segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Deus gosta de sangue?


Estou farto de holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
[Isaías 1.11]

A cruz não representa um sacrifício necessário a uma divindade sanguinária; ela revela, sim, o retrato final do poder ameaçador do amor presente na vida dessa vítima. 
John Shelby Spong [1]

A morte de Jesus foi expiatória, vicária? Ele morreu para pagar uma dívida? Deus requer sacrifício para aceitar o ser humano? Jesus é um cordeiro (animal cujo sangue era apresentado diante de Deus) que foi imolado pelos pecados da humanidade? A cruz é o ápice da trajetória do nazareno?

Essas perguntas, se respondidas fora do convencional, colocam sob suspeita um dos pontos mais importantes da teologia cristã clássica. A morte sacrificial de Jesus é uma daquelas questões teológicas que ninguém ousa mexer, de tão estabelecida e consensual. Para quase todos os cristãos, os últimos pingos de sangue que escorreram sobre aquela estaca fincada sobre o monte Gólgota são as últimas moedas entregues a Deus como pagamento da enorme dívida humana.

De acordo com a cristologia tradicional, a morte de cruz foi uma oferenda para aplacar a ira de um deus que precisa de sangue para perdoar. "Sem sangue não há remissão de pecados", diz o escritor da Carta aos Hebreus, o texto neotestamentário mais bem sucedido na tarefa de colar em Jesus toda a parafernália conceitual e ritual do culto judaico.

A compreensão da cruz como um evento litúrgico está entranhavelmente arraigada no imaginário de praticamente todos os cristãos. E há diversas razões para isso.

Há uma ampla quantidade de textos bíblicos que mostra Jesus como o último cordeiro a ser morto. Seu sangue é eficaz e suficiente para redimir, de uma vez por todas, os pecados de todos os seres humanos. Há ainda diversos credos, tratados, documentos, confissões teológicas que ratificam essa interpretação. E, por último, todo o trabalho de catequese/discipulado é feito a partir dessa interpretação. Desde cedo nossos filhos aprendem, em salas de escola dominical, que Jesus morreu na cruz para nos salvar.

A morte é, portanto, colocada como centro de toda a trajetória de Jesus. A vida que antecede a cruz é desprezada. E a vida que vem depois é esquecida.

A cruz se transformou, assim, no grande fetiche ritual dos cristãos. Contudo, é importante alertar que, entre os primeiros cristãos, a cruz não foi um símbolo de fé ou devoção. Pouco se falava dela. Só mais tarde é que se tornou símbolo e marca do cristianismo.

É verdade que a teologia da morte sacrificial e vicária tem amplo respaldo no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Paulo e na Carta aos Hebreus. Talvez por isso seja bastante difícil repensá-la, instabilizá-la, questioná-la.

Mas é preciso pensar em outras interpretações. Alguém talvez dirá: “E há outras interpretações?”. Há sim! E não são interpretações que desfazem da divindade de Jesus.

José María Mardones, no provocativo livro “Matar nossos deuses”, chama a atenção para a necessidade de se fazer uma leitura alternativa da cruz:

Não podemos ver na vida de Jesus nenhuma aceitação da cruz como algo desejado por Deus, mas como expressão e consequência de sua luta contra tudo o que causa sofrimento arbitrário nos seres humanos. O que se percebe claramente em Jesus é o amor que se manifesta por intermédio desse sofrimento; o amor desconcertante de Deus, não a vítima da justiça divina. Não há Deus sádico, não há vítima sacrificial, não há pagamento de nenhuma dívida. Há uma fidelidade livremente eleita em prol de um mundo e de uma vida humana fraterna e justa. E há um Deus criador e amoroso que não pode desejar mais que nosso bem e cujo ofício é amar. Esse Deus só pode ser antimal por “essência e excelência”, como muito bem diz Andres Torres Queiruga [2].

Mardones nos ajuda a ver o evento ignominioso do Gólgota como resultado/consequência do modelo/estilo de vida que Jesus realizou e propôs, não como um rito cósmico em que um deus, irado pelo pecado, colhe violentamente o sangue do próprio filho para, então, ficar em paz com a humanidade. Jesus, em função de sua ética fundamentada exclusivamente no amor, passou a viver de um modo bastante provocativo. Sua situação só se agravava à media que ofendia, denunciava, desmascarava o status quo religioso, político e social de uma parcela da população judaica. Seu apego radical à ética do amor não deixava margem para outro fim que não a cruz.

Portanto, me parece bastante interessante compreender o nascimento e a vida de Jesus como o centro do projeto de Deus, não a cruz. Ela veio como um contragolpe que o ser humano, livre e capaz de resistir ao amor, deu em Deus. Leonardo Boff foi certeiro ao afirmar: “o Cristianismo não anuncia a morte de Deus. E, sim, a humanidade, a benevolência, a jovialidade e o amor incondicional de Deus. Um Deus vivo, criança que chora e ri e que nos revela a eterna juventude da vida humana perpassada pela divina[3].

O Reino de Deus entrou definitivamente na história por meio do que Jesus anunciou e realizou, não por meio daquela morte horrenda arranjada pela elite religiosa judaica, em conluio com a espada e a cruz romana. Para Deus, os últimos pingos de sangue que caíram sobre o monte Caveira não são guloseimas. Ele não se alimenta e nem se deleita com sangue. Toda aquela cena de horror resulta da opção que Jesus fez em amar radicalmente, não de uma suposta exigência de Deus para que sua justiça e honra fossem reparadas. O que Deus fez foi dar a vida por amor e não cobrar a vida por justiça. 





[1]  Spong, John ShelbyUm novo cristianismo para um novo mundo: A fé além dos dogmas. Campinas: Verus, p. 150.
[2] Mardones, José María. Matar nossos deuses: Em que Deus acreditar? São Paulo: Ave-Maria, p. 97-98.
[3] Boff, Leonardo. Um Deus anônimo. Disponível em: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/26/um-deus-anonimo/. Acesso em: 26 dez. 2012.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Abraão e Isaque



Por Luis Fernando Verissimo[1]

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaac, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou Isaac e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho.

Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus: “Abraão, Abraão, não estendas tua mão sobre Isaac e não lhe faças mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.” E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera à voz de Deus.

Muitos anos depois:

- Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios de água...

- Você era um menino...

- Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

- Era a voz do anjo me falando dos céus.

- Não ouvi a voz do anjo. Ouvi os trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites e acordo tremendo.

- Você era um menino...

- Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos  chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena: um pai imolando um filho!

- Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

- Um horror.

- Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

- Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

- Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

- Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

- Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu os meus olhos cheios de água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

- O fio do cutelo encostou na minha garganta.

- Mas eu não o matei!

- Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

- Meu filho...

- Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

- O que é que eu sei?

- Que deve tudo o que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

- Ele estava me testando.

- Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

- Você era apenas um menino...

- Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos  E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

- Era o anjo do Senhor falando comigo.

- Eram trovões.

- Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

- Mais razão para temê-lo tenho eu, pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

- Na origem de todos os povos há uma cerimônia de sangue.

- Então na origem de todos os povos há uma abominação.

- Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

- Por todos os tempos, pai.
  




[1] Texto extraído de: Verissimo, Luis Fernando. Diálogos impossíveis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 53-55.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ter razão ou ser feliz?



“Nunca se justifique; os amigos não precisam e os inimigos não acreditam”.
Autor desconhecido


Outro dia li uma historinha interessante, que mostra com clareza como a obsessão por estar certo, por ter razão e/ou por ter a opinião que encerra o diálogo pode ser um obstáculo para a felicidade. Vejamos a história:


Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem.

Percebendo que, além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há problema algum se chegarem um pouquinho atrasados.

Aí ele quis saber:

- Você tinha certeza de que eu estava indo pelo caminho errado. Por que você não insistiu um pouco mais?

E ela diz:

- Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!


Optar por ser feliz é bem menos complicado, mas muito menos frequente. Nos deixamos enredar pela necessidade de poder. Acabamos gastando tempo e esforço (físico e intelectual) absurdos para provar que estamos certos. E no final das contas, não há resultado algum a se comemorar; há apenas cacos emocionais a se juntar. Nenhuma discussão para se provar quem está certo termina com as pessoas inteiras. Alguém sairá machucado. Vale a pena?

Há muitas situações em que, mesmo estando com a razão, não é certo brigar. Conquistar a razão à força torna-a completamente vazia. De que adianta garantir que estamos certos se no decorrer da discussão as pessoas foram embora ou foram machucadas?

Há sempre mais...


Há sempre mais do que se pode dizer

Há sempre mais no que se pode dizer e não se diz
Há sempre mais no que se diz

Há sempre mais...

Sostenes Lima

@Limasostenes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Só a poesia pode salvar o mundo[*]




Tem dias que acordo com a beleza tentando escapulir de dentro do meu peito. Não encontro meios de permitir que ela vaze. Um universo de boas palavras se revolve nas minhas entranhas. Tento poetar me fazendo amigo dos sonetos. Sei que a cadência das frases feitas em verso pode me socorrer. A beleza da poesia alivia como uma aragem fresca. A asfixia convulsiva da angústia não resiste a graça avassaladora de um poema.

Mas sou incompetente para o verso metrificado. Resta-me deixar os dedos à vontade. E eles bailam na prosa. Bordo pensamentos numa sintaxe pouco alinhada. Redijo como o menino que precisa mostrar-se na redação. É jeito de desabafar.

Sento-me à mesa para distribuir uma eucaristia. Minha sede de viver vira o pão sem fermento. Não reflito sobre os escombros da morte, mas, na esperança da aurora.

Na primeira linha, parto com o anseio de ver-me livre de algemas. Grilhões que apertam os pulsos me estimulam. Encarno na tarefa. Não importo se sou artesão atrapalhado; talvez pensador transversal; quem sabe amante repreensível. Minha escrita sou eu se trago dos porões da alma a força que energizou a minha inspiração. Escrevo para me construir livre se faço das palavras o libelo da delicadeza. No final, minha canhota me enreda. Ladeio os que dão a cara a bater contra a intolerância, o preconceito, a discriminação. Como diz Sostenes Lima: “Escrever é dançar com a angústia para distraí-la; é conversar em silêncio com as vozes que nos ensinaram a falar”.

Escrevo em busca da beleza trágica do saltério bíblico: na contradição de esperar e odiar, amar e desdenhar. Quero, diante do absurdo da vida, celebrar prados verdejantes e constelações coriscantes. Quero, no vale da sombra da morte, dizer: eu creio. Quero, na angústia de sentir o pé inimigo no pescoço, ter os olhos serenos.

Escrevo em busca da beleza apaixonada dos boêmios: na celebração do amor essencial. Quero cantar à musa anônima, que encanta os amantes. Quero nunca perder um olhar de terno. Quero não deixar a sensibilidade escoar no ralo da eficiência. Quero emocionar-me com o amor romântico, e tantas vezes inconsequente, dos jovens. Quero ambientes intimistas, pouco iluminados, plenos de insinuações. Quero o imaginário sem aspereza.

Escrevo em busca da beleza persuasiva dos pensadores: na difícil tarefa de repensar, tensionar ideias, provocar reflexão. Quero mergulhar nos compêndios que desalojam o obscurantismo. Quero debulhar, com lentidão, as espigas que nascem do trigal filosófico. Que belo sonho: sentar em tertúlias.
Escrevo em busca da beleza criadora dos romancistas: na feliz aventura de viajar a mundos fantásticos. Quero ver-me na pele de protagonistas que ousam desafiar demônios, encarar exércitos, sonhar com cidades submersas e, sofrer, sobretudo sofrer. Só eles conseguem ensinar o que é viver e morrer por mãos alheias.

Escrevo em busca da beleza solidária dos santos: no desprendimento de amar sem considerar o galardão. Quero celebrar a vida dos Franciscos de Assis, dos Nelsons Mandela. Na direção do próximo, eles andaram as milhas que jamais tive coragem de encarar. Quero aprender o segredo de não ter a vida por preciosa, como Oscar Romero, mártir de uma morte anunciada. Quero chegar ao fim da existência sem o bolor que noto na pele de quem se acovarda diante do mal.

Dou razão a Vinicius de Moraes: “Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã”. Os poetas são vigias. Eles guardam as muralhas da cidade; são arautos do divino. De seu alarido frágil vem uma certeza: o mal ainda não se mostrou forte o suficiente para arrancar a Imago Dei do coração de homens e mulheres. Do alto da torre, tirania e opressão tomam conhecimento: o brado da vida pertence aos que amam o Bem. A beleza que tenta sair do meu peito é compromisso transubstanciado em palavras.

Soli Deo Gloria

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Tuítes sobre a natureza da poesia














quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O silêncio é a alma da palavra


O silêncio antecede e forma a palavra.
Quando o silêncio é longo demais, a palavra nasce envelhecida ou morta;
Quando é curto demais, a palavra nasce prematura, informe e disforme.
O silêncio tem que ser do tamanho certo.

