quarta-feira, 27 de junho de 2018

O vira-latismo de nossa imprensa


Às vezes é difícil suportar setores de nossa imprensa esportiva, babaca e vira-lata. Vive colocando a Alemanha como modelo de gestão e planejamento, além de superestimar, e muito, o desempenho do técnico Joaquim Low. 

O 7x1 virou uma espécie de mantra pró Alemanha e um símbolo de demonização total do futebol brasileiro. De 2014 para cá a imprensa repetiu ad nauseam que o Brasil tinha que seguir o exemplo da Alemanha.

Hoje a casa caiu. 

Está fora de questão defender a gestão do futebol brasileiro. A CBF é a mesa da repartição do roubo, a bandidagem com escritório e gravata. Aquilo é uma desgraça colossal. Vive às custas das propinas que recebe e que paga. As Federações estaduais são iguais ou piores.

Mas o fato é que não há santo no universo do futebol. Em que medida a FIFA é melhor que a CONMEBOL? Em que medida a FIFA é melhor que a CBF? Não existe santo num negócio de bilhões, cujas regras para associação exigem dos seus filiados que não recorram a nenhuma tipo de interferência do Estado e da justiça comum.

Não estou dizendo que proibir a interferência do Estado seja uma coisa necessariamente ruim. Essa, na verdade, é uma questão ambígua. O fato é que a FIFA estabelece, gere e fiscaliza a si mesma. Só alguém ingênuo poderia esperar uma FIFA limpa. O que manda ali é a grana e pronto. Idem UEFA, idem CONMEBOL, idem CBF...

O que me irrita muito em ralação à imprensa brasileira é que, esquecendo o lado sujo da FIFA e das outras confederações e federações, usa recorrentemente o lado sujo da CBF pra mistificar as seleções europeias, tratando-as como times fortes, imbatíveis, organizados. Fala sério!

O que o futebol revela, com clareza matemática, é que os grandes times enfrentam constantemente problemas e oscilações. Nas últimas 6 copas (de  1998 para cá), exceto em  2006, houve time grande eliminado na primeira fase.

Vejamos os "vexames". Em 1998, a Espanha ficou fora. Embora ainda não fosse uma campeã, sempre foi tratada como time grande. Aumenta o "vexame" o fato de a Espanha estar num grupo que tinha Nigéria, Bulgária e Paraguai. Em 2002, foi a vez da França, Argentina e Uruguai. Em 2010, foi a Itália. Em 2014, foram a Inglaterra, Itália e Espanha.

Agora em 2018, é a vez da Holanda e Itália (que nem se classificaram) e da Alemanha. Não há nada de anormal ou catastrófico nisso. É apenas o futebol seguindo seu curso.

Essas oscilações fazem parte do futebol de seleções, especialmente pelo fato de que o intervalo entre uma copa e outra é relativamente longo. Dificilmente uma seleção consegue se manter estável no topo por 4, 8 ou 12 anos. As renovações são constantes.

Aliás, olhando o histórico das copas, vemos exatamente o contrário do que essa imprensa vira-lata diz. O time que historicamente conseguiu se manter estável no topo por mais tempo é exatamente a seleção brasileira, e por duas vezes. De 1958 a 1970, em 4 copas, foram três finais e três títulos. Não podemos nos esquececer da copa de 1966. Foi a única vez que o Brasil foi eliminado na primeira fase. Esse caso mostra exatamente a possibilidade de oscilação. A outra vez que o Brasil teve um longo período de domínio foi de 1994 a 2002, em que chegou a três finais e ganhou dois títulos.

Que outro time conseguiu fazer isso? O país a chegar mais perto foi a Alemanha, que também chegou a três finais seguidas (em 1982, 1986 e 1990) e ganhou uma.

Eu realmente não suporto essa vira-latisse da nossa imprensa. É horrível ter que aguentar isso.

sábado, 24 de março de 2018

Os idiotas não vão dominar o mundo



Outro dia postei um texto sobre o aumento da imbecilidade em tempos de redes sociais. Eu disse no post que os imbecis não passarão (para conferir o texto, aqui vai o link goo.gl/kUWsWt). Continuo achando (ou continuo tendo esperança) que os imbecis não passarão. Contudo, não sei se nossa geração verá isso. Acho que não. A extinção da imbecilidade é um projeto humano de longo prazo, talvez pra dez gerações a diante. Sou esperançoso.

