quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O silêncio é a alma da palavra


O silêncio antecede e forma a palavra.
Quando o silêncio é longo demais, a palavra nasce envelhecida ou morta;
Quando é curto demais, a palavra nasce prematura, informe e disforme.
O silêncio tem que ser do tamanho certo.

Palavras nascidas depois de uma boa gestação no silêncio são
fortes, mas não brutas
espontâneas, mas não canhestras
suaves, mas não passivas
simples, mas não simplórias

Mesmo depois de nascidas,
as palavras ainda devem continuar amigas do silêncio.
Palavra enunciada continuamente é palavra vazia.

Toda palavra, depois de enunciada,
precisa ser relançada ao exílio do silêncio.
Lá as palavras morrem e renascem em outras.
Esse é o ciclo de vida da palavra.

A palavra a que se nega o silêncio deixará ser palavra: 
Se degenerará em ruído.
O silêncio é a alma da palavra.

domingo, 25 de novembro de 2012

Diálogo com Osvaldo Luiz Ribeiro



Osvaldo Luiz Ribeiro
Sóstenes, seu texto [“Deus não é genocida”] foi divulgado no Facebook e o li. Acho que não o conhecia. Uma texto provocativo e público. Logo, provocado, comento-o.

Sostenes Lima
Caro Osvaldo Luiz Ribeiro, visito o blog Peroratio com certa frequência. Gosto dos seus posts. Antes mesmo de você me honrar com sua presença aqui, eu já tinha colocado o Peroratio como um dos blogs da minha lista de "Pontos de contato". Obrigado por sua visita.

Aproveitei o seu comentário para dar continuidade à interlocução. Gostei de cada uma das suas colocações. Não vou rebatê-las, de modo algum. Razão: me falta profundidade e sobra retórica (rs). Quero apenas comentar cada um dos seus itens (a, b, c, d).

Osvaldo Luiz Ribeiro
a) Marcião fez o mesmo que você, no século II. Foi mais longe, ele, eu acho – em todo caso, vi os mesmos arrazoados. Separar um deus bom de um deus ruim.

Sostenes Lima
a) Penso que as razões que levaram Marcião a propor uma divisão entre o Deus do A.T. (um demiurgo mau) e o Deus no N.T. são um pouco diferentes das que me levaram a escrever o texto “Deus não é genocida”. Embora suas propostas estivessem, em grande parte, ligadas a questões éticas, Marcião, até onde sei, não as elaborou para contestar o apoio dos cristãos a uma guerra específica. Me parece que a maior preocupação dele era criar uma conciliação ética entre o Deus do A.T. e o Deus do N.T., sem que isso estivesse ligado a uma questão crucial de sua época. De qualquer modo, não estudei Marcião. Tenho pouco a dizer sobre suas postulações teológicas.

Osvaldo Luiz Ribeiro
b) Você trata Yahweh, deus judeus, talvez israelita, como deus pagão. Foi exatamente o que Marcião fez. Não vejo sentido – se você tirar Yahweh, o deus ocidental desaparece. Não há monoteísmo sem Yahweh – e estou falando estritamente em termos históricos, porque não acredito em acesso metafísico.

Sostenes Lima
b) Minha discussão (e contestação) gira em torno de Yahweh Sabaoth (Deus dos Exércitos), não de Yahweh em si. Vejo problema no Deus invocado pelos judeus para lhes garantir vitória nas empreitadas militares, não no Deus de Israel em si. Ao criar especificidades para Yahweh, os judeus acabaram seguindo os mitos e religiões de sua época e de seu entorno geográfico-cultural. Todos os povos, com os quais Israel interagia, tinham deuses para praticamente todas as atividades (sociais, econômicas e culturais) e esferas da vida, tais como agricultura, guerra, justiça, saúde. O que distinguia os judeus dos outros povos é que eles congregavam essas potencialidades divinas num só ser. Daí o monoteísmo. Contudo, penso que o Yahweh da guerra, o Yaweh da agricultura (se houver), o Yahweh da saúde etc. são imitações pagãs. Esses deuses pagãos, embora chamados de Yahweh, não são propriamente o Yahweh pai do messias, o pai do Cristo dos cristãos.

