segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ressonâncias de uma utopia possível

Ler "A utopia possível”, de Robinson Cavalcanti, foi muito marcante para mim. Eu tinha entre 18 e 19 anos e estava no segundo ano do seminário. Eu já estava num processo de reconstrução, de refundação de uma série de conceitos que tinham moldado minha vida até aquele momento. O que essa leitura fez foi potencializar a mudança.

Junto com outros livros, “A Utopia possível” me fez enxergar um novo horizonte para a experiência de fé. Os textos de Cavalcanti me abriram muitas janelas para a vida e para transcendência; me ajudaram a romper com um passado religioso opressor.

Nasci e cresci numa redoma bastante fundamentalista, reacionária, sectarista, supersticiosa, de extrema direita política e avessa ao conhecimento científico. Não me dava muito bem com esse mundo, mas, devido a um temperamento amistoso, não consegui ser rebelde. Me faltou ímpeto e sobrou medo.

Eu tinha medo de tudo, mas principalmente de um Deus ágil em vingar servos que se amotinam. E olha que esse Deus metia medo mesmo! Ele tinha, a seu serviço, um grupo de comparsas que realizava parte do trabalho sujo. Bastava um pequeno escorregão para que ele autorizasse a convocação de um conselho do mal, chamado de “reunião de ministério”, para dar jeito na vida dos rebeldes.

Esse grupo de anciãos, bastante parecido com aquele que Jesus confrontou por diversas vezes, era responsável por interpretar os cânones do direito divino e estabelecer a pena necessária para corrigir (ou simplesmente punir de forma exemplar) os infratores. Todo mundo tinha medo da tal “reunião de ministério”. Ali Deus manifestava, de forma concreta, seu desejo vingança; ali a honra de um Deus ofendido era severamente reparada.

Mas o Deus aterrador que me ‘livrou’ da rebeldia ainda tinha outro expediente de coação mais potente. Ele era o mentor e executor de todos os infortúnios e tragédias. “Ai de quem cair nas mãos de Deus”, diziam os pregadores. Eu tinha muito medo das mãos desse Deus grego, inconstante, vingativo, passional e, apenas ligeiramente, amoroso.

Me lembro de uma vez que ousei desobedecê-lo. Não resisti e fui jogar bola. Minutos depois, estava eu lá no chão com o pé inchado, sentindo uma dor enorme, mas insignificante, se comparada à dor da culpa que me assombrava. Pensava comigo: “É um sinal de Deus. Ele está me dizendo pra eu não fazer mais isso. Se eu insistir, a coisa pode ficar pior”. Sai decidido a nunca mais nem me aproximar de um jogo de futebol para não ser nem tentado. Hoje desejo jogar futebol, mas sofro com a impossibilidade de fazê-lo. Não aprendi fazer coisas simples com uma bola, como por exemplo dar um passe certo. Para não envergonhar, nem aborrecer meus amigos, prefiro nem jogar.

Esse mundo, extremamente opressor, conseguiu aparar minhas asas, colocar cercas em volta de mim durante toda a infância e parte da adolescência. Simplesmente fui enredado. Opressão e o obscurantismo religioso, se mantidos e alimentados, podem deformar a vida, o caráter, a pessoa. Felizmente, o dia da liberdade estava à espreita. No final da adolescência, me vi em condições de começar uma jornada, árdua mas fundamental, de desidealização e esvaziamento dos poderes que tanto me assombravam. Fui para o seminário. Lá continuava a operar uma série de forças opressoras, mas sem o mesmo poder de antes. 

Foi no seminário que entrei em contato com o mundo dos livros. A história nos mostra o quanto eles foram fundamentais para deflagração de praticamente todas as revoluções modernas. Os livros nos libertam (eles podem nos aprisionar também, eu sei!). Li alguns livros que supostamente dariam argumentos e fundamentos mais sólidos para aquela visão de mundo que cercou a minha infância. Achei todos muito chatos, superficiais, ridículos.