Palavras nascidas depois de uma boa gestação no silêncio são
fortes, mas não brutas
espontâneas, mas não canhestras
suaves, mas não passivas
simples, mas não simplórias

Mesmo depois de nascidas,
as palavras ainda devem continuar amigas do silêncio.
Palavra enunciada continuamente é palavra vazia.

Toda palavra, depois de enunciada,
precisa ser relançada ao exílio do silêncio.
Lá as palavras morrem e renascem em outras.
Esse é o ciclo de vida da palavra.

A palavra a que se nega o silêncio deixará ser palavra: 
Se degenerará em ruído.
O silêncio é a alma da palavra.

domingo, 25 de novembro de 2012

Diálogo com Osvaldo Luiz Ribeiro



Osvaldo Luiz Ribeiro
Sóstenes, seu texto [“Deus não é genocida”] foi divulgado no Facebook e o li. Acho que não o conhecia. Uma texto provocativo e público. Logo, provocado, comento-o.

Sostenes Lima
Caro Osvaldo Luiz Ribeiro, visito o blog Peroratio com certa frequência. Gosto dos seus posts. Antes mesmo de você me honrar com sua presença aqui, eu já tinha colocado o Peroratio como um dos blogs da minha lista de "Pontos de contato". Obrigado por sua visita.

Aproveitei o seu comentário para dar continuidade à interlocução. Gostei de cada uma das suas colocações. Não vou rebatê-las, de modo algum. Razão: me falta profundidade e sobra retórica (rs). Quero apenas comentar cada um dos seus itens (a, b, c, d).

Osvaldo Luiz Ribeiro
a) Marcião fez o mesmo que você, no século II. Foi mais longe, ele, eu acho – em todo caso, vi os mesmos arrazoados. Separar um deus bom de um deus ruim.

Sostenes Lima
a) Penso que as razões que levaram Marcião a propor uma divisão entre o Deus do A.T. (um demiurgo mau) e o Deus no N.T. são um pouco diferentes das que me levaram a escrever o texto “Deus não é genocida”. Embora suas propostas estivessem, em grande parte, ligadas a questões éticas, Marcião, até onde sei, não as elaborou para contestar o apoio dos cristãos a uma guerra específica. Me parece que a maior preocupação dele era criar uma conciliação ética entre o Deus do A.T. e o Deus do N.T., sem que isso estivesse ligado a uma questão crucial de sua época. De qualquer modo, não estudei Marcião. Tenho pouco a dizer sobre suas postulações teológicas.

Osvaldo Luiz Ribeiro
b) Você trata Yahweh, deus judeus, talvez israelita, como deus pagão. Foi exatamente o que Marcião fez. Não vejo sentido – se você tirar Yahweh, o deus ocidental desaparece. Não há monoteísmo sem Yahweh – e estou falando estritamente em termos históricos, porque não acredito em acesso metafísico.

Sostenes Lima
b) Minha discussão (e contestação) gira em torno de Yahweh Sabaoth (Deus dos Exércitos), não de Yahweh em si. Vejo problema no Deus invocado pelos judeus para lhes garantir vitória nas empreitadas militares, não no Deus de Israel em si. Ao criar especificidades para Yahweh, os judeus acabaram seguindo os mitos e religiões de sua época e de seu entorno geográfico-cultural. Todos os povos, com os quais Israel interagia, tinham deuses para praticamente todas as atividades (sociais, econômicas e culturais) e esferas da vida, tais como agricultura, guerra, justiça, saúde. O que distinguia os judeus dos outros povos é que eles congregavam essas potencialidades divinas num só ser. Daí o monoteísmo. Contudo, penso que o Yahweh da guerra, o Yaweh da agricultura (se houver), o Yahweh da saúde etc. são imitações pagãs. Esses deuses pagãos, embora chamados de Yahweh, não são propriamente o Yahweh pai do messias, o pai do Cristo dos cristãos.

Vejo que a construção de um Deus com paixões, pretensões e incursões militares decorre da necessidade dos judeus. Os registros das ações desse Deus não podem ser aprioristicamente tratados como revelação. Só tenho de aceitar como revelação todos os registros dos atos de Yahweh – com todas as especificidades dadas pelos judeus – se eu seguir rigorosamente o dogma da inerrância e da inspiração verbal plena. Caso contrário, posso conceber boa parte do A.T. como uma narrativa de autocompreensão religiosa do povo judeu, incluindo aí a criação/projeção de um Deus que lhes atendesse certas (ou quase todas) demandas da vida cotidiana. Muito do que há no A.T. é, para mim, então, resultado do modo como o povo judeu (dentro dos contextos social, cultural, econômico etc. que o cercavam) concebia Deus. Portanto, as ações atribuídas a Deus podem não ser necessariamente de Deus.

O discurso religioso é, talvez de todos os discursos, o que tem mais poder de construção e manutenção, porque invoca uma autoridade supra-humana, inquestionável. Dogmas são criações discursivas poderosas porque estão assentados em discursos sagrados, que reivindicam para si mesmos um poder legítimo, inerrante e não suscetível à crítica e à suspeita.

Osvaldo Luiz Ribeiro
c) Não entendo como você pode se dizer um cristão convicto e, por isso, negar Yahweh, um deus pagão e assassino, quando o Cristianismo é muitíssimo mais assassino do que Yahweh - se somarmos todas as mortes atribuídas a Yahweh a gente pode dar um século de matança cristã que fica zero a zero, com 19 séculos de sangue ainda para a gente negociar com algum outro deus pagão...

Sostenes Lima
c) Nesse ponto, penso ser necessário distinguir Yahweh e judaísmo, do mesmo modo que é necessário distinguir Cristo e cristianismo. Cristo não fez e não faz tudo que os cristãos lhe atribuem. Houve na história do cristianismo diversas incursões de massacre e outros desastres éticos, já denunciados por mim no artigo “A agenda de Jesus se opõe à agenda dos cristãos”. Quem fez isso, embora em nome de Deus, foram os cristãos, não o próprio Deus. Portanto, os 19 séculos de violência do cristianismo devem ser interpretados à luz das necessidades e contexto histórico dos cristãos, não à luz da revelação.

Minha interpretação do A.T. vai nessa mesma direção. Yahweh não é sinônimo de Israel ou de judaísmo. Nem tudo que Israel e/ou judaísmo atribuem a Yahweh foi realmente praticado por Yahweh. Como disse acima, o problema não está com Yahweh, mas com o Deus que entra na guerra para exterminar violentamente os inimigos de Israel. É o sanguinário Yahweh Sabaoth que é pagão, não o Yahweh.