Vejo que a construção de um Deus com paixões, pretensões e incursões militares decorre da necessidade dos judeus. Os registros das ações desse Deus não podem ser aprioristicamente tratados como revelação. Só tenho de aceitar como revelação todos os registros dos atos de Yahweh – com todas as especificidades dadas pelos judeus – se eu seguir rigorosamente o dogma da inerrância e da inspiração verbal plena. Caso contrário, posso conceber boa parte do A.T. como uma narrativa de autocompreensão religiosa do povo judeu, incluindo aí a criação/projeção de um Deus que lhes atendesse certas (ou quase todas) demandas da vida cotidiana. Muito do que há no A.T. é, para mim, então, resultado do modo como o povo judeu (dentro dos contextos social, cultural, econômico etc. que o cercavam) concebia Deus. Portanto, as ações atribuídas a Deus podem não ser necessariamente de Deus.

O discurso religioso é, talvez de todos os discursos, o que tem mais poder de construção e manutenção, porque invoca uma autoridade supra-humana, inquestionável. Dogmas são criações discursivas poderosas porque estão assentados em discursos sagrados, que reivindicam para si mesmos um poder legítimo, inerrante e não suscetível à crítica e à suspeita.

Osvaldo Luiz Ribeiro
c) Não entendo como você pode se dizer um cristão convicto e, por isso, negar Yahweh, um deus pagão e assassino, quando o Cristianismo é muitíssimo mais assassino do que Yahweh - se somarmos todas as mortes atribuídas a Yahweh a gente pode dar um século de matança cristã que fica zero a zero, com 19 séculos de sangue ainda para a gente negociar com algum outro deus pagão...

Sostenes Lima
c) Nesse ponto, penso ser necessário distinguir Yahweh e judaísmo, do mesmo modo que é necessário distinguir Cristo e cristianismo. Cristo não fez e não faz tudo que os cristãos lhe atribuem. Houve na história do cristianismo diversas incursões de massacre e outros desastres éticos, já denunciados por mim no artigo “A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos”. Quem fez isso, embora em nome de Deus, foram os cristãos, não o próprio Deus. Portanto, os 19 séculos de violência do cristianismo devem ser interpretados à luz das necessidades e contexto histórico dos cristãos, não à luz da revelação.

Minha interpretação do A.T. vai nessa mesma direção. Yahweh não é sinônimo de Israel ou de judaísmo. Nem tudo que Israel e/ou judaísmo atribuem a Yahweh foi realmente praticado por Yahweh. Como disse acima, o problema não está com Yahweh, mas com o Deus que entra na guerra para exterminar violentamente os inimigos de Israel. É o sanguinário Yahweh Sabaoth que é pagão, não o Yahweh.

Osvaldo Luiz Ribeiro
d) o final do seu texto, aí, sim, me interessa – mas, cá entre nós, ele pode funcionar bastante bem sem essa retórica de "sou cristão" mas o AT que vá pro inferno: se é para mandar às favas, mande tudo, e fiquemos com a ética humanista e secular moderna que tá de bom tamanho...

Sostenes Lima
d) Gosto da ética humanista secular. Penso que ela dá conta de todas as demandas éticas da comunidade humana global, sem qualquer apelo às bases éticas das diversas religiões. Não há que se recorrer à ética cristã (ou qualquer ética religiosa) para se chegar a um padrão ético satisfatório para a continuidade e desenvolvimento da família humana (que envolve o ser humano e todos os outros organismos e elementos naturais de seu entorno). Na verdade, a ética religiosa tende mesmo a atrapalhar mais que ajudar. Temos visto que a religião, embora grandemente assentada em questões éticas, tende a fossilizar a ética e transformá-la em moralismo. Penso que uma das bases do embate de Jesus com as instituições de sua época se deu, em grande parte, por causa do desvirtuamento da ética da lei em moralismo e tradição.

Coloquei a figura do cristão no meu artigo exatamente para dizer que, mesmo olhando sob a ótica religiosa – seja cristã ou judaica – o genocídio jamais é sancionado. Só mesmo uma degeneração da ética cristã, judaica (ou de qualquer outra ética religiosa) pode dar legitimidade ao genocídio; só quando se coloca algum dogma acima da ética (é bom lembrar que disso decorre a maior parte dos movimentos fundamentalistas) é que se pode respaldar ou apoiar qualquer forma de genocídio.