Nelson Rodrigues, numa perspectiva bem pessimista, prenunciou exatamente o contrário: a idiotice vai aumentar; ela se tornará a norma, a regra, a convecção. Ele diz taxativamente: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos".


João Montanaro, para a Folha de S. Paulo (goo.gl/LVCEGE)


Vendo a propagação de fake news no Facebook, Twitter e Whatsapp, fico muito tentado a mudar de opinião e seguir a visão pessimista de Nelson Rodrigues. É impressionante a legião de idiotas que estão compartilhando tresloucadamente fake news nas redes sociais. As pessoas estão perdendo (ou nunca tiveram mesmo) o senso elementar de plausibilidade, de verossimilhança, de verdade.

A impressão que dá é que as pessoas estão operando com o cérebro desligado. Não há um mínimo de reflexão. Em alguns casos, a gente fica indagando: “Será que o/a fulano/a de tal leu mesmo esse texto? Será que ele/ela realmente acredita nisso?”.

Nesses tempos de polarização extrema, me parece que as pessoas, ao se depararem com um texto que tenha qualquer teor político, ativam um único de critério interpretação: “Esse texto reflete, reforça e propaga a minha opinião?”. Se sim, é obviamente verdadeiro; se não, é obviamente falso. Quando uma pessoa nota que um determinado texto defende sua opinião, ela imediatamente decreta que o tal texto expressa, obviamente, uma verdade importante e precisa ser compartilhado. Por outro lado, quando nota que o texto defende uma opinião contrária, ela agora decreta que o tal texto é falso, um discurso de gente extremista.

“Os imbecis perderam a modéstia”, disse também Nelson Rodrigues. A gente tem notado que os idiotas estão cada vez mais orgulhosos de sua condição. Eles sentem um prazer enorme em compartilhar os textos que reforçam o pensamento de seu bando. Pouco importa se o texto mente, falseia, ofende. Isso não é critério de avaliação. O que importa mesmo é a celebração do ódio, o júbilo do bando diante do extermínio da alteridade e da diferença.

Continuo tendo esperança, mesmo com tanta idiotice por perto. Um dia o ser humano conseguirá vencer o ódio, a barbárie e a ignorância.


quarta-feira, 14 de março de 2018

Os imbecis não passarão


Os imbecis sempre existiram aos montes. Mas, atualmente, parece que eles se tornam onipresentes. Humberto Eco tinha razão. As redes sociais trouxeram os imbecis para a praça pública e lhes deram um megafone estridente. Agora eles podem se juntar, formar manadas e se reforçarem mutuamente.

Parece que, algum tempo atrás, havia certo constrangimento em torno da estupidez. Ninguém era elogiado por ser imbecil. Compreensivelmente, os imbecis eram mais retraídos, silenciosos. Além disso, mesmo quando o imbecil era um falastrão, sua audiência era relativamente restrita. Agora, eles não têm mais receio de mostrar suas entranhas e têm uma audiência inimaginável.

Contudo, não custa lembrar, os tempos são outros.

É verdade que os diversos casos de desgraça na vida profissional, decorrentes de pronunciamentos abjetos nas redes sociais (envolvendo diversas formas de preconceitos), ainda são insuficientes para mostrar aos imbecis que o mundo de hoje é diferente. Eles (com os seus milhares compartilhamentos e likes) continuam promovendo sessões públicas de elogio à estupidez. Mas, felizmente, há avanços civilizatórios que são incontornáveis, irrefreáveis. Certos discursos de ódio – relativos a gênero, etnia, religião etc. – não são mais tolerados.

Há algo que os imbecis, por serem imbecis, não conseguem perceber. A ampla visibilidade que conquistaram com as redes sociais são, a um só tempo, a sua glória e a sua desgraça. Enquanto se lambuzam extasiados em suas fezes verbais, os imbecis acabam mostrando quem são, como pensam e como vivem, facilitando enormemente o trabalho de denúncia. Ao se exporem freneticamente, acabam selando o próprio destino. Eles não passarão!

domingo, 8 de outubro de 2017

Cristianismo em crise: refletir e renunciar para seguir em frente


As religiões monoteístas tradicionais (entre elas, o cristianismo, obviamente), com suas reivindicações de exclusividade, parecem não mais se ajustar aos ideais de uma comunidade humana global, cada vez mais diversa, plural e coexistente. A ideia de um Deus único, administrado por uma instituição, parece não mais caber no nosso mundo.