Osvaldo Luiz Ribeiro
d) o final do seu texto, aí, sim, me interessa – mas, cá entre nós, ele pode funcionar bastante bem sem essa retórica de "sou cristão" mas o AT que vá pro inferno: se é para mandar às favas, mande tudo, e fiquemos com a ética humanista e secular moderna que tá de bom tamanho...

Sostenes Lima
d) Gosto da ética humanista secular. Penso que ela dá conta de todas as demandas éticas da comunidade humana global, sem qualquer apelo às bases éticas das diversas religiões. Não há que se recorrer à ética cristã (ou qualquer ética religiosa) para se chegar a um padrão ético satisfatório para a continuidade e desenvolvimento da família humana (que envolve o ser humano e todos os outros organismos e elementos naturais de seu entorno). Na verdade, a ética religiosa tende mesmo a atrapalhar mais que ajudar. Temos visto que a religião, embora grandemente assentada em questões éticas, tende a fossilizar a ética e transformá-la em moralismo. Penso que uma das bases do embate de Jesus com as instituições de sua época se deu, em grande parte, por causa do desvirtuamento da ética da lei em moralismo e tradição.

Coloquei a figura do cristão no meu artigo exatamente para dizer que, mesmo olhando sob a ótica religiosa – seja cristã ou judaica – o genocídio jamais é sancionado. Só mesmo uma degeneração da ética cristã, judaica (ou de qualquer outra ética religiosa) pode dar legitimidade ao genocídio; só quando se coloca algum dogma acima da ética (é bom lembrar que disso decorre a maior parte dos movimentos fundamentalistas) é que se pode respaldar ou apoiar qualquer forma de genocídio.

Osvaldo Luiz Ribeiro
e) Para mim, é impossível separar a tradição cristã de seu passado judeu - IMPOSSÍVEL: tudo, absolutamente tudo, no cristianismo está assentado de modo sine qua non em assentamentos veterotestamentários. Penso que devíamos é fazer a crítica cristã a partir dessa relação, e não tratar o cristianismo e o fato de sermos cristãos como algo "acima" ou "melhor" do que foi o judaísmo veterotestamentário. Foi não: foi pior, mil vezes pior.

Sostenes Lima
e) Também acho que todo o nosso fundamento teológico é dependente do monoteísmo judaico. Somos todos filhos de Yahweh, por assim dizer. A questão central para mim não é pesar qual religião foi/é mais cruel: judaísmo ou cristianismo. Essa questão não me interessa. Também não me interessa saber qual Deus fez mais besteiras e barbaridades na história: o Deus dos judeus ou Deus dos Cristãos. Meu objetivo, ao escrever o artigo, não foi comparar a representação que os judeus e os cristãos constroem para o seu Deus, e a partir daí dar o veredito sobre qual Deus é mais bárbaro. De modo algum. Em se tratando de representação, todos os deuses tendem a se tornar bárbaros. Não tenho a menor dúvida de que há muitos deuses bárbaros e pagãos tanto no judaísmo e quanto cristianismo.

Meu objetivo central foi denunciar a representação que judeus e cristãos têm de Deus, especialmente a representação que atribui a ele uma identidade belicosa, sanguinária. Eu quis dizer que algumas representações de Deus, construídas em diversas manifestações do discurso sagrado (livros sagrados, profetismo, prédica etc.), não devem ser levadas a sério, não devem ser tratadas com a reverência que reivindicam. Há que se colocar certos pressupostos éticos antes.


Osvaldo Luiz Ribeiro
"Meu voto", para brincar com a declaração da moda...
Meus respeitos,

Sostenes Lima
Um grande abraço, meu amigo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sou professor, não um coitado



Sou professor, não um coitado. Peço que a mídia e sociedade me tratem com dignidade profissional. Não preciso que tenham pena de mim. Não preciso de condolências. Na verdade, a sociedade, como um todo, deveria ter pena de si mesma, não de mim. Se a mídia e a sociedade acham mesmo que estou na miséria, então é bom que comecem a preparar o próprio funeral.

Sou professor, não um missionário da educação. Não trabalho apenas por amor a profissão. Como qualquer outro profissional, trabalho para ser dignamente remunerado. Não vou completar a baixa remuneração com filantropia, trabalho voluntário. Não sou amigo ou voluntário da escola. Sou um profissional que desempenha aí suas atividades, devendo, para isso, ser adequadamente pago.

Também não tenho a missão de salvar a educação. Na verdade, não quero e não tenho a menor condição de fazer isso. Professor não é redentor. Se a educação está perdida, quem tem a responsabilidade de apontar o caminho da redenção é o Estado, não eu.

Também não tenho a missão de salvar nenhum aluno que, porventura, se encontre em alguma situação de risco social. Na verdade, não quero salvar ninguém. É o Estado que deve criar, promover e manter políticas públicas que diminuam as situações de risco social.

Sou professor, não tio. Não trabalho para suprir demandas afetivas (de natureza familiar) dos alunos. Minha responsabilidade profissional é, sobretudo, social, não afetiva. Não sou a extensão do pai ou da mãe de ninguém. Isso não quer dizer que minha atuação não seja carregada de afetividade. É sim. Mas não posso incorporar ao meu trabalho o papel de pai ou mãe; não posso me julgar capaz de satisfazer demandas afetivas dos alunos. Se eu fizer isso, vou comprometer a qualidade técnica de meu trabalho.

Este pequeno texto é uma espécie de protesto, um desabafo. Não é um artigo. Não me preocupei em apresentar base teórica ou dados  de pesquisa que sustem (ou não) o que disse. Eu apenas quis expressar uma indignação que volta e meia sinto. Estou mesmo cansado de ser tratado com estereótipos e caricaturas.  Quero respeito. Quero que meu país me veja como um profissional importante para qualquer projeto que se queira para esta nação, não como um coitado ou um redentor.

Encerro com um mantra (surrado, mas verdadeiro) muito frequente em livros (de autoajuda) da área de educação:

Sonho com o dia em que se reconhecerá que uma nação forte se constrói em sala de aula.   Sem um projeto educacional amplo, que inclua a reestruturação da carreira docente, não há projeto de nação que se sustente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O livro é um objeto sensual


Por André Green[1]

O desejo de ver está presente na leitura. A capa, a encadernação de um livro são sua roupa. Indicam um nome, um título, um pertencer (a casa editora) que se propõem ao olhar e o atraem.