Osvaldo Luiz Ribeiro
e) Para mim, é impossível separar a tradição cristã de seu passado judeu - IMPOSSÍVEL: tudo, absolutamente tudo, no cristianismo está assentado de modo sine qua non em assentamentos veterotestamentários. Penso que devíamos é fazer a crítica cristã a partir dessa relação, e não tratar o cristianismo e o fato de sermos cristãos como algo "acima" ou "melhor" do que foi o judaísmo veterotestamentário. Foi não: foi pior, mil vezes pior.

Sostenes Lima
e) Também acho que todo o nosso fundamento teológico é dependente do monoteísmo judaico. Somos todos filhos de Yahweh, por assim dizer. A questão central para mim não é pesar qual religião foi/é mais cruel: judaísmo ou cristianismo. Essa questão não me interessa. Também não me interessa saber qual Deus fez mais besteiras e barbaridades na história: o Deus dos judeus ou Deus dos Cristãos. Meu objetivo, ao escrever o artigo, não foi comparar a representação que os judeus e os cristãos constroem para o seu Deus, e a partir daí dar o veredito sobre qual Deus é mais bárbaro. De modo algum. Em se tratando de representação, todos os deuses tendem a se tornar bárbaros. Não tenho a menor dúvida de que há muitos deuses bárbaros e pagãos tanto no judaísmo e quanto cristianismo.

Meu objetivo central foi denunciar a representação que judeus e cristãos têm de Deus, especialmente a representação que atribui a ele uma identidade belicosa, sanguinária. Eu quis dizer que algumas representações de Deus, construídas em diversas manifestações do discurso sagrado (livros sagrados, profetismo, prédica etc.), não devem ser levadas a sério, não devem ser tratadas com a reverência que reivindicam. Há que se colocar certos pressupostos éticos antes.


Osvaldo Luiz Ribeiro
"Meu voto", para brincar com a declaração da moda...
Meus respeitos,

Sostenes Lima
Um grande abraço, meu amigo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sou professor, não um coitado



Sou professor, não um coitado. Peço que a mídia e sociedade me tratem com dignidade profissional. Não preciso que tenham pena de mim. Não preciso de condolências. Na verdade, a sociedade, como um todo, deveria ter pena de si mesma, não de mim. Se a mídia e a sociedade acham mesmo que estou na miséria, então é bom que comecem a preparar o próprio funeral.

Sou professor, não um missionário da educação. Não trabalho apenas por amor a profissão. Como qualquer outro profissional, trabalho para ser dignamente remunerado. Não vou completar a baixa remuneração com filantropia, trabalho voluntário. Não sou amigo ou voluntário da escola. Sou um profissional que desempenha aí suas atividades, devendo, para isso, ser adequadamente pago.

Também não tenho a missão de salvar a educação. Na verdade, não quero e não tenho a menor condição de fazer isso. Professor não é redentor. Se a educação está perdida, quem tem a responsabilidade de apontar o caminho da redenção é o Estado, não eu.

Também não tenho a missão de salvar nenhum aluno que, porventura, se encontre em alguma situação de risco social. Na verdade, não quero salvar ninguém. É o Estado que deve criar, promover e manter políticas públicas que diminuam as situações de risco social.

Sou professor, não tio. Não trabalho para suprir demandas afetivas (de natureza familiar) dos alunos. Minha responsabilidade profissional é, sobretudo, social, não afetiva. Não sou a extensão do pai ou da mãe de ninguém. Isso não quer dizer que minha atuação não seja carregada de afetividade. É sim. Mas não posso incorporar ao meu trabalho o papel de pai ou mãe; não posso me julgar capaz de satisfazer demandas afetivas dos alunos. Se eu fizer isso, vou comprometer a qualidade técnica de meu trabalho.

Este pequeno texto é uma espécie de protesto, um desabafo. Não é um artigo. Não me preocupei em apresentar base teórica ou dados  de pesquisa que sustem (ou não) o que disse. Eu apenas quis expressar uma indignação que volta e meia sinto. Estou mesmo cansado de ser tratado com estereótipos e caricaturas.  Quero respeito. Quero que meu país me veja como um profissional importante para qualquer projeto que se queira para esta nação, não como um coitado ou um redentor.