Uma divindade que reivindica lealdade absoluta de seus seguidores e o engajamento na conversão de todos os outros humanos (custe o que custar) é, na melhor das interpretações, uma ideia anacrônica que precisa ser debatida cada vez mais. Na pior das interpretações, é uma ideia extremista que precisa ser responsavelmente combatida, pelo fato de perpetuar, na comunidade humana, o caos da intolerância, fazendo surgir inúmeras vítimas em todo mundo.

Em cada momento histórico, os humanos são desafiados a construir novas condições de existência, com vistas a garantir a continuidade da vida e da história humana. Como seres humanos, temos a responsabilidade de pensar no universo como a nossa casa e na história humana como nosso destino.

Nesse sentido, em cada geração, somos instados a refletir sobre três questões fundamentais: 
(a) Que casa (universo) haverá para quem virá depois de nós? 
(b) Que conceito de humano estamos lançando como base para quem virá depois de nós? 
(c) Em que medida estamos fracassando ou avançando em nossa responsabilidade de garantir condições para a continuidade da vida e do humano?

Todas as instituições humanas se constituem, de alguma forma, em agências de transmissão-transformação-produção de saberes. E, por isso mesmo, são todas responsáveis por produzir essas reflexões no interior de suas bases, de suas epistemologias e de suas práticas. Obviamente, as instituições especializadas em transmitir-transformar-produzir saberes (a escola e a universidade, por excelência) têm um papel mais acentuado nessa tarefa. Mas isso não quer dizer que as outras instituições estão isentas dessa responsabilidade.

Reflexões sobre a história e sobre o destino do humano devem estar nas bases dos saberes da religião, da família, da política etc. Se fizermos pouco caso dessa reflexão, certamente estaremos nos expondo ao risco do fracasso, da extinção. Sem reflexão não há futuro para o humano.

Em geral, todas as instituições se dizem preocupadas com o humano. Porém, essa preocupação só existe na prática se a questão humana mais fundamental, a vida-morte, for realmente pensada nos termos da dignidade humana. Nenhuma religião que interprete a vida-morte a partir de ideias-valores metafísicos externos ao humano, distante do sofrimento concreto de cada dia, estará cumprindo bem o seu papel.

Para cumprir bem esse papel, é necessária a afirmação da dignidade humana a partir de si mesma. Isso significa dizer que, para realmente contribuir com o destino humano, as instituições religiosas devem colocar o humano como o valor supremo, mesmo que isso custe abrir mão de algum dogma. Por exemplo, não se pode mais admitir um dogma que atribui a uma divindade a prerrogativa de deliberar arbitrariamente a vida-morte de um ser. Uma divindade, cuja ética independe de valores humanos supremos (direito à vida, por exemplo), não pode continuar sendo uma divindade.

Como dito, todas as religiões têm a responsabilidade de produzir uma reflexão sobre o humano. Contudo, como estamos imersos numa sociedade de base judaico-cristã, cumpre começarmos essa reflexão a partir dos nossos próprios domínios. Entre os cristãos, é muito comum o pensamento de que a intolerância religiosa é um problema de outras religiões. Sabemos que não é assim. O cristianismo, em sua base teológica tradicional, é exclusivista e conversionista; portanto, é tão intolerante quanto outras religiões monoteístas.  

Impõe-se ao cristianismo a necessidade de refletir sobre suas bases teológicas e construir novos modos de ver a divindade, caso queira seguir em frente. Do contrário, se colocará na contramão da história humana, sendo, em breve, superado. Continuar afirmando certos dogmas, à revelia das condições históricas em que vivemos, é, no mínimo, um erro estratégico, em termos de busca pela sobrevivência.

É verdade que vivemos atualmente uma forte onda de reacionarismo. Estamos vendo uma intensa exposição de algumas visões de mundo que já pareciam superadas. Imaginávamos que a humanidade já tinha alcançado uma nova fase civilizatória, em termos, por exemplo, de algumas questões raciais e de gênero.

Entretanto, como sabemos, a história se transforma em saltos, tendo um ponto de intersecção bastante tenso entre uma fase e outra. É esperado que as reações venham à tona nesses momentos de transição. Mas uma reação jamais tem o poder de se estabelecer como paradigma. Aliás, a reação existe exatamente porque o paradigma está mudando. A reação é apenas o capítulo final de uma fase, o ponto de transição para uma mudança definitiva.