Quando o livro está na estante de uma biblioteca, seu acesso é fácil para o olhar em busca de prazer; quando está posto na vitrine de uma livraria, esta barreira transparente aumenta nossa curiosidade. Entramos na livraria pra ‘dar uma olhada’. Exceto no caso em que já sabemos o que queremos e pedimos ao livreiro, não gostamos de ser perturbados em nossa inspeção. Fuçamos até que, atraídos por um vago indício, seguramos um livro. Aí começa o prazer, quando o abrimos, tocamos, folheamos, sondamos aqui e ali. Se o livro não está com as páginas cortadas, às vezes somos obrigados a fazer uma pequena acrobacia ocular para ler uma página pregada por cima ou pelo lado, pois é justamente aquela passagem que nos interessa.

Enfim, é preciso escolher. Se a promessa de prazer nos parece que vai poder ser mantida, pagamos o preço do livro e partimos abraçados com ele. Dependendo de se não nos desagrada mostrá-lo em nossa posse ou se algum pudor nos leva a esconder a sua identidade, o mostraremos nu ou embrulhado. Para ler, precisamos nos isolar com o livro – em público ou em particular – e às vezes em lugares bem estranho e a priori pouco propícios a este tipo de exercício.

O que nos leva a ler? A busca de um prazer pela introjeção visual que satisfaz uma curiosidade.




[1] Texto extraído de: André Green. Literatura e psicanálise: a desligação. In: Luiz Costa Lima (Org.). Teoria da literatura em suas fontes. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 233-234 [Adaptado na distribuição dos parágrafos. O título “O livro é um objeto sensual” não consta no original].

domingo, 11 de novembro de 2012

Condenados à liberdade e à temporalidade


Quando chegamos a entender que são as coisas espaciais que estão constantemente escapando, nós nos damos conta que o tempo é aquele que nunca expira, que é o mundo do espaço que está rolando através da vastidão infinita do tempo. Assim, a temporalidade pode ser definida como a relação do espaço com o tempo.

Abraham Joshua Heschel¹



O presente é o único tempo que temos, mas não é o único tempo que nos constrói. Somos uma síntese de tempo (passado, presente e futuro) que se desenrola agora. É verdade que, em termos físicos, não há outro tempo, senão o presente. Podemos até dizer, aprofundando um pouco mais a questão, que nem mesmo há tempo. O que há é um conceito de tempo, uma interpretação temporal da realidade, que, em si mesma, parece ser atemporal. Contudo, nosso senso de temporalidade é tão forte, que faz com que concebamos tudo a partir da linha do tempo, como se o tempo estivesse realmente incorporado à realidade. Somos no presente, mas o passado e o futuro estão aqui e agora, entremeados em tudo que é e em tudo que somos.

É a nossa capacidade de interpretar o mundo a partir de uma intricada relação entre o que foi (passado), o que é (presente), e o que será (futuro), que nos faz homo temporalis. Segundo o que sabemos até o momento, apenas os humanos têm condições de interpretar a realidade (física e social)² sob a ótica da sucessão temporal. Parece que somos o único ens temporalis.

Para a árvore, só existe a árvore tal como ela é, com todas as informações naturais de que ela dispõe, em sua estrutura, no momento. Não há memória da semente; também não há esperança do fruto. A árvore não se interpreta temporalmente. Ela apenas existe.

Nós humanos somos diferentes porque não apenas existimos; nós somos. E ser significa incorporar história. Para mim, a história é uma das grandes metanarrativas humanas, talvez uma das poucas que jamais poderão ruir. O ser humano tem compulsão para significar o tempo. Parece haver em sua ontogênese uma narratio temporis. Somos porque temos história; somos porque há uma narrativa do tempo que nos constrói. Em última instância, só é aquilo que tem história. Não havendo história, não há ser. Há apenas a coisa, não o ente.

Tudo que existe no nosso entorno acaba também se transformando de res (coisa) em ens (ser), porque passa a incorporar as dimensões do tempo. É por isso que para nós uma árvore não é apenas uma árvore. Em potencial, é também uma semente, uma fruta, uma sombra, uma cadeira, um andaime, um cavalete, uma moldura etc. etc. A história transforma a res num ens, na medida em que projeta nela a existência de uma infinidade de seres, transformando-a num conjunto aberto de entidades potenciais, já conhecidas e ainda por conhecer.  

Para nós, temporales et historici entes, nada é apenas o que é. Temos consciência de que tudo está sob o efeito da sucessão do tempo. Sabemos que tudo é o que é, porque é o que foi. Também sabemos que tudo será o que será, porque será o que é e o que foi. Esse saber temporal faz parte de nossos esquemas cognitivos mais elementares. Parece ser impossível viver à margem da interpretação do tempo. Estendendo o pensamento de  Sartre, eu diria que, além de estarmos condenados à liberdade, também estamos condenados à temporalidade. Somos prisioneiros do tempo.

Se você está pensando que tudo isso não passa de filosofia de botequim, eu confirmo: é mesmo. A consciência do tempo é algo tão espontâneo que nem nos damos conta do quanto o tempo é uma categoria complexa. A maioria de nós só pensa no tempo quando há algum estímulo. Às vezes, só depois de uma conversa de botequim conseguimos nos interrogar: que efeito o tempo exerce sobre mim? Como o passado e o futuro estão orientando o meu presente? Diante da condição de prisioneiros do tempo, nos resta buscar a melhor maneira de viver essa prisão. Podemos transformar nossa consciência do tempo numa porção de sabedoria que nos ajuda a viver melhor. É isso que tenho buscado ultimamente.





¹ Heschel, Abraham Joshua. O Schabat: seu significado para o homem moderno. São Paulo: Perspectiva, 2012. p. 136

² Será que existe mesmo uma cisão entre mundo natural e social? As epistemologias pós-modernas têm mostrado que a concepção de um mundo externo ao ser humano, passível de ser estudado e compreendido objetivamente, conforme apregoa o paradigma epistemológico moderno, não passa de mito já definitivamente superado. Boaventura de Sousa Santos (210, p. 72), com perspicácia e precisão, nos diz: “não há natureza humana porque toda natureza é humana”. Realmente está cada vez mais difícil aceitar que ser humano e natureza não estejam dentro de uma relação inerentemente intricada.

Contudo, pela complexidade do tema e por estar um pouco foro do foco deste ensaio, deixo essa discussão para outro texto. Por hora, convém assinalar apenas que, logo, logo, estaremos dispostos a admitir que “o mundo, que hoje é natural ou social”, amanhã poderá ser ambos num só, abrindo caminho para uma interpretação do mundo “como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia” (Sousa Santos, 2010, p. 72), algo no qual o sujeito e objeto estão inextricavelmente fundidos.