Encerro com um mantra (surrado, mas verdadeiro) muito frequente em livros (de autoajuda) da área de educação:

Sonho com o dia em que se reconhecerá que uma nação forte se constrói em sala de aula.   Sem um projeto educacional amplo, que inclua a reestruturação da carreira docente, não há projeto de nação que se sustente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O livro é um objeto sensual


Por André Green[1]

O desejo de ver está presente na leitura. A capa, a encadernação de um livro são sua roupa. Indicam um nome, um título, um pertencer (a casa editora) que se propõem ao olhar e o atraem.

Quando o livro está na estante de uma biblioteca, seu acesso é fácil para o olhar em busca de prazer; quando está posto na vitrine de uma livraria, esta barreira transparente aumenta nossa curiosidade. Entramos na livraria pra ‘dar uma olhada’. Exceto no caso em que já sabemos o que queremos e pedimos ao livreiro, não gostamos de ser perturbados em nossa inspeção. Fuçamos até que, atraídos por um vago indício, seguramos um livro. Aí começa o prazer, quando o abrimos, tocamos, folheamos, sondamos aqui e ali. Se o livro não está com as páginas cortadas, às vezes somos obrigados a fazer uma pequena acrobacia ocular para ler uma página pregada por cima ou pelo lado, pois é justamente aquela passagem que nos interessa.

Enfim, é preciso escolher. Se a promessa de prazer nos parece que vai poder ser mantida, pagamos o preço do livro e partimos abraçados com ele. Dependendo de se não nos desagrada mostrá-lo em nossa posse ou se algum pudor nos leva a esconder a sua identidade, o mostraremos nu ou embrulhado. Para ler, precisamos nos isolar com o livro – em público ou em particular – e às vezes em lugares bem estranho e a priori pouco propícios a este tipo de exercício.

O que nos leva a ler? A busca de um prazer pela introjeção visual que satisfaz uma curiosidade.




[1] Texto extraído de: André Green. Literatura e psicanálise: a desligação. In: Luiz Costa Lima (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 233-234 [Adaptado na distribuição dos parágrafos. O título “O livro é um objeto sensual” não consta no original].

domingo, 11 de novembro de 2012

Condenados à liberdade e à temporalidade


Quando chegamos a entender que são as coisas espaciais que estão constantemente escapando, nós nos damos conta que o tempo é aquele que nunca expira, que é o mundo do espaço que está rolando através da vastidão infinita do tempo. Assim, a temporalidade pode ser definida como a relação do espaço com o tempo.

Abraham Joshua Heschel¹



O presente é o único tempo que temos, mas não é o único tempo que nos constrói. Somos uma síntese de tempo (passado, presente e futuro) que se desenrola agora. É verdade que, em termos físicos, não há outro tempo, senão o presente. Podemos até dizer, aprofundando um pouco mais a questão, que nem mesmo há tempo. O que há é um conceito de tempo, uma interpretação temporal da realidade, que, em si mesma, parece ser atemporal. Contudo, nosso senso de temporalidade é tão forte, que faz com que concebamos tudo a partir da linha do tempo, como se o tempo estivesse realmente incorporado à realidade. Somos no presente, mas o passado e o futuro estão aqui e agora, entremeados em tudo que é e em tudo que somos.

É a nossa capacidade de interpretar o mundo a partir de uma intricada relação entre o que foi (passado), o que é (presente), e o que será (futuro), que nos faz homo temporalis. Segundo o que sabemos até o momento, apenas os humanos têm condições de interpretar a realidade (física e social)² sob a ótica da sucessão temporal. Parece que somos o único ens temporalis.

Para a árvore, só existe a árvore tal como ela é, com todas as informações naturais de que ela dispõe, em sua estrutura, no momento. Não há memória da semente; também não há esperança do fruto. A árvore não se interpreta temporalmente. Ela apenas existe.

Nós humanos somos diferentes porque não apenas existimos; nós somos. E ser significa incorporar história. Para mim, a história é uma das grandes metanarrativas humanas, talvez uma das poucas que jamais poderão ruir. O ser humano tem compulsão para significar o tempo. Parece haver em sua ontogênese uma narratio temporis. Somos porque temos história; somos porque há uma narrativa do tempo que nos constrói. Em última instância, só é aquilo que tem história. Não havendo história, não há ser. Há apenas a coisa, não o ente.

