado, mas muito menos frequente. Nos deixamos enredar pela necessidade de poder. Acabamos gastando tempo e esforço (físico e intelectual) absurdos para provar que estamos certos. E no final das contas, não há resultado algum a se comemorar; há apenas cacos emocionais a se juntar. Nenhuma discussão para se provar quem está certo termina com as pessoas inteiras. Alguém sairá machucado. Vale a pena?

Há muitas situações em que, mesmo estando com a razão, não é certo brigar. Conquistar a razão à força torna-a completamente vazia. De que adianta garantir que estamos certos se no decorrer da discussão as pessoas foram embora ou foram machucadas?

Há sempre mais...


Há sempre mais do que se pode dizer

Há sempre mais no que se pode dizer e não se diz
Há sempre mais no que se diz

Há sempre mais...

Sostenes Lima

@Limasostenes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só a poesia pode salvar o mundo[*]




Tem dias que acordo com a beleza tentando escapulir de dentro do meu peito. Não encontro meios de permitir que ela vaze. Um universo de boas palavras se revolve nas minhas entranhas. Tento poetar me fazendo amigo dos sonetos. Sei que a cadência das frases feitas em verso pode me socorrer. A beleza da poesia alivia como uma aragem fresca. A asfixia convulsiva da angústia não resiste a graça avassaladora de um poema.

Mas sou incompetente para o verso metrificado. Resta-me deixar os dedos à vontade. E eles bailam na prosa. Bordo pensamentos numa sintaxe pouco alinhada. Redijo como o menino que precisa mostrar-se na redação. É jeito de desabafar.

Sento-me à mesa para distribuir uma eucaristia. Minha sede de viver vira o pão sem fermento. Não reflito sobre os escombros da morte, mas, na esperança da aurora.

Na primeira linha, parto com o anseio de ver-me livre de algemas. Grilhões que apertam os pulsos me estimulam. Encarno na tarefa. Não importo se sou artesão atrapalhado; talvez pensador transversal; quem sabe amante repreensível. Minha escrita sou eu se trago dos porões da alma a força que energizou a minha inspiração. Escrevo para me construir livre se faço das palavras o libelo da delicadeza. No final, minha canhota me enreda. Ladeio os que dão a cara a bater contra a intolerância, o preconceito, a discriminação. Como diz Sostenes Lima: “Escrever é dançar com a angústia para distraí-la; é conversar em silêncio com as vozes que nos ensinaram a falar”.

Escrevo em busca da beleza trágica do saltério bíblico: na contradição de esperar e odiar, amar e desdenhar. Quero, diante do absurdo da vida, celebrar prados verdejantes e constelações coriscantes. Quero, no vale da sombra da morte, dizer: eu creio. Quero, na angústia de sentir o pé inimigo no pescoço, ter os olhos serenos.

Escrevo em busca da beleza apaixonada dos boêmios: na celebração do amor essencial. Quero cantar à musa anônima, que encanta os amantes. Quero nunca perder um olhar de terno. Quero não deixar a sensibilidade escoar no ralo da eficiência. Quero emocionar-me com o amor romântico, e tantas vezes inconsequente, dos jovens. Quero ambientes intimistas, pouco iluminados, plenos de insinuações. Quero o imaginário sem aspereza.

Escrevo em busca da beleza persuasiva dos pensadores: na difícil tarefa de repensar, tensionar ideias, provocar reflexão. Quero mergulhar nos compêndios que desalojam o obscurantismo. Quero debulhar, com lentidão, as espigas que nascem do trigal filosófico. Que belo sonho: sentar em tertúlias.
Escrevo em busca da beleza criadora dos romancistas: na feliz aventura de viajar a mundos fantásticos. Quero ver-me na pele de protagonistas que ousam desafiar demônios, encarar exércitos, sonhar com cidades submersas e, sofrer, sobretudo sofrer. Só eles conseguem ensinar o que é viver e morrer por mãos alheias.

Escrevo em busca da beleza solidária dos santos: no desprendimento de amar sem considerar o galardão. Quero celebrar a vida dos Franciscos de Assis, dos Nelsons Mandela. Na direção do próximo, eles andaram as milhas que jamais tive coragem de encarar. Quero aprender o segredo de não ter a vida por preciosa, como Oscar Romero, mártir de uma morte anunciada. Quero chegar ao fim da existência sem o bolor que noto na pele de quem se acovarda diante do mal.

Dou razão a Vinicius de Moraes: “Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã”. Os poetas são vigias. Eles guardam as muralhas da cidade; são arautos do divino. De seu alarido frágil vem uma certeza: o mal ainda não se mostrou forte o suficiente para arrancar a Imago Dei do coração de homens e mulheres. Do alto da torre, tirania e opressão tomam conhecimento: o brado da vida pertence aos que amam o Bem. A beleza que tenta sair do meu peito é compromisso transubstanciado em palavras.

Soli Deo Gloria

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Tuítes sobre a natureza da poesia