Sousa Santos, Boaventura de. Um discurso sobre a ciência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

As memórias são o que a alma acumula



Por Rubem Alves[1]

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Por que a alma ama. O amor deseja possuir. Se amo a casinha de paredes brancas e janelas azuis, por que não possuí-la, se posso? Se ela for minha, eu cuidarei dela, plantarei um jardim. [...]. Se amo a música que ouço, por que não possuir o CD? Eu o levarei para casa e poderei gozá-lo quantas vezes quiser. O amor é onívoro – quer comer tudo. Comer é a forma mais radical de possuir. Comendo, o que estava fora e era outro passa a ser parte de meu próprio corpo. ‘Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar’, dizia Neruda.

Eu ajuntei muitas coisas e estou sendo perturbado pela pergunta da parábola; Para quem ficará tudo o que acumulaste? [...].

Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos. Estão guardados no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria com prazer. Seria preciso inventar uma técnica de faxina de memórias: uma vez por ano, limpeza das memórias que fazem sofrer. Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. Bobagens: a cena de um menino andando a cavalo de madrugada no meio do campo coberto com capim-gordura, o barulho da água caindo no monjolo [...]. Quando eu morrer vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. A morte das coisas que o meu amor ajuntou e vão se perder quanto eu morrer.


_________________________________

[1] Texto extraído de: Rubem Alves. Se eu pudesse viver minha vida novamente... 21. ed. Campinas: Verus, 2010. p. 46-47. [O título "As memórias são o que a alma acumula" não consta no original].

sábado, 29 de setembro de 2012

Gramática de carne e sangue


Houve um dia em que Deus se cansou de ser fabricado, construído e grosseiramente reproduzido em palavras. Se cansou de ser ídolo. Desistiu da linguagem denotativa como recurso para se fazer conhecido. Abandonou definitivamente os cânones da religião. Percebeu que tudo que aí se dizia (e se diz) a seu respeito tinha (e tem) um poder incrível de se transformar em parafernália religiosa.

Deus viu que todos os textos que tentavam trazê-lo para perto dos seres humanos, uma vez sob o controle dos magnatas da religião, logo se transformavam (e ainda se transformam), em dispositivos de opressão e desumanização. Deus notou que os textos sagrados, quando entram para o domínio do aparelho religioso, perdem a vida e se revestem de morte.

Depois de tanto desencanto com os textos e com o aparelhamento da religião, Deus decidiu vir aos homens revestido noutro tipo de palavra. Deus se cansou de ser obscurecido, aviltado e demonizado pelos textos que o aparelho religioso produz (e continua produzindo) sobre ele. Decidiu, então, fazer de si mesmo um texto de carne, uma poiesis encarnada.

Deus quis se mostrar de verdade. Para isso, revestiu-se de carne humana, de ossos humanos, de desejos humanos, de cognição humana, de psiquismo humano, de abraços humanos, de beijos humanos, de histórias humanas, de prosa humana, de poesia humana. Deus rompeu com a linguagem referencial e se casou com a matéria e poiesis humanas. Deus virou um poema em carne, que desbrava e encanta corações sequiosos de contemplação, ternura, afeto. Deus passou a morar em histórias que celebram o desmoronamento das estruturas religiosas. Deus virou um contador de histórias da vida cotidiana, abandonando de vez a tribuna dos grandes eventos litúrgicos e as cátedras das grandes escolas rabínicas.

Deus virou um de nós para nos mostrar que nenhum monumento de linguagem referencial, nenhuma confissão teológica, nenhum acontecimento litúrgico pode tocá-lo. Apenas um texto recoberto de sensibilidade (um poema, uma metáfora, uma história, um causo) pode traçar alguns de seus contornos. Nenhum edito, encíclica, confissão, sermão, petição, relatório etc., que esteja a serviço de algum empreendimento religioso, contém Deus.

Deus não se deixa conceituar porque sabe que conceitos podem virar instrumento de morte. Muitos já mataram e muitos já morreram por causa de algum conceito religioso.  É por isso que Deus jamais foi textografado. Deus sempre soube que um texto que o refletisse com precisão, compondo uma Textografia de Deus, mais cedo ou mais tarde (talvez só mais cedo), cairia na mão de algum magnata religioso (pessoal ou institucional) e se transformaria num instrumento de exploração, dominação e execução.

Deus nunca esteve em textos que servem para oprimir, excluir e matar. Aliás, Deus nem chega perto de eventos nos quais textos assim estejam sendo lidos/falados, a não ser para recolher dali os fracos e pobres que estão sendo massacrados.

Deus, agora, não está mais nos textos. Ele está nas pessoas. Deus virou gente para não precisar mais da mediação dos textos. Deu um basta na farra que os religiosos estavam fazendo em seu nome a partir do uso de textos supostamente sagrados, falsas teotextografias. Na verdade, Deus se cansou de ser vítima dos textos. Fez de si mesmo o texto a ser seguido, imitado, lembrado.

Sem a necessidade dos textos como elementos de mediação, os magnatas do esquema religioso agora estão de mãos abanando. E foi se a glória da máquina religiosa! Ninguém precisa mais se submeter a nenhum rabino, sacerdote, apóstolo, profeta, padre, pastor, bispo, reverendo etc. etc. Deus é o próprio texto encarnado, escrito numa gramática de carne e sangue, que pode ser lido/comido por qualquer um. O verbo se tornou carne e nos disse: “Este é o meu corpo que é dado por vocês. Comam dele todos. Deixem que as estruturas do verbo sejam dissolvidas na alma, no caráter e no afeto de vocês. E, assim, sejam impelidos à prática do amor”.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poeta

Poeta é alguém
Que sai em busca de coisas já encontradas por todos,
Que faz o dia nascer quando o sol já se inclina para o poente,
Que sonha na vigília e faz poema enquanto dorme.
Ser poeta é se encontrar com pessoas/coisas/realidades/eventos
Que existem para além do que as coisas são no espaço-tempo.