Então comecei a ler outros livros, que não chegavam a ser proscritos, mas eram completamente alheios ao mundo da minha infância. Foi aí que comecei a ler alguns autores que falavam da necessidade de uma incursão social da fé. Fiquei fascinado. Entre eles estava, obviamente, Robinson Cavalcanti. Li avidamente “A utopia possível” e “Cristianismo e política”. De repente me descobri um petista entusiasta. Meu primeiro voto para presidente, em 1998, foi para Lula, com entusiasmo e militância. Poucas pessoas, do meu entorno igrejal e familiar, entendiam isso; afinal, eu estava no meio de assembleianos. Não é novidade para ninguém que os assembleianos só vieram a votar em Lula a partir da campanha de 2002, e com muita suspeita. Um assembleiano de verdade, da gema, só votava em Fernando Collor e Fernando Henrique.

São muitas as marcas de Robinson Cavalcanti em mim. Voltei a ler alguns artigos de “A utopia possível” hoje. Me surpreendi com a semelhança de nossas ideias. Me apropriei de tal modo de algumas teses de Cavalcanti que já não me lembro mais da fonte.

Penso que influenciar é exatamente isso. É fazer com que o outro seja tão envolvido por uma ideia alheia ao ponto de não mais se lembrar de que a ideia é alheia. Ser influenciado é ser surpreendido por uma amnesia; é se esquecer da origem do saber; é permitir que as vozes alheias se fundem de modo tão entranhado com a minha, ao ponto de faz nascer uma nova voz mestiça, mas com identidade própria. Devo muito a Robinson Cavalcanti. Já sinto saudades, mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente. Em mim, seu desejo de uma utopia possível ressoou com muito ímpeto.

O conhecimento cientifico, a fé madura e a teologia relevante


 Em homenagem a Robinson Cavalcanti.

"A reflexão teológica não se dá no vazio. Para realizar adequadamente a sua tarefa, o teólogo deverá conhecer, primeiramente, o contexto onde se deu a revelação: contexto geográfico, histórico e cultural, com seus aspectos políticos, econômicos e sociais, o idioma usado e o perfil psicológico do escritor e de seus leitores. Conhecer, enfim, o mundo onde e quando a Bíblia foi sendo escrita. O compromisso com a verdade nos leva à busca do real sentido do texto e de sua mensagem, procurando superar as barreiras das traduções e das tradições.

Em segundo lugar, o teólogo deverá conhecer o contexto em que ele mesmo vive, o seu tempo e o seu lugar, em seus variados aspectos.  Um conhecimento de observador participante, por sua inserção nesse tempo-lugar, o acompanhamento da conjuntura, com a ajuda das informações veiculadas pelos meios de comunicação social, e um conhecimento mais acurado, analítico. Esse procedimento é imprescindível quando se quer torna a mensagem atual e relevante, inteligível e aplicável"

[Robinson Cavalcanti. A utopia possível. Viçosa: Ultimato, 1997]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tributo a Fernando Pessoa

Escrever é preciso; viver não é preciso.
Vivo enquanto escrevo, mas não vivo enquanto vivo.
O meu texto se fortalece enquanto escrevo
O meu texto se definha enquanto apenas vivo.
Escrever é viver; viver não é viver sem escrever.

Sostenes Lima
@Limasostenes

O nonsense do texto

Estou querendo muito pensar e escrever sobre o texto, mas não estou encontrando âncoras verbais para isso. Eu simplesmente não estou conseguindo pensar em nenhuma definição ou especulação para o sentido do texto. Será que o texto tem de ter sentido? Talvez esse seja um caminho interessante a ser explorado: o no sense do texto. Texto é algo vazio de sentido. Cheguei a uma definição e estou contente com ela. Achei interessante essa formulação. O texto não tem de ter sentido. O texto é uma construção complexa, cheia de junções e nós, sem uma trajetória definida, precisa. O texto é um conjunto, uma aglomeração de experiências que vão se formando, sem que haja um propósito definido, pré-existente, planejado ou calculado. O texto simplesmente se escreve a si mesmo enquanto se torna texto. Não há um texto anterior dirigindo a construção do texto. O texto não tem controle sobre si. O texto também não se entrega o controle externo. Ele simplesmente se escreve num aparente caos. Digo aparente caos porque parece que o texto está todo desordenado, sem nexo, sem a menor organização. Mas isso não é verdade. O texto se compreende a si mesmo enquanto se escreve. Há harmonia no caos. Há um ponto de equilíbrio no caos. É isso que permite que os textos sejam diferentes uns dos outros. Se não houvesse nenhum um tipo de organização, mesmo que na estrutura mais profunda, não haveria possibilidade de diferenciação. Também não haveria possibilidade de identificação. É por isso que digo que cada texto, embora construído sob e sobre o caos, é harmônico em si e para si mesmo.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A fé como centro unificador da pessoa