Portanto, cabe ao cristianismo fazer uma grande reflexão sobre sua concepção de divindade, entre outros dogmas. Se quiser dar o salto da mudança e seguir junto com a história, terá que certamente renunciar certos dogmas e certas práticas.

sábado, 1 de julho de 2017

A sinuca da Globo


A Globo está visivelmente numa sinuca. Quer a qualquer custo a queda de Temer, mas não consegue fazer isso sem o engajamento de sua trupe verde-amarela nas ruas. E, para insuflar a multidão verde-amarela, a Globo precisaria construir uma narrativa de ódio a Temer e ao PMDB tão contundente como fez com o PT, Dilma e Lula.

Sem transe coletivo de ódio, não há amarelinhos na rua!

A sinuca mora exatamente neste ponto: a Globo não consegue, não pode e não quer construir esse transe de ódio. Ela está no limite. Pode até colocar jornalistas 24 horas por dia vociferando a corrupção de Temer (como de fato está fazendo), mas jamais conseguirá arrebatar o coração dos verdes-amarelos como antes.

Pelo menos duas razões impedem a Globo de fazer a classe média embarcar num transe de ódio outra vez.

Em primeiro lugar, a Globo tem um senso de autopreservação bastante arguto. Um ódio irracional a Temer implicaria um ódio igualmente irracional à Globo. E ela não pode promover mais o ódio contra si mesma. Já se encontra numa situação bastante difícil junto à opinião pública.

Temer e Globo são a mesma coisa, têm o mesmo projeto de nação, estão obcecados pelo mesmo futuro (passado?). Portanto, para pedir a cabeça de Temer num transe coletivo de ódio, a Globo teria que oferecer a própria carne como pagamento.

É verdade que a Globo perdeu, nos últimos 15 anos, parte dos poderes que acumulou durante a ditadura. Mas também é verdade que ela ainda tem cartas para decidir alguma coisa no cenário político.

Se um dia os verde-amarelos odiarem Temer e o PMDB a ponto de lotar a Paulista, com certeza, odiarão a Globo com a mesma intensidade. Por isso, a Globo simplesmente não pode fazer nada além do que está fazendo. E o que a Globo está fazendo é pouco para transformar indignação em transe de ódio, como fez nos últimos anos contra o PT.

Em segundo lugar, a Globo não pode construir um novo transe de ódio porque para isso precisaria tocar em algum recalque ou ressentimento da classe média que, de algum modo, estivesse relacionado a Temer e ao PMDB. Precisaria encontrar alguns objetos que fossem originários de ressentimentos reprimidos da classe média e convertê-los em ódio palatável. Também precisaria encontrar um novo objeto que fosse depositário desses ressentimentos. O tema corrupção, sozinho, não é suficiente para isso.

No caso do ódio ao PT, a Dilma e a Lula, existiam objetos de recalque de sobra a explorar. Havia uma série de ódios reprimidos que a classe média poderia depositar no PT sob o rótulo de combate à corrupção: ódio às minorias, ódio aos pobres, ódio à democratização do consumo etc. A fúria da classe média contra a chegada da classe C aos shoppings, aeroportos e universidades parece ser um exemplo emblemático dessa questão.

Num cenário de tanto ódio recalcado, bastava colar no governo petista – o agente responsável por promover grupos e ações fortemente odiados – a pecha de fundador e institucionalizador da corrupção. Isso não quer dizer, de modo algum, que o governo do PT não praticou corrupção. Praticou sim, e muita! E com a mesma intensidade que todos os governos anteriores.

A questão chave do ódio ao PT, então, não foi a corrupção. Foi o ódio reprimido. Sob o rótulo da corrupção, as mídias tradicionais lideradas pela Globo conseguiram – como em outros momentos da história – canalizar (e explorar) o ódio recalcado da classe média de forma avassaladora.  E o resultado disso tudo a gente já sabe...

Portanto, parece claro a razão por que a corrupção do PMDB e de Temer não causam tanta revolta na classe média: não há um objeto de ódio fundador, originário que possa ser disfarçado de ódio à corrupção.

É óbvio que a classe média não odeia a corrupção. Odeia outras coisas, mas não a corrupção. E o motivo é simples. A própria classe média está envolvida nos mesmos processos de corrupção que os políticos.

Já está virando senso comum a explicação de que a corrupção na política não é uma prática isolada, que ocorre à parte dos demais processos sociais e culturais. A corrupção na política é coexistente com a corrupção na vida cotidiana e familiar, nas práticas econômicas, nas práticas religiosas etc. etc. Aliás, a corrupção na política é, na maioria dos casos, exatamente uma consequência das outras corrupções.

Portanto, o suposto ódio à corrupção, sozinho, nunca será capaz de derrubar Temer. A Globo está fazendo barulho à toa.

A cobertura dada às gravações de Joesley e à delação da JBS indica claramente que a Globo fez acordo com algum interlocutor para derrubar Temer. E, pelo andar da carruagem, não conseguirá cumprir sua parte no acordo.

Depois de mais de um mês de ininterrupta balburdia contra Temer em todas as mídias do grupo (O Globo, TV Globo, Globo News e Revista Época), o presidente impostor, a cada dia, dá mais prova de que seu staff (“grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”) tem muito mais poder do que se imaginava. Temer pode até não conseguir governar mais, mas só sai do governo se quiser.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Os perigos de um Estado policialesco comandado por um judiciário sem noção


A divulgação da conversa de Reinaldo de Azevedo com Andrea Neves (http://bzfd.it/2rRx7IP), por parte da PRG, é um flagrante abuso de poder. Perece retaliação.

Eu sei... Reinaldo Azevedo é um jornalista controverso, oportunista; uma pessoa que não inspira qualquer empatia. Inclusive, fez amplo uso político do grampo irregular de Lula e Dilma realizado por Moro em março de 2016.  (http://bit.ly/2qTZzui; http://abr.ai/2reQdwi).

Portanto, segundo a maioria das pessoas que conheço, Azevedo não merece uma linha em sua defesa, em matéria de grampo abusivo. Mas eu não embarco nessa. Sua privacidade pessoal e sua atividade jornalística não podem, em hipótese alguma, ser violadas.

Se não há evidência de crime no diálogo com Andrea Neves, por que interessa à PRG divulgar o áudio e anexá-lo ao inquérito? A situação parece retaliação pelas críticas que Azevedo vem fazendo à operação Lava Jato.

Não custa lembrar que Azevedo se transformou, recentemente, num crítico feroz  do juiz Sérgio Moro (http://abr.ai/2pH7PQ3). A virada aconteceu especialmente depois que os queridinhos da direita (Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra) começaram a cair na vala que cavaram para enterrar os petistas.

É uma coisa óbvia, mas precisamos repetir: os direitos individuais precisam ser garantidos independentemente das ideias que as pessoas defendem.

Não gosto de Azevedo, não compartilho suas ideias, mas estou pronto a defender seu direito. A violação de sua privacidade afeta a mim, a você, a todos nós. Estamos começando a perceber os perigos de viver num Estado policialesco, comandado por um judiciário que perdeu a noção de seu papel institucional.

Esse judiciário - viciado em poder e em espetáculo midiático - está assumindo vorazmente prerrogativas que não são suas. E isso é absurdamente perigoso.

Se queremos uma reforma social ampla, não é no judiciário que devemos depositar nossas esperanças e ações. O judiciário não é um poder de gestão e planejamento social. É uma instituição com outro papel sociopolítico.

A instituição responsável por conduzir os rumos de uma sociedade é a política, não o judiciário. Se a política está sendo incapaz de fazer as reformas sociais que desejamos, o que devemos fazer é reformar a própria política, em vez de dar carta branca a procuradores, promotores e juízes.

Devemos nos organizar socialmente e ocupar os espaços da política para de lá procedermos às reformas que queremos. Reformemos a política para, então, reformarmos nossa sociedade!

Não caiamos no engodo de uma proposta de reforma social via judiciário. Isso não vai dar certo! Não transformemos procuradores, promotores e juízes em salvadores da pátria. Eles não são! Se algum deles se vê assim, está errado. A salvação nacional só é possível via ação política.

quarta-feira, 22 de março de 2017

O lobo e a ovelha


Certo dia um lobo, depois de muitas investidas, conseguiu capturar uma ovelha. Com sua presa cravada nos dentes, seguiu alegre sua caminhada, feliz com o tanto de comida que tinha acabado de arranjar. Ao passar por uma linda pastagem, depois de uma longa jornada, o lobo propôs à ovelha:

_ Acho que nós dois podemos nos dar bem. Eu estou com fome, e você também está! Vamos fazer assim: eu deixo você encher a barriga nesse lindo pasto hoje, e logo depois faço a minha refeição. Vou comer apenas uma de suas quatro pernas.

A ovelha, sem ter o que fazer, concordou. Pastou até se fartar, sob a vigilância cuidadosa do lobo. Quando já estava visivelmente saciada, o lobo se aproximou e disse:

_ Agora é a minha vez de comer.

Ele avançou sobre a ovelha e lhe arrancou um quarto dianteiro. Comeu com gosto. Ficou satisfeito. Depois estarem saciados, lobo e ovelha adormeceram.

No dia seguinte, o lobo voltou a falar para a ovelha:

_ Pode pastar à vontade. À noite faço a minha refeição.

A troca de favor entre o lobo e a ovelha se seguiu por alguns dias, até que, no nono dia, o lobo devorou a cabeça da ovelha. Enquanto se preparava para dormir, o lobo se encheu de orgulho de sua generosidade para com a ovelha. Sentiu-se profundamente humanizado por permitir que a ovelha pastasse por todos aqueles dias. Pensou no quanto os outros lobos, que devoram as ovelhas imediatamente após capturá-las, são maus. Em êxtase, por sua profunda bondade, logo adormeceu.

Na manhã seguinte, sentiu que deveria ensinar os outros lobos a serem mais gentis com as ovelhas. Sentiu-se vocacionado a salvar os outros lobos da barbárie. Passou, então, a mostrar para os seus amigos que as ovelhas, antes de serem devoradas por completo, têm direito à alimentação.

domingo, 19 de março de 2017

O sofrimento de pensar


"O ainda não pensado faz-nos mal, pois sentimo-nos bem entre o já pensado".
Jean-François Lyotard [1]


Estamos cercados por uma infinidade de tecnologias que tornam nossa vida cada vez mais confortável. Diariamente aparecem novos dispositivos tecnológicos com o objetivo de dispensar o nosso corpo de realizar alguma atividade ou de, pelo menos, reduzir significativamente o esforço dos nossos músculos.

Até pouco tempo atrás tínhamos que girar uma manivela para fechar os vidros dos nossos carros; agora fazemos isso apenas pressionando um botão. Em breve teremos a opção de fazer isso com um simples comando de voz ou com algum outro comando sonoro, eliminando quase por completo o esforço físico.

A expansão das tecnologias não está atuando apenas no domínio das ações corporais mais concretas. Estamos vendo o surgimento de inúmeros dispositivos que visam também reduzir ou eliminar o esforço da mente. Temos ouvido, com muita frequência, pessoas se queixando de que até algum tempo atrás tinham uma memória melhor. Eram capazes de memorizar uma série de números relacionados a documentos pessoais, telefone, endereços etc. e agora não conseguem mais.

O que aconteceu? Com os dispositivos de memória eletrônica portáteis, passamos a não ter mais necessidade de estimular a memória a registrar certas informações. Sem estímulo (ou sem necessidade) a memória foi ficando preguiçosa. O acesso constante e ilimitado à informação em dispositivos digitais passa à nossa memória o recado de que é um desperdício de esforço memorizar. Por exemplo, não precisamos nos esforçar muito para reter na memória um endereço. Basta dizer ao smartphone Android: “Ok Google... endereço do cinema tal”. Imediatamente teremos acesso ao endereço e ao trajeto.

O exemplo dado acima é, obviamente, bastante prosaico; uma simplificação das coisas. De fato, a expansão das tecnologias digitais de informação e comunicação tem impactos muito mais complexos sobre nós. Elas estão associadas a um novo modo de (não)pensar, isto é, atuam, de forma bastante acentuada, na construção de novos modelos mentais, novas formas de cognição e novas configurações da memória.

Sabemos que a construção de novos conhecimentos implica, necessariamente, algum tipo de desequilíbrio, desconforto, sofrimento intelectual. O já conhecido é o terreno da segurança, do equilíbrio. A familiaridade de um conhecimento nos traz a sensação de estar em casa. Sentimos uma espécie de aconchego cognitivo quando tudo à nossa volta já foi visto e pensado antes.

Já o saber ainda desconhecido gera insegurança, desconforto, desequilíbrio. E, para ser aprendido, requer muito esforço. Em última instância, causa sofrimento. Precisamos primeiramente, superar a desconfiança de falsidade em relação a tudo que é novo. Para se preservar, o que já é conhecido sempre nos diz que o desconhecido tende a ser falso, e até danoso. Precisamos, num primeiro momento, reunir dados para atestar que o conhecimento novo não é necessariamente falso e nem potencialmente prejudicial. Depois de realizada essa primeira tarefa, precisamos exercer um enorme esforço intelectual para moldar um novo esquema de cognição, um novo jeito de pensar.

Embora nem sempre tenhamos consciência disso, o fato é que pensar o novo é, quase sempre, um processo doloroso. Aprender algo novo dói.

Num contexto histórico em que a circulação de informação é precária, os novos conhecimentos tendem a ser mais escassos e valiosos. Em situações assim, tendemos a impor à nossa mente, apesar da dor, a obrigação de adquirir todos os novos conhecimentos aos quais podemos ter acesso. Isso significa que, quando estamos diante de um conhecimento escasso – por conseguinte bastante valioso –, não poupamos esforços para adquiri-lo.

Pensemos agora num contexto inverso, em que as informações circulam abundantemente, com pouquíssimas restrições de acesso. Nesse contexto, os novos conhecimentos, dada a abundância de acesso, tendem a ser menos valiosos. O esforço para adquiri-los passa a ser desproporcional em relação ao valor. Dito de modo mais simples: não vale a pena sofrer tanto para aprender algo que está disponível na tela de qualquer smartphone.

O primeiro contexto descrito acima retrata a cultura do papel, do impresso, do analógico. As informações circulavam de forma limitada. Estavam atreladas à fixidez do tempo e do espaço. O segundo contexto retrata a atual cultura da tela, do virtual, do digital. As informações são onipresentes. Estão ao alcance de todos, em quaisquer tempos e espaços.

Vivemos, portanto, num contexto em que os dispositivos digitais portáteis nos fornecem, conforme as necessidades de momento, o acesso a qualquer tipo de saber.

Uma questão importante a ser assinalada é que nesse cenário, o conhecimento novo é tratado, dado a ampla possibilidade de acesso, como conhecimento velho. Se está disponível a todos, então não é novo. Temos aqui uma situação curiosa. O acesso ao conhecimento novo passa a assumir o lugar da aquisição. Ou seja, num cenário de ampla circulação de informação, não precisamos mais aprender; precisamos apenas ter possibilidade de acesso.

Como se nota, a onipresença das informações está afetando drasticamente o nosso modo de lidar com o pensamento novo. Não temos mais necessidade de pensar o que ainda não foi pensado. Não precisamos mais nos submeter ao sofrimento implicado no ato de conhecer. Se eventualmente tivermos necessidade de algo novo, podemos acessar os nossos smartphones e pedir que eles pensem por nós, que falem por nós. Enfim, estamos livres da dor de pensar, do sofrimento de aprender. Como diz Lyotard, em tom provocador, “o sofrimento não tem boa reputação na megalópole tecnologista. Sobretudo o sofrimento de pensar” [2].

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[1] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.
[2] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Fazer amor com as palavras


Sou aficionado pelas palavras. Para mim, elas encerram toda a beleza do universo. Elas são a memória do mundo; são responsáveis por nos fazer humanos; são a nossa matéria estética mais formidável.

As palavras me interessam não apenas porque são matéria da poesia. Elas também me interessam porque são objetos da vida cotidiana, meios que usamos para significar e para representar o mundo. Me interesso em observar o modo como elas constroem o nosso dia a dia, a nossa política, o nosso mundo acadêmico etc.

Gasto grande parte do meu tempo estudando o modo como as palavras se organizam para formar textos, especialmente os textos escritos. E, dentro do universo da escrita, há uma questão que me traz um fascínio particular. Trata-se do estilo textual.

Adoro estudar os estilos de escrita; adoro ler textos de qualidade. Me esforço ao extremo para produzir textos que ofereçam ao leitor uma experiência de prazer com as palavras. Sei que esse é um objetivo difícil de ser alcançado. Mas já me dou por satisfeito quando o leitor chega às últimas linhas de um artigo sem se aborrecer com a minha escrita.

Neste texto, quero fazer um breve comentário sobre estilo textual na escrita acadêmica.

Parto do pressuposto de que a preocupação com o estilo de um texto deve vir depois da preocupação com o conteúdo. Só textos de qualidade (com conteúdo relevante) podem ser bem ou mal escritos. Textos fracos são necessariamente mal escritos. Não há estilo que compense a falta de ideias.

No ambiente acadêmico, encontramos uma infinidade de textos de qualidade (com conteúdo relevante) mal escritos. Há textos acadêmicos que leio porque preciso. O estilo me aborrece, mas acabo tendo que ler até o final porque o conteúdo é importante para mim.

Sei que muitas pessoas não dão a mínima importância para a forma do texto. Leem o que têm que ler e pronto; escrevem o que têm que escrever e pronto. Eu não sou assim. Encaro a escrita e a leitura como atividades funcionais e estéticas. Um texto pode ser tanto um objeto funcional (que atende a uma necessidade) quanto um objeto estético (que dá prazer).

Ao ler um texto acadêmico, busco suprir a necessidade de um conhecimento específico. Mas busco também ter uma experiência de prazer com as palavras. Se o texto, mesmo sendo útil, não me dá prazer, chego ao fim da leitura com certo aborrecimento e tédio.

Recentemente me deparei com um livro que pode ser qualificado como um texto meramente funcional. Ironicamente o livro trata do ensino de escrita. Durante a leitura, não pude evitar alguns momentos de tédio e aborrecimento. As palavras são simplesmente jogadas no texto:

Cabe também aqui citar Ilari, que em seu texto “Algumas opções do professor de português no segundo grau”, tratando da questão de que, “frequentemente, as perplexidades do professor tomam a forma de alternativas sobre o que ensinar”, por exemplo, língua escrita ou língua falada (entre outras coisas, como língua ou literatura, gramática ou prática de expressão, etc.), lembra que, na realidade, o aluno não domina completamente a língua falada ao ingressar no segundo grau. Em outras palavras, o problema de se ensinar a língua escrita é muito mais complicado do que simplesmente passar para os alunos técnicas que lhes permitam registrar por escrito as mesmas produções verbais de que se mostram capazes de falar[1].

Nesse trecho, as palavras são usadas com utilitarismo e frieza. São tratadas como meros objetos que dizem alguma coisa. Não há afeto, não há carinho.

O interessante é que o/a próprio/a autor/a tem certa consciência de que as palavras estão sendo fustigadas. Depois de amontoar 74 palavras num período sofrível, o/a autor/a começa o período seguinte com a fórmula “Em outras palavras”. Essa fórmula denota um mea-culpa. É como se o/a autor/a estivesse dizendo: “O período anterior está bastante hostil, mas posso torná-lo mais amigável”.

“Ler é fazer amor com as palavras”, nos ensina Rubem Alves. Mas só podemos fazer amor com as palavras enquanto lemos, se o texto tiver sido gerado num grande encontro de amor. É preciso que o escritor faça amor com as palavras antes do leitor. Quando o texto é produzido sem afeto, o leitor é impedido de ter uma experiência de prazer com as palavras.

@Limasostenes 
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[1] Por uma questão de ética e elegância, resolvi omitir a referência do texto.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Outros Eus continuam nascendo da carne




Hoje perdemos Ferreira Gullar.

Ele era o nosso último grande poeta vivo. Para mim, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto são, nesta ordem, os maiores poetas brasileiros.

Há, entre os poemas de Gullar, um que me toca mais profundamente. É “O Duplo”.

O DUPLO
Foi-se formando
a meu lado
um outro

que é mais Gullar do que eu
que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto
pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

[Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 38]

Esse poema desnuda a relação tensa do Eu com a memória, com a história e com o corpo. O Eu se mantém, mas não pode se manter idêntico a si mesmo. Há que se dividir.

A história, a memória e o corpo, inevitavelmente, clivam e multiplicam o Eu. Em desespero, o Eu se põe a buscar no corpo fragmentos remanescentes de si, que lhe garantam a autenticidade e a unidade. Aos poucos, o Eu percebe, em profunda angústia, que até mesmo o corpo de lhe trai. Outros Eus continuam nascendo da carne.

Em “O duplo”, vemos o Eu Gullar espreitando, de forma enciumada e ressentida, seu duplo que segue livremente a vida que a história lhe concede.

Hoje o Gullar que espreita se foi. Mas não ficamos sem ninguém.

Livre da morte e da vigilância, o outro Gullar se apresenta a nós sem reservas. Nos dedica, em poemas, uma vida e uma memória imortal. Suas palavras nos oferecem, indistintamente, a companhia arrebatadora de Gullar e de seu duplo.