Sostenes Lima
@Limasostenes

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Rostos desfigurados: o sujeito e a massa pós-modernos

Por José J. Queiroz (2006, p. 4-5)[1]

Um rosto sem sujeito, como proclama Baudrillard (1991). O sujeito, a grande descoberta da Modernidade, agora agoniza, manipulado pela simulação (que é fingir ter o que não se tem), pelo simulacro (imagem falsa e enganadora, que impede o acesso à realidade e extermina o sentido das coisas). Mergulhado no universo onipresente do vídeo, das informações, do eletrônico, o humano vai assumindo a forma de um puro código, um sujeito sem corpo, sem substância, (como Neo, personagem central dos filmes Matrix) ou uma peça de um enorme espetáculo (como a personagem do filme The Truman Show). O espetáculo invade o cotidiano na TV, nos filmes, nas revistas, na moda, nas igrejas, um show fantasioso e fantástico, que a todos envolve no mundo da irrealidade. Narcisista, o sujeito só enxerga a própria imagem, eclética, feita de pedaços de objetos informatizados, flutuante, sem consistência, presa fácil da apatia, da ansiedade, da depressão. Publicidade, marketing, design, embalagem, micro, TV, internet, forjam o cérebro e o comportamento. Está em franca ascensão o homo digitalis ou o homo videns (SARTORI, 2001).

Isolada, dispersa, fragmentada, a massa pós-moderna já não é mais a de outrora, que se organizava em classes, partidos, segmentos, sindicatos, blocos. O patriotismo se arrefece; os laços familiares e a vinculação trabalhador-empresa são cada vez mais instáveis. A indefinição e a ausência de identidade alteram também o modo de perceber o tempo e o espaço, as coisas, e acabam tornando a própria vida um teorema “indecidível”, constituído de pequenas experiências, que se sucedem, vivências fragmentárias, onde não cabem mais os grandes ideais de totalidade como Pátria, Céu, Revolução, Libertação. (BAUDRILLARD, 1994; LYOTARD, 1993).

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simulação. Lisboa: Relógio D´Água, 1991.
______. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento
das Massas. 4. ed. São Paulo: Brasiliense: 1994.
LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno. 4. ed. Rio de Janeiro: ed. José Olympio: 1993.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns. Televisão e Pós-Pensamento. Bauru: EDUSC, 2001.


[1] Fragmento extraído de: QUEIROZ, J. J. Deus e crenças religiosas no discurso filosófico pós-moderno. Linguagem e religião. Revista de Estudos da Religião, n. 2, p. 1-23, 2006. Disponível em:  www.pucsp.br/rever/rv2_2006/p_queiroz.pdf. Acesso em: 12 set. 2012. [O título "Rostos desfigurados: o sujeito e massa pós-modernos" não consta no original].

sábado, 8 de setembro de 2012

Restam

Restam...
as pálpebras pesando sobre os olhos
um olhar esmaecido
um pensamento que se arrasta
o desejo se despedaçando
o dia chorando ante o crepúsculo
o barulho se envolvendo em silêncio
a escuridão se assentando
a alma se acalmando diante do imponderável.

Anápolis, 08 set. 2012

Sostenes Lima
@Limasotenes

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O inferno mora na alma


De vez em quando o inferno se aproxima de mim, me envolve, me enreda. Fico com a alma dilacerada. Me desumanizo. Começo a lutar. E, com muito, esforço consigo enfraquecer as minhas trevas. Sei que não é uma vitória definitiva. O inferno me perseguirá outras vezes. Estarei, em outros momentos, à mercê de suas forças sutis e avassaladoras.

Houve um tempo em que eu tinha muito medo do inferno. Eu ficava aterrorizado com o cenário que os pregadores pintavam. Ficava ainda mais amedrontado quando alguém me dizia: “Se você continuar se comportando assim vai acabar indo para o inferno”.

Na minha infância, a ameaça de inferno era um expediente de controle muitíssimo eficaz. Quando a meninada se reunia e começava a aprontar, a expressão “cuidado com o inferno” era quase sempre suficiente para restaurar a ordem. Quando ouvia isso, a meninada ficava de orelha em pé; logo se lembrava de que Deus manda os desobedientes para um lugar bem longe, governado por Satanás. Lá os rebeldes são eternamente queimados; o fogo nunca apaga e bicho nunca morre.

Hoje, o inferno não me assusta mais. Aquele medo aterrador, quase sinistro, de ir para um lugar fétido, quente e comandado por um ser chifrudo que tortura suas vítimas com um tridente não me impressiona mais. Nenhuma pregação ou fala sobre o inferno me comove. O que mudou?

Descobri que o inferno não é um lugar para onde se vai depois da morte. Não, definitivamente não. O inferno mora bem aqui do lado; está entre nós, está em nós.

O inferno não é uma pessoa; ele está nas pessoas. O inferno não é uma coisa; ele está nas coisas. O inferno não é um lugar; ele está nos lugares; O inferno não é o mal; ele está no mal. O inferno não é uma entidade de outro mundo; ele está neste mundo. Não são as pessoas que vão para o inferno; é o inferno que vai para dentro das pessoas. Ninguém é torturado no inferno; é o inferno que, entrando nas pessoas, começa a impulsioná-las a um autoflagelo emocional e existencial. Ninguém é morto no inferno; é o inferno que, uma vez instalado nas pessoas, começa a matá-las por dentro.

O inferno não é uma categoria religiosa ou teológica. Sua existência não depende da anuência ou catalogação de uma determinada tradição e/ou dogma. Não é a religião que o institui; são as pessoas que o tornam real. O inferno existe porque pessoas existem. Ele está em todo lugar por onde o ser humano anda. O inferno mora na alma humana.

Embora não pareça, o inferno que a tradição religiosa pinta é muito menos terrível que o inferno que reside aqui. A postulação de um inferno fora do nosso mundo contribuiu, e muito, para que o inferno daqui atuasse livremente, se tornando cada vez mais infernal. A religião, ao fabricar um inferno em outras paragens cósmicas, como um ajuste de contas para depois da morte, mitigou o inferno daqui, tornou-o invisível. De certo modo, liberou as pessoas para viverem no inferno se darem conta disso. Também deu liberdade para o homem infernal disseminar inferno sem que as forças anti-inferno possam constrangê-lo. Afinal de contas, o castigo está destinado para a vida no além. Pouco se combate, reprime ou remedia aqui. É lá que tudo que tudo finalmente será pago.

Os religiosos e fundamentalistas também ganharam muito com essa história de construir um inferno no além. Com essa medida, eles puderam amansar, e maquiar ainda mais, os infernos e demônios que povoam a religião. Acabaram se livrando do risco de verem expostas as alianças espúrias que mantêm com os infernos e demônios que sutilmente governam as estruturas de poder da religião.