Tudo que existe no nosso entorno acaba também se transformando de res (coisa) em ens (ser), porque passa a incorporar as dimensões do tempo. É por isso que para nós uma árvore não é apenas uma árvore. Em potencial, é também uma semente, uma fruta, uma sombra, uma cadeira, um andaime, um cavalete, uma moldura etc. etc. A história transforma a res num ens, na medida em que projeta nela a existência de uma infinidade de seres, transformando-a num conjunto aberto de entidades potenciais, já conhecidas e ainda por conhecer.  

Para nós, temporales et historici entes, nada é apenas o que é. Temos consciência de que tudo está sob o efeito da sucessão do tempo. Sabemos que tudo é o que é, porque é o que foi. Também sabemos que tudo será o que será, porque será o que é e o que foi. Esse saber temporal faz parte de nossos esquemas cognitivos mais elementares. Parece ser impossível viver à margem da interpretação do tempo. Estendendo o pensamento de  Sartre, eu diria que, além de estarmos condenados à liberdade, também estamos condenados à temporalidade. Somos prisioneiros do tempo.

Se você está pensando que tudo isso não passa de filosofia de botequim, eu confirmo: é mesmo. A consciência do tempo é algo tão espontâneo que nem nos damos conta do quanto o tempo é uma categoria complexa. A maioria de nós só pensa no tempo quando há algum estímulo. Às vezes, só depois de uma conversa de botequim conseguimos nos interrogar: que efeito o tempo exerce sobre mim? Como o passado e o futuro estão orientando o meu presente? Diante da condição de prisioneiros do tempo, nos resta buscar a melhor maneira de viver essa prisão. Podemos transformar nossa consciência do tempo numa porção de sabedoria que nos ajuda a viver melhor. É isso que tenho buscado ultimamente.





¹ Heschel, Abraham Joshua. O Schabat: seu significado para o homem moderno. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 136

² Será que existe mesmo uma cisão entre mundo natural e social? As epistemologias pós-modernas têm mostrado que a concepção de um mundo externo ao ser humano, passível de ser estudado e compreendido objetivamente, conforme apregoa o paradigma epistemológico moderno, não passa de mito já definitivamente superado. Boaventura de Sousa Santos (210, p. 72), com perspicácia e precisão, nos diz: “não há natureza humana porque toda natureza é humana”. Realmente está cada vez mais difícil aceitar que ser humano e natureza não estejam dentro de uma relação inerentemente intricada.

Contudo, pela complexidade do tema e por estar um pouco foro do foco deste ensaio, deixo essa discussão para outro texto. Por hora, convém assinalar apenas que, logo, logo, estaremos dispostos a admitir que “o mundo, que hoje é natural ou social”, amanhã poderá ser ambos num só, abrindo caminho para uma interpretação do mundo “como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia” (Sousa Santos, 2010, p. 72), algo no qual o sujeito e objeto estão inextricavelmente fundidos.

Sousa Santos, Boaventura de. Um discurso sobre a ciência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As memórias são o que a alma acumula



Por Rubem Alves[1]

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Por que a alma ama. O amor deseja possuir. Se amo a casinha de paredes brancas e janelas azuis, por que não possuí-la, se posso? Se ela for minha, eu cuidarei dela, plantarei um jardim. [...]. Se amo a música que ouço, por que não possuir o CD? Eu o levarei para casa e poderei gozá-lo quantas vezes quiser. O amor é onívoro – quer comer tudo. Comer é a forma mais radical de possuir. Comendo, o que estava fora e era outro passa a ser parte de meu próprio corpo. ‘Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar’, dizia Neruda.

Eu ajuntei muitas coisas e estou sendo perturbado pela pergunta da parábola; Para quem ficará tudo o que acumulaste? [...].

Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos. Estão guardados no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria com prazer. Seria preciso inventar uma técnica de faxina de memórias: uma vez por ano, limpeza das memórias que fazem sofrer. Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. Bobagens: a cena de um menino andando a cavalo de madrugada no meio do campo coberto com capim-gordura, o barulho da água caindo no monjolo [...]. Quando eu morrer vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. A morte das coisas que o meu amor ajuntou e vão se perder quanto eu morrer.


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[1] Texto extraído de: Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 46-47. [O título "As memórias são o que a alma acumula" não consta no original].