quarta-feira, 22 de março de 2017

O lobo e a ovelha


Certo dia um lobo, depois de muitas investidas, conseguiu capturar uma ovelha. Com sua presa cravada nos dentes, seguiu alegre sua caminhada, feliz com o tanto de comida que tinha acabado de arranjar. Ao passar por uma linda pastagem, depois de uma longa jornada, o lobo propôs à ovelha:

_ Acho que nós dois podemos nos dar bem. Eu estou com fome, e você também está! Vamos fazer assim: eu deixo você encher a barriga nesse lindo pasto hoje, e logo depois faço a minha refeição. Vou comer apenas uma de suas quatro pernas.

A ovelha, sem ter o que fazer, concordou. Pastou até se fartar, sob a vigilância cuidadosa do lobo. Quando já estava visivelmente saciada, o lobo se aproximou e disse:

_ Agora é a minha vez de comer.

Ele avançou sobre a ovelha e lhe arrancou um quarto dianteiro. Comeu com gosto. Ficou satisfeito. Depois estarem saciados, lobo e ovelha adormeceram.

No dia seguinte, o lobo voltou a falar para a ovelha:

_ Pode pastar à vontade. À noite faço a minha refeição.

A troca de favor entre o lobo e a ovelha se seguiu por alguns dias, até que, no nono dia, o lobo devorou a cabeça da ovelha. Enquanto se preparava para dormir, o lobo se encheu de orgulho de sua generosidade para com a ovelha. Sentiu-se profundamente humanizado por permitir que a ovelha pastasse por todos aqueles dias. Pensou no quanto os outros lobos, que devoram as ovelhas imediatamente após capturá-las, são maus. Em êxtase, por sua profunda bondade, logo adormeceu.

Na manhã seguinte, sentiu que deveria ensinar os outros lobos a serem mais gentis com as ovelhas. Sentiu-se vocacionado a salvar os outros lobos da barbárie. Passou, então, a mostrar para os seus amigos que as ovelhas, antes de serem devoradas por completo, têm direito à alimentação.

domingo, 19 de março de 2017

O sofrimento de pensar


"O ainda não pensado faz-nos mal, pois sentimo-nos bem entre o já pensado".
Jean-François Lyotard [1]


Estamos cercados por uma infinidade de tecnologias que tornam nossa vida cada vez mais confortável. Diariamente aparecem novos dispositivos tecnológicos com o objetivo de dispensar o nosso corpo de realizar alguma atividade ou de, pelo menos, reduzir significativamente o esforço dos nossos músculos.

Até pouco tempo atrás tínhamos que girar uma manivela para fechar os vidros dos nossos carros; agora fazemos isso apenas pressionando um botão. Em breve teremos a opção de fazer isso com um simples comando de voz ou com algum outro comando sonoro, eliminando quase por completo o esforço físico.

A expansão das tecnologias não está atuando apenas no domínio das ações corporais mais concretas. Estamos vendo o surgimento de inúmeros dispositivos que visam também reduzir ou eliminar o esforço da mente. Temos ouvido, com muita frequência, pessoas se queixando de que até algum tempo atrás tinham uma memória melhor. Eram capazes de memorizar uma série de números relacionados a documentos pessoais, telefone, endereços etc. e agora não conseguem mais.

O que aconteceu? Com os dispositivos de memória eletrônica portáteis, passamos a não ter mais necessidade de estimular a memória a registrar certas informações. Sem estímulo (ou sem necessidade) a memória foi ficando preguiçosa. O acesso constante e ilimitado à informação em dispositivos digitais passa à nossa memória o recado de que é um desperdício de esforço memorizar. Por exemplo, não precisamos nos esforçar muito para reter na memória um endereço. Basta dizer ao smartphone Android: “Ok Google... endereço do cinema tal”. Imediatamente teremos acesso ao endereço e ao trajeto.

O exemplo dado acima é, obviamente, bastante prosaico; uma simplificação das coisas. De fato, a expansão das tecnologias digitais de informação e comunicação tem impactos muito mais complexos sobre nós. Elas estão associadas a um novo modo de (não)pensar, isto é, atuam, de forma bastante acentuada, na construção de novos modelos mentais, novas formas de cognição e novas configurações da memória.

Sabemos que a construção de novos conhecimentos implica, necessariamente, algum tipo de desequilíbrio, desconforto, sofrimento intelectual. O já conhecido é o terreno da segurança, do equilíbrio. A familiaridade de um conhecimento nos traz a sensação de estar em casa. Sentimos uma espécie de aconchego cognitivo quando tudo à nossa volta já foi visto e pensado antes.

Já o saber ainda desconhecido gera insegurança, desconforto, desequilíbrio. E, para ser aprendido, requer muito esforço. Em última instância, causa sofrimento. Precisamos primeiramente, superar a desconfiança de falsidade em relação a tudo que é novo. Para se preservar, o que já é conhecido sempre nos diz que o desconhecido tende a ser falso, e até danoso. Precisamos, num primeiro momento, reunir dados para atestar que o conhecimento novo não é necessariamente falso e nem potencialmente prejudicial. Depois de realizada essa primeira tarefa, precisamos exercer um enorme esforço intelectual para moldar um novo esquema de cognição, um novo jeito de pensar.

Embora nem sempre tenhamos consciência disso, o fato é que pensar o novo é, quase sempre, um processo doloroso. Aprender algo novo dói.

Num contexto histórico em que a circulação de informação é precária, os novos conhecimentos tendem a ser mais escassos e valiosos. Em situações assim, tendemos a impor à nossa mente, apesar da dor, a obrigação de adquirir todos os novos conhecimentos aos quais podemos ter acesso. Isso significa que, quando estamos diante de um conhecimento escasso – por conseguinte bastante valioso –, não poupamos esforços para adquiri-lo.

Pensemos agora num contexto inverso, em que as informações circulam abundantemente, com pouquíssimas restrições de acesso. Nesse contexto, os novos conhecimentos, dada a abundância de acesso, tendem a ser menos valiosos. O esforço para adquiri-los passa a ser desproporcional em relação ao valor. Dito de modo mais simples: não vale a pena sofrer tanto para aprender algo que está disponível na tela de qualquer smartphone.

O primeiro contexto descrito acima retrata a cultura do papel, do impresso, do analógico. As informações circulavam de forma limitada. Estavam atreladas à fixidez do tempo e do espaço. O segundo contexto retrata a atual cultura da tela, do virtual, do digital. As informações são onipresentes. Estão ao alcance de todos, em quaisquer tempos e espaços.

Vivemos, portanto, num contexto em que os dispositivos digitais portáteis nos fornecem, conforme as necessidades de momento, o acesso a qualquer tipo de saber.

Uma questão importante a ser assinalada é que nesse cenário, o conhecimento novo é tratado, dado a ampla possibilidade de acesso, como conhecimento velho. Se está disponível a todos, então não é novo. Temos aqui uma situação curiosa. O acesso ao conhecimento novo passa a assumir o lugar da aquisição. Ou seja, num cenário de ampla circulação de informação, não precisamos mais aprender; precisamos apenas ter possibilidade de acesso.

Como se nota, a onipresença das informações está afetando drasticamente o nosso modo de lidar com o pensamento novo. Não temos mais necessidade de pensar o que ainda não foi pensado. Não precisamos mais nos submeter ao sofrimento implicado no ato de conhecer. Se eventualmente tivermos necessidade de algo novo, podemos acessar os nossos smartphones e pedir que eles pensem por nós, que falem por nós. Enfim, estamos livres da dor de pensar, do sofrimento de aprender. Como diz Lyotard, em tom provocador, “o sofrimento não tem boa reputação na megalópole tecnologista. Sobretudo o sofrimento de pensar” [2].

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[1] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.
[2] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.