Hoje, o que sinto pelo inferno é uma enorme indignação. Sei que nem sempre percebo os infernos que existem no meu entorno, especialmente aqueles que estão sendo encubados dentro mim. Mas travo uma luta contínua para que o inferno jamais se torne comum, imperceptível. O inferno fica muito mais medonho, efetivo e devastador quando não é notado. Preciso lutar para que as cortinas que o envolvem e que o mascaram sejam destruídas. Preciso lutar para que as vísceras podres do inferno sejam expostas.

O inferno pode ser combatido tanto no plano pessoal e quanto no plano social. Contudo, em ambos os casos, a ação se constitui basicamente de plantar e cultivar amor. O que é o inferno senão uma ausência de amor, uma rejeição ao amor, um ódio declarado ao amor? O inferno se alimenta de tudo que mata o amor: indiferença, ódio, sadismo, presunção, ambição, inveja, ressentimento, mágoa etc.

O inferno nasce do fracasso do amor. Onde o amor floresce, o inferno morre. Onde o amor fracassa, o inferno finca raízes, se fortalece, constrói uma sede de governo, edifica repartições de comando.

A população do inferno não é feita de gente morta. São os vivos que vão para lá vivem aqui. Sempre que desprezamos o amor, passamos a engrossar as fileiras do inferno. E não há prática religiosa capaz de nos livrar do inferno. Apenas o amor pode pôr para fora o inferno que mora em nós.

O apóstolo João nos adverte: “Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor” [1 Jo. 1.8]*. Quando nos opomos a amar, plantamos no paraíso de Deus, o mundo em que vivemos, uma serpente semente de inferno. Não há oração, culto, louvor, campanha, novena, penitência, seja lá o que for, que mate essa semente. Tudo que importa para Deus é o amor. Sem amor, não há adoração que valha a pena. Sem amor, até as mais profundas preces se tornam sementes de inferno. A religião não pode destruir o inferno. Na verdade, em alguns casos, a religião faz é potencializar o inferno. Apenas o amor (Deus) pode aniquilar o inferno. Amemos.

@Limasostenes

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*Fragmento citado de:  Eugene Peterson. A mensagem: a bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Vida, 2011. p. 1748.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Poética da sabedoria em tuítes







domingo, 26 de agosto de 2012

O amor (Eros) refaz a natureza do tempo (Chronos)


O amor reinventa a natureza do tempo,
Redimensiona a estrutura de seu (do tempo) movimento.
Com o amor, o tempo passa a se movimentar
Livremente para frente (esperança) e para trás (lembrança).
O amor também faz o tempo se eternizar no agora (memória).
O amor enfraquece a força e a ameaça do Chronos.
Amemos mais. Amemo-nos sempre.

Sostenes Lima
@Limasostenes

sábado, 25 de agosto de 2012

Exílio das palavras


Quando as palavras rumam para o exílio,
O texto vira miragem num horizonte que sempre se afasta,
A página fica em branco,
O dia finda antes da noite chegar,
O silêncio se impõe implacavelmente,

Frustram-se todos os projetos de locução.

O exílio das palavras 
É uma ausência que provoca saudade e desespero
É um silenciamento que fortalece a inércia.
Dou anistia para todas as palavras, mesmo as mais insurgentes e perturbadoras.
Quero que elas voltem para casa.
Quero que elas voltem a me construir e construir o meu texto.
Dou-lhes liberdade para escreverem a história que quiserem e da forma que quiserem.

Sostenes Lima
@Limasostenes

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Poética da vida em tuítes






terça-feira, 14 de agosto de 2012

Aluno cotista tem rendimento baixo. Será?


Já ouvi algumas pessoas dizendo que não são a favor do sistema de cotas (reserva de vagas para candidatos com determinado perfil étnico e/ou social) porque o aluno cotista apresenta rendimento muito, mas muito inferior aos demais. Quem usa essa justificativa para se posicionar contra as cotas está não apenas legitimando um preconceito contra o negro e/ou pobre, mas, sobretudo, se firmando numa inverdade. Pesquisas feitas na UERJ e Unicamp mostram que o aluno cotista tem desempenho acima da média[1]. Não bastasse o preconceito que o cotista carrega por ser pobre e/ou negro, ainda tem de carregar o preconceito (prejulgamento) de ser incapaz. Vê se pode?

Não digo que casos específicos não aconteçam. Porém, no geral, o rendimento do aluno cotista é satisfatório. Parece inacreditável, não é? Sempre ouvimos dizer que aluno beneficiado pelo sistema de cotas é problemático, tem dificuldade de aprender, só tira nota ruim, abandona o curso pela metade. Pois é, o estudo feito pela UERJ e pela Unicamp desmascara o preconceito de que aluno cotista é incapaz. Fico pensando: derrubada essa justificativa, o que restará para abonar uma posição contrária às cotas?

Outro dia li o artigo “Universidade e populismo”, de Helio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo. O texto aborda o Projeto de Lei (já aprovado na Câmara e Senado, aguardando apenas a sanção da presidente Dilma), que destina 50% das vagas das Universidades Federais para alunos que fizeram o Ensino Médio em escola pública. Segundo o autor, o Projeto é populista e, se sancionado, vai prejudicar a qualidade das Universidades brasileiras e também os próprios cotistas. O autor diz que até mesmo quem é a favor das cotas deveria se posicionar contra o Projeto. E o motivo, segundo ele, é que uma vez aumentado o número de alunos cotistas na Universidade, eles vão se segregar (formar uma espécie de gueto social dentro da Universidade) e, com isso, se afastar dos alunos ricos. O autor teve a babaquice coragem de dizer que um número maior de cotistas vai impedir que “jovens de estratos sociais mais baixos se beneficiem de estudar com alunos ricos”[2]. Para mim, isso soa como preconceito, mas muito preconceito. Não consegui digerir. Imagine só! O cara considera que a companhia da elite é fundamental para a redenção dos "pobres alunos cotistas". É isso mesmo? Eu entendi bem?

Todo mundo tem o direito de se posicionar contra o sistema de cotas. Mas daí achar que, sem os ricos, os pobres estão completamente perdidos é demais, não é?

Por fim, considero que tomar uma posição contrária ao sistema de cotas requer uma justificativa que se apoie em dados, não numa opinião de senso comum. Um cotista específico, que tenha rendimento baixo, jamais deve ser tomado como referência. Ele não representa o todo. Ele é apenas um aluno ruim como qualquer outro. Tenho certeza de que numa sala, em que há um cotista com baixo rendimento, há também um não cotista com baixo rendimento. Por que só o cotista é notado? Não parece haver aí uma pré-disposição para o pré-conceito?



[1] Para mais detalhes sobre a pesquisa, veja a notícia em:
[2] O texto de Schwartsman está disponível em: