sábado, 1 de julho de 2017

A sinuca da Globo


A Globo está visivelmente numa sinuca. Quer a qualquer custo a queda de Temer, mas não consegue fazer isso sem o engajamento de sua trupe verde-amarela nas ruas. E, para insuflar a multidão verde-amarela, a Globo precisaria construir uma narrativa de ódio a Temer e ao PMDB tão contundente como fez com o PT, Dilma e Lula.

Sem transe coletivo de ódio, não há amarelinhos na rua!

A sinuca mora exatamente neste ponto: a Globo não consegue, não pode e não quer construir esse transe de ódio. Ela está no limite. Pode até colocar jornalistas 24 horas por dia vociferando a corrupção de Temer (como de fato está fazendo), mas jamais conseguirá arrebatar o coração dos verdes-amarelos como antes.

Pelo menos duas razões impedem a Globo de fazer a classe média embarcar num transe de ódio outra vez.

Em primeiro lugar, a Globo tem um senso de autopreservação bastante arguto. Um ódio irracional a Temer implicaria um ódio igualmente irracional à Globo. E ela não pode promover mais o ódio contra si mesma. Já se encontra numa situação bastante difícil junto à opinião pública.

Temer e Globo são a mesma coisa, têm o mesmo projeto de nação, estão obcecados pelo mesmo futuro (passado?). Portanto, para pedir a cabeça de Temer num transe coletivo de ódio, a Globo teria que oferecer a própria carne como pagamento.

É verdade que a Globo perdeu, nos últimos 15 anos, parte dos poderes que acumulou durante a ditadura. Mas também é verdade que ela ainda tem cartas para decidir alguma coisa no cenário político.

Se um dia os verde-amarelos odiarem Temer e o PMDB a ponto de lotar a Paulista, com certeza, odiarão a Globo com a mesma intensidade. Por isso, a Globo simplesmente não pode fazer nada além do que está fazendo. E o que a Globo está fazendo é pouco para transformar indignação em transe de ódio, como fez nos últimos anos contra o PT.

Em segundo lugar, a Globo não pode construir um novo transe de ódio porque para isso precisaria tocar em algum recalque ou ressentimento da classe média que, de algum modo, estivesse relacionado a Temer e ao PMDB. Precisaria encontrar alguns objetos que fossem originários de ressentimentos reprimidos da classe média e convertê-los em ódio palatável. Também precisaria encontrar um novo objeto que fosse depositário desses ressentimentos. O tema corrupção, sozinho, não é suficiente para isso.

No caso do ódio ao PT, a Dilma e a Lula, existiam objetos de recalque de sobra a explorar. Havia uma série de ódios reprimidos que a classe média poderia depositar no PT sob o rótulo de combate à corrupção: ódio às minorias, ódio aos pobres, ódio à democratização do consumo etc. A fúria da classe média contra a chegada da classe C aos shoppings, aeroportos e universidades parece ser um exemplo emblemático dessa questão.

Num cenário de tanto ódio recalcado, bastava colar no governo petista – o agente responsável por promover grupos e ações fortemente odiados – a pecha de fundador e institucionalizador da corrupção. Isso não quer dizer, de modo algum, que o governo do PT não praticou corrupção. Praticou sim, e muita! E com a mesma intensidade que todos os governos anteriores.

A questão chave do ódio ao PT, então, não foi a corrupção. Foi o ódio reprimido. Sob o rótulo da corrupção, as mídias tradicionais lideradas pela Globo conseguiram – como em outros momentos da história – canalizar (e explorar) o ódio recalcado da classe média de forma avassaladora.  E o resultado disso tudo a gente já sabe...

Portanto, parece claro a razão por que a corrupção do PMDB e de Temer não causam tanta revolta na classe média: não há um objeto de ódio fundador, originário que possa ser disfarçado de ódio à corrupção.

É óbvio que a classe média não odeia a corrupção. Odeia outras coisas, mas não a corrupção. E o motivo é simples. A própria classe média está envolvida nos mesmos processos de corrupção que os políticos.

Já está virando senso comum a explicação de que a corrupção na política não é uma prática isolada, que ocorre à parte dos demais processos sociais e culturais. A corrupção na política é coexistente com a corrupção na vida cotidiana e familiar, nas práticas econômicas, nas práticas religiosas etc. etc. Aliás, a corrupção na política é, na maioria dos casos, exatamente uma consequência das outras corrupções.

Portanto, o suposto ódio à corrupção, sozinho, nunca será capaz de derrubar Temer. A Globo está fazendo barulho à toa.

A cobertura dada às gravações de Joesley e à delação da JBS indica claramente que a Globo fez acordo com algum interlocutor para derrubar Temer. E, pelo andar da carruagem, não conseguirá cumprir sua parte no acordo.

Depois de mais de um mês de ininterrupta balburdia contra Temer em todas as mídias do grupo (O Globo, TV Globo, Globo News e Revista Época), o presidente impostor, a cada dia, dá mais prova de que seu staff (“grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”) tem muito mais poder do que se imaginava. Temer pode até não conseguir governar mais, mas só sai do governo se quiser.

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