 "A preocupação incondicional empresta a todos os outros interesses a sua profundidade, direção e unidade, fundamentando assim o homem como pessoa. Uma vida de caráter realmente personal é íntegra e unida em si; o poder que cria essa integridade da pessoa é a fé. Semelhante afirmação seria absurda, se fé fosse o dar crédito a coisas que não se podem demonstrar. Mas essa afirmação não é absurda, e sim evidentemente verdadeira, se fé é o ser atingido por aquilo que nos toca incondicionalmente.

Uma preocupação incondicional se manifesta em todas as áreas de realidade e em todas as expressões de vida da pessoa. Isso porque o incondicional não é um objeto entre outros, e sim a base e origem de todo ser, e como tal, o centro unificador da vida como pessoa. Estar sem uma preocupação incondicional significa estar sem um centro. Desse estado o homem só pode se aproximar, mas nunca lhe estrará completamente entregue; pois um ser humano sem centro algum deixaria de ser humano. Por esse motivo não se pode conceber que haja alguém sem uma preocupação incondicional e portanto sem fé".


[Paul Tillich. A dinâmica da fé. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal: 2001].

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A oração como expressão estética


“Chegamos agora a algumas orações que podem ser vistas como um apelo dramático por sensibilidade. Nessas orações, os estudantes pedem para estar em contato com o que é real, para experimentar em profundidade o mundo que nos cerca e para sentir-se ligados às fontes vitais da vida. Procuram uma unidade e uma libertação da dolorosa sensação de alienação. Querem tocar, provar, cheirar, ouvir e ver o que está além de sua própria solidão e render-se à inefável beleza do divino. São orações para o Deus belo, belo de uma maneira extática, transformando Deus em uma experiência corpórea. A alienação a partir da qual essas orações nascem é expressa de forma dramática pelo estudante que escreve:

Sozinho dentro da classe
Sozinho com meus amigos
Sozinho numa multidão insistente
Onde procurar abrigo nessa concha tão envolvente?
O mundo é sem vida – não mais um amigo
As folhas viscosas das árvores, as crianças;
Tudo parece – apenas irreal.
Elas estão lá fora. Eu estou separado delas”.

[Henry J. Nouwen. Intimidade: ensaios de psicologia pastoral. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004].

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O prazer mora no corpo; a alegria, na alma

Não, eu não quero prazer! Eu quero alegria! Era isso o que dizia uma das amantes de Tomás, o médico de A Insustentável Leveza do Ser. E Tomás ficava perdido porque prazer ele sabia dar, é coisa de receita fácil, mora no corpo. Mas alegria é coisa mais sutil, mora na alma, no lugar das fantasias e da saudade.
Há um jeito fácil de saber se o que se sente é prazer ou alegria. Basta prestar atenção no corpo. Se ele for ficando cada vez mais pesado, é prazer. Se for ficando cada vez mais leve, é alegria”.

[Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olho D’agua, 1994]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Igreja versus Reino de Deus em aforismos


Série de aforismos sobre igreja versus reino de Deus, em ressonância às provocações de Alfred Lousy e John D. Caputo. #IgrejaxReino

“Os apóstolos esperavam que o Reino de Deus viria; o que veio foi a Igreja”  (Alfred Lousy). #IgrejaxReino

"A igreja não é o Plano A" (John D. Caputo). #IgrejaxReino

A igreja não é o Plano A; o reino é o Plano A. A igreja deve sempre ser desconstruída, para que o ideal do reino não se perca. #IgrejaxReino

A igreja é apenas um ponto de passagem; o reino é destino. #IgrejaxReino

Vivamos para o reino, suportando a igreja; façamos tudo pelo reino, apesar da igreja. #IgrejaxReino

A igreja só pode existir onde há “cristãos”; o reino de Deus não tem limitações, nem condicionamentos religiosos. #IgrejaxReino

Jesus se ocupou apenas do reino de Deus; a igreja descobriu que ocupar-se de si mesma seria necessário para manter-se a si mesma. #IgrejaxReino

O reino de Deus é orgânico, relacional; a igreja é mecânica e institucional. #IgrejaxReino

O reino de Deus está plenamente identificado com Jesus de Nazaré; uma identificação plena da igreja com Jesus instabilizaria suas estruturas de poder. #IgrejaxReino

No discurso do reino, pessoas são pessoas, coisas são coisas; no da igreja eventualmente pessoas são peças de uma estrutura. #IgrejaxReino

No discurso do reino, pessoas são sempre fins; no da igreja eventualmente pessoas podem ser usadas como meio. #IgrejaxReino

O reino fomenta a espiritualidade; a igreja, se levada a sério em exagero, recrudesce a religiosidade. #IgrejaxReino

Pelo reino eu me ofereço ao outro; pela igreja eu exijo que o outro se ofereça a mim. #IgrejaxReino

Pelo reino o outro é o fim; pela igreja o outro é meio para a manutenção do eu. #IgrejaxReino

Pelo reino se morre; pela igreja se mata. #IgrejaxReino

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Levo Deus a sério, mas não a teologia


“Quem come caqui tem que aceitar ser criança. E, como não existe salvação a menos que nos tornemos crianças (coisa que ninguém acredita...), tratei de fazer um ensaio de teologia comestível com o título “Sobre Deuses e caquis.”. Alguns comeram e gostaram. Outros comeram e não gostaram. Disseram que caqui não combina com a gravidade do Ser divino. Alegaram que eu não levava Deus a sério. Levo Deus muito a sério. Mas não levo a sério este caqui delicioso que se chama teologia. Se eu tivesse falado sobre as chagas de Cristo, tudo estaria bem. Feridas são respeitáveis; combinam com o Ser divino. Penso diferente. Quem é grave é o diabo”.


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010]

Epistemologia(s) científica(s) e a experiência de fé


A palavra epistemologia é usada aqui num sentido lato, sem muitos aprofundamentos teóricos, significando um modo de conhecer e investigar o mundo que se fundamenta em certas categorias conceituais e métodos, reunidos sob o nome de ciência. Essa epistemologia se fortaleceu a partir do iluminismo, dando origem a praticamente todas as disciplinas e modos de investigação sistemática que conhecemos hoje: biologia, física, matemática, sociologia, antropologia, linguística, psicologia etc.

A epistemologia científica tem sido alvo de diversas teorizações. Uma das primeiras partiu de Augusto Comte, no século XIX. Em linhas gerais, Comte afirma que o modo de conhecer da ciência (para ele restrita ao método positivo), se opõe a duas outras epistemologias precedentes, superando-as: a teológica e a metafísica. Não vou me estender nessa questão, por não constituir o escopo deste artigo. Basta dizer, que para Comte “todas as concepções humanas passam por três estágios sucessivos – teológico, metafísico e positivo”, sendo este último o mais maduro, aquele que promove o único saber realmente válido e confiável sobre o mundo. Portanto, o que chamo aqui de epistemologia (no singular) da ciência é uma generalização para nomear um modo de conhecer o mundo natural e social, amplamente cultivado nos espaços acadêmicos e laboratoriais, que remontam à formulação positiva de Comte.

Mas ainda tenho mais a dizer sobre Comte e sua escola. No começo do século XX, o Positivismo comtiano alardeou a morte das epistemologias teológica e metafísica, anunciando a instalação iminente do monopólio da epistemologia positivista. Felizmente, os profetas do positivismo estavam errados. O que se viu nas décadas subsequentes, especialmente partir dos anos de 1950 e 1960, com a virada linguística e o desconstrucionismo, foi a desconstrução radical do método positivo como um modo coerente, imparcial e único de falar sobre o mundo. Também não ficou imune ao arraso, a pretensão do cientista de se ver como alguém que apenas descreve a realidade. Desde então, a palavra de ordem é: não há conhecimento que não seja situado, motivado, indissociavelmente ligado uma instância de enunciação.

A crítica radical à pretensão de pureza, originalidade, incorruptibilidade e imparcialidade reivindicada por qualquer método abriu caminho para o reflorescimento das epistemologias teológica e metafísica, bem para a construção de uma base plural para as investigações científicas, de modo que hoje não se pode mais falar de uma epistemologia científica, no singular, mas de epistemologias científicas.

Boaventura Santos e Gayatri Spivak tem nos mostrado que qualquer investigação científica é afetada pela geografia (epistemologias do sul) e pela condição histórica (epistemologias de subulternidade) de anunciação do texto científico. Também Jean-François Lyotard nos ensinou que a condição pós-moderna, na qual o fazer cientifico se situa e opera, estabeleceu o plural não como uma opção, mas como uma condição de investigação e de experiência do e no mundo.

Toda essa breve divagação sobre os percursos epistemológicos serve de apoio para a afirmação de que não há mais necessidade de se renunciar a fé para se ter dignidade e respeitabilidade acadêmica e científica. Graças a esse movimento, hoje posso dizer que busco uma carreira científica e vivo uma experiência de fé envolvente, sem medo de me expor, sem medo de ser ridicularizado.

Hoje posso dizer, sem ser acossado pelo medo da censura ou suspeita acadêmica, que estou construindo minha narrativa de vida pessoal, a partir de uma busca pela compreensão científica do mundo, mas sem abrir mão da experiência de fé. Dito de outro modo e noutra ordem: vivo uma experiência de fé pessoal radical (pouco institucional, é verdade), ou no dizer de Tillich, estou existencialmente comprometido com o creio, e, ao mesmo tempo, me lanço a uma jornada de investigação científica do mundo (em especial da linguagem, já que sou um linguista). A fé não é mais relegada aos fracos e estúpidos; é uma forma de interagir com o mundo natural, social e metafísico, tão legitima como qualquer outra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O mercado de consumo está liquefazendo a busca por sociabilidade


“O desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência, inspirada no estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses desejos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu ‘valor monetário’. Na melhor das hipóteses, os outros são avaliados como companheiros na atividade essencialmente solitária do consumo, parceiros nas alegrias do consumo, cujas presença e participação ativa podem intensificar esses prazeres. Nesse processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares (e assim também a preocupação com eles por si mesmo, e por essa singularidade) estão quase desaparecendo de vista. A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor”.


[Zygmunt Bauman. Amor líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A espiritualidade é uma jornada perigosa; a religiosidade uma estadia segura


A verdadeira vida espiritual é uma jornada e não uma estadia quieta, confortável e segura. Num sentido mais profundo, viver uma experiência espiritual é entregar-se à busca de algo que já mais pode ser encontrado em sua totalidade e no lugar em que estamos. Quando encontramos Deus, no instante seguinte ele já se foi. Aí é hora de marchar outra vez. Ficar parado significa aderir à proteção da religião estabelecida e abrir mão de Deus em favor dos ritos e de toda parafernália religiosa.


Não levamos muito o sério a identificação dos primeiros cristãos como os do Caminho. Ser um cristão é estar em marcha; é nunca se deslumbrar por uma estadia, por mais sedutora que seja. O caminho é um lugar de andar e não de ficar parado. Quando paramos, certamente saímos do Caminho. Se realmente estivermos tomados pela identidade de caminhantes, jamais seremos enfeitiçados pelos esplendores e conforto dos lugares fixos, pela suntuosidade dos grandes templos e pela fixação reconfortante dos dogmas. Vamos avante; nós somos caminhantes.

A igreja não é o Plano A; o reino de Deus é o Plano A!



"Certa vez Alfred Loisy observou, de forma celebre, que os apóstolos 'esperavam que o Reino de Deus viria', mas 'o que veio foi a Igreja'. Vamos tratar a declaração de Loisy como uma regra. A chegada da igreja é uma surpresa, ou o que Derrida chamaria de um evento, ou seja, algo que não se vê chegando. Os primeiros seguidores do Caminho estavam esperando um evento, um evento que pusesse fim a todos os eventos, mas acabaram se deparando com outra realidade, realmente decepcionante, um reducionismo do que esperavam, algo com que deveriam se ocupar até a vinda do reino, cuja chegada foi inesperadamente adiada.  O ‘abade’ Loisy, que era um ex-padre, estava sendo cínico, mas ele fez uma excelente colocação. A igreja é o Plano B. (Em matéria de desconstrução, tudo é Plano B)".


 [John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007].

The church is not Plan A; the kingdom is Plan A.

"The apostles “had hoped that the Kingdom of God would come,” Alfred Loisy once famously remarked, but “what came was the Church.” (16) Let us call that statement Loisy’s law. The arrival of the church is a surprise—or what Derrida would call an event, meaning something we do not see coming. The first followers of the Way were expecting one event, an event to end all events, but they got another, which really was a disappointment, a retrenchment, a make do until the arrival of the kingdom, whose arrival has been unexpectedly delayed. "Abbe" Loisy, who was an ex-priest, was being cynical, but he makes a good point. The church is Plan B. (In deconstruction, everything is Plan B.)" 


[John D. Caputo. What would Jesus deconstruct. Grand Rapids: Baker Academic, 2007].

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Deus ama mais viver na terra que nos céus



“Esta alegria de viver me faz encontrar Deus a passear pelo jardim ao vento fresco da tarde. Como eu, Deus prefere as delícias deste mundo material às delícias espirituais do céu. É claro que, se ele estivesse feliz nos céus, não teria criado a terra. Pois Deus, segundo os teólogos, em virtude de sua perfeição, não pode criar o pior. Faz sempre o melhor. Assim, o paraíso tem de ser melhor que os céus que já havia... E Deus gostou tanto da terra e de seus jardins que resolveu para ela se mudar em definitivo e se encarnou eternamente... Deus ama a vida sobre a terra, mesmo com a terrível possibilidade de morrer. Porque a vida é bela a despeito de tudo”. 


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010].

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Na solidão o falso eu é derrotado

“A solidão é a fornalha da transformação. Sem a solidão permanecemos vítimas de nossa sociedade e continuamos a nos enredar nas ilusões do falso eu. O próprio Jesus entrou nessa fornalha. Ali ele foi tentado com as três compulsões do mundo: ser capaz (“ordena que estas pedras se transformem em pães”), ser espetacular (“atira-te para baixo”) e ser poderoso (“Tudo isso te darei”. Ali, ele afirmou ser Deus a única fonte de sua identidade (“Deves adorar o Senhor teu Deus e só a ele servir”). A solidão é o lugar da grande luta e do encontro – a luta contra as compulsões do falso eu e o encontro com o Deus zeloso que se oferece como substância da noda individualidade.”

[Henry Nouwen. Espiritualidade do deserto e ministério contemporâneo. São Paulo: Loyola, 2000]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Jesus revoga todas as barreiras do amor


“O amor ao próximo cresce do encontro com o amor de Deus e não pode ser separado do amor a Deus. Consequentemente, um tal amor ao próximo também é ilimitado. Jesus revoga explicitamente todas as barreiras do amor, tanto cultuais, como nacionais. Ao apontar para a analogia do amor próprio e para o exemplo do amor de Deus, Jesus pretende mostrar que amor, como resposta à promessa e à salvação de Deus, é ilimitado”.

[Werner Georg Kümmel. Síntese teológica do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003]

Carpe diem [por Mario Quintana]

Um dia... pronto!... me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver


[Mario Quintana]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O céu pode ser bom, mas quero ficar aqui mais um pouco

“Nunca fui atraído pelas propaladas delícias do céu. Para dizer a verdade, não conheço nem uma pessoa que esteja ansiosa por deixar as pequenas alegrias desta vida para gozar eternamente a felicidade celestial perfeita. As pessoas religiosas que conheço cuidam bem da saúde, caminham, fazem hidroginástica, controlam o colesterol, a pressão, glicemia... Elas querem continuar por aqui”. 


[Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 19]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A fé se fundamenta na dúvida

"Fé é certeza na medida em que ela se baseia na experiência do sagrado. Mas ao mesmo tempo a fé é cheia de incerteza, uma vez que o infinito, para o qual ela está orientada, é experimentado por um ser finito. Esse elemento de insegurança na fé não pode ser anulado; nós precisamos aceitá-lo. E esta aceitação é um ato de coragem".


[Paul Tillich. Dinâmica da fé. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 15]

Como se morre antes de morrer [por Mario Quintana]

"Morrer é simplesmente esquecer as palavras"
[Mario Quintana]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O caminho da fraqueza

“A fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.
I Cor 1.25

O poder é fascinante. Ele está no centro do projeto de vida da maior parte de nós. É difícil encontrar alguém que, não tendo poder, não o deseja ou que, tendo poder, o renuncia espontânea e desprendidamente. É muito difícil encontrarmos alguém que se desiludiu com próprio poder, a não ser quando se sentiu ameaçado. Por outro lado, é muito comum encontrarmos pessoas que se decepcionaram e se desiludiram com o poder alheio. E por que isso acontece? Porque o poder alheio raramente rende o benefício esperado. Só o autopoder nos satisfaz a contento.

A posse do poder expande nossa capacidade de controle sobre as pessoas e sobre as coisas. Por isso ele é tão desejado e tão buscado. Uma vez que adquirimos controle sobre pessoas e coisas, o caminho para autossatisfação fica bastante desembaraçado. A lógica é a seguinte: se o poder está com o outro, a autogratificação é amplamente dificultada e restringida, mas se ele estiver conosco, sempre há concessões. Daí o motivo por que o poder alheio quase sempre nos incomoda, nos decepciona e o nosso nos apraz. A questão parece bem simples; é só nos perguntarmos: quem está no centro da pessoa que detém o poder? Portanto se o poder não está comigo, certamente não sou o seu principal beneficiário. Por outro lado, se poder está comigo, certamente o outro também não é o seu principal beneficiário.

Não tenho dúvidas de que uma das maiores ilusões e ciladas a que o ser humano está sujeito é acreditar no altruísmo do poder. O poder não é altruísta, não busca o bem do outro. Pelo contrário, o poder corrói o altruísmo. Não duvido da pureza de algumas pessoas quando dizem que precisam ascender ao poder para que tenham condições de expandir o bem que fazem a outras pessoas. Também não duvido da integridade de algumas pessoas que estabelecem um plano de conquista do poder como meio para expandir seu projeto de solidariedade e de autoentrega à causa do próximo. Enquanto o poder é apenas desejado, seu potencial de maldade é limitado. Acho até que a maior parte das pessoas é realmente íntegra enquanto deseja o poder. O grande problema é quando o poder se estabelece e finca raízes. A primeira coisa que ele faz é apontar para quem está no centro, e, ao fazer isso, de imediato apazigua, arrefece o ideal de altruísmo. O próximo passo é fazer com que o eu se esqueça do outro, o que não demora muito a acontecer.

Honestamente, eu também desejo o poder, mas preciso fugir tanto do desejo como do direito e da posse do poder e seguir a trilha da fraqueza. Sou constantemente advertido pelo evangelho a respeito dos males que o poder carrega. Preciso sempre suspeitar do poder, mesmo quando ele me oferece condições e recursos extraordinários para o exercício da solidariedade. Recusar o poder quando ele bate a porta é uma das disciplinas espirituais mais complexas e custosas, porque significa dizer não ao objeto que está na base de quase todos os nossos desejos. Contudo, devemos fazer isso, mesmo com grande dor. O evangelho nos diz para seguir o caminho daquele que, tendo todo o poder, abandonou-o para viver uma vida de fraqueza. E que fraqueza! Afinal, “a fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.