domingo, 8 de outubro de 2017

Cristianismo em crise: refletir e renunciar para seguir em frente


As religiões monoteístas tradicionais (entre elas, o cristianismo, obviamente), com suas reivindicações de exclusividade, parecem não mais se ajustar aos ideais de uma comunidade humana global, cada vez mais diversa, plural e coexistente. A ideia de um Deus único, administrado por uma instituição, parece não mais caber no nosso mundo.

Uma divindade que reivindica lealdade absoluta de seus seguidores e o engajamento na conversão de todos os outros humanos (custe o que custar) é, na melhor das interpretações, uma ideia anacrônica que precisa ser debatida cada vez mais. Na pior das interpretações, é uma ideia extremista que precisa ser responsavelmente combatida, pelo fato de perpetuar, na comunidade humana, o caos da intolerância, fazendo surgir inúmeras vítimas em todo mundo.

Em cada momento histórico, os humanos são desafiados a construir novas condições de existência, com vistas a garantir a continuidade da vida e da história humana. Como seres humanos, temos a responsabilidade de pensar no universo como a nossa casa e na história humana como nosso destino.

Nesse sentido, em cada geração, somos instados a refletir sobre três questões fundamentais: 
(a) Que casa (universo) haverá para quem virá depois de nós? 
(b) Que conceito de humano estamos lançando como base para quem virá depois de nós? 
(c) Em que medida estamos fracassando ou avançando em nossa responsabilidade de garantir condições para a continuidade da vida e do humano?

Todas as instituições humanas se constituem, de alguma forma, em agências de transmissão-transformação-produção de saberes. E, por isso mesmo, são todas responsáveis por produzir essas reflexões no interior de suas bases, de suas epistemologias e de suas práticas. Obviamente, as instituições especializadas em transmitir-transformar-produzir saberes (a escola e a universidade, por excelência) têm um papel mais acentuado nessa tarefa. Mas isso não quer dizer que as outras instituições estão isentas dessa responsabilidade.

Reflexões sobre a história e sobre o destino do humano devem estar nas bases dos saberes da religião, da família, da política etc. Se fizermos pouco caso dessa reflexão, certamente estaremos nos expondo ao risco do fracasso, da extinção. Sem reflexão não há futuro para o humano.

Em geral, todas as instituições se dizem preocupadas com o humano. Porém, essa preocupação só existe na prática se a questão humana mais fundamental, a vida-morte, for realmente pensada nos termos da dignidade humana. Nenhuma religião que interprete a vida-morte a partir de ideias-valores metafísicos externos ao humano, distante do sofrimento concreto de cada dia, estará cumprindo bem o seu papel.

Para cumprir bem esse papel, é necessária a afirmação da dignidade humana a partir de si mesma. Isso significa dizer que, para realmente contribuir com o destino humano, as instituições religiosas devem colocar o humano como o valor supremo, mesmo que isso custe abrir mão de algum dogma. Por exemplo, não se pode mais admitir um dogma que atribui a uma divindade a prerrogativa de deliberar arbitrariamente a vida-morte de um ser. Uma divindade, cuja ética independe de valores humanos supremos (direito à vida, por exemplo), não pode continuar sendo uma divindade.

Como dito, todas as religiões têm a responsabilidade de produzir uma reflexão sobre o humano. Contudo, como estamos imersos numa sociedade de base judaico-cristã, cumpre começarmos essa reflexão a partir dos nossos próprios domínios. Entre os cristãos, é muito comum o pensamento de que a intolerância religiosa é um problema de outras religiões. Sabemos que não é assim. O cristianismo, em sua base teológica tradicional, é exclusivista e conversionista; portanto, é tão intolerante quanto outras religiões monoteístas.  

Impõe-se ao cristianismo a necessidade de refletir sobre suas bases teológicas e construir novos modos de ver a divindade, caso queira seguir em frente. Do contrário, se colocará na contramão da história humana, sendo, em breve, superado. Continuar afirmando certos dogmas, à revelia das condições históricas em que vivemos, é, no mínimo, um erro estratégico, em termos de busca pela sobrevivência.

É verdade que vivemos atualmente uma forte onda de reacionarismo. Estamos vendo uma intensa exposição de algumas visões de mundo que já pareciam superadas. Imaginávamos que a humanidade já tinha alcançado uma nova fase civilizatória, em termos, por exemplo, de algumas questões raciais e de gênero.

Entretanto, como sabemos, a história se transforma em saltos, tendo um ponto de intersecção bastante tenso entre uma fase e outra. É esperado que as reações venham à tona nesses momentos de transição. Mas uma reação jamais tem o poder de se estabelecer como paradigma. Aliás, a reação existe exatamente porque o paradigma está mudando. A reação é apenas o capítulo final de uma fase, o ponto de transição para uma mudança definitiva.

Portanto, cabe ao cristianismo fazer uma grande reflexão sobre sua concepção de divindade, entre outros dogmas. Se quiser dar o salto da mudança e seguir junto com a história, terá que certamente renunciar certos dogmas e certas práticas.

sábado, 1 de julho de 2017

A sinuca da Globo


A Globo está visivelmente numa sinuca. Quer a qualquer custo a queda de Temer, mas não consegue fazer isso sem o engajamento de sua trupe verde-amarela nas ruas. E, para insuflar a multidão verde-amarela, a Globo precisaria construir uma narrativa de ódio a Temer e ao PMDB tão contundente como fez com o PT, Dilma e Lula.

Sem transe coletivo de ódio, não há amarelinhos na rua!

A sinuca mora exatamente neste ponto: a Globo não consegue, não pode e não quer construir esse transe de ódio. Ela está no limite. Pode até colocar jornalistas 24 horas por dia vociferando a corrupção de Temer (como de fato está fazendo), mas jamais conseguirá arrebatar o coração dos verdes-amarelos como antes.

Pelo menos duas razões impedem a Globo de fazer a classe média embarcar num transe de ódio outra vez.

Em primeiro lugar, a Globo tem um senso de autopreservação bastante arguto. Um ódio irracional a Temer implicaria um ódio igualmente irracional à Globo. E ela não pode promover mais o ódio contra si mesma. Já se encontra numa situação bastante difícil junto à opinião pública.

Temer e Globo são a mesma coisa, têm o mesmo projeto de nação, estão obcecados pelo mesmo futuro (passado?). Portanto, para pedir a cabeça de Temer num transe coletivo de ódio, a Globo teria que oferecer a própria carne como pagamento.

É verdade que a Globo perdeu, nos últimos 15 anos, parte dos poderes que acumulou durante a ditadura. Mas também é verdade que ela ainda tem cartas para decidir alguma coisa no cenário político.

Se um dia os verde-amarelos odiarem Temer e o PMDB a ponto de lotar a Paulista, com certeza, odiarão a Globo com a mesma intensidade. Por isso, a Globo simplesmente não pode fazer nada além do que está fazendo. E o que a Globo está fazendo é pouco para transformar indignação em transe de ódio, como fez nos últimos anos contra o PT.

Em segundo lugar, a Globo não pode construir um novo transe de ódio porque para isso precisaria tocar em algum recalque ou ressentimento da classe média que, de algum modo, estivesse relacionado a Temer e ao PMDB. Precisaria encontrar alguns objetos que fossem originários de ressentimentos reprimidos da classe média e convertê-los em ódio palatável. Também precisaria encontrar um novo objeto que fosse depositário desses ressentimentos. O tema corrupção, sozinho, não é suficiente para isso.

No caso do ódio ao PT, a Dilma e a Lula, existiam objetos de recalque de sobra a explorar. Havia uma série de ódios reprimidos que a classe média poderia depositar no PT sob o rótulo de combate à corrupção: ódio às minorias, ódio aos pobres, ódio à democratização do consumo etc. A fúria da classe média contra a chegada da classe C aos shoppings, aeroportos e universidades parece ser um exemplo emblemático dessa questão.

Num cenário de tanto ódio recalcado, bastava colar no governo petista – o agente responsável por promover grupos e ações fortemente odiados – a pecha de fundador e institucionalizador da corrupção. Isso não quer dizer, de modo algum, que o governo do PT não praticou corrupção. Praticou sim, e muita! E com a mesma intensidade que todos os governos anteriores.

A questão chave do ódio ao PT, então, não foi a corrupção. Foi o ódio reprimido. Sob o rótulo da corrupção, as mídias tradicionais lideradas pela Globo conseguiram – como em outros momentos da história – canalizar (e explorar) o ódio recalcado da classe média de forma avassaladora.  E o resultado disso tudo a gente já sabe...

Portanto, parece claro a razão por que a corrupção do PMDB e de Temer não causam tanta revolta na classe média: não há um objeto de ódio fundador, originário que possa ser disfarçado de ódio à corrupção.

É óbvio que a classe média não odeia a corrupção. Odeia outras coisas, mas não a corrupção. E o motivo é simples. A própria classe média está envolvida nos mesmos processos de corrupção que os políticos.

Já está virando senso comum a explicação de que a corrupção na política não é uma prática isolada, que ocorre à parte dos demais processos sociais e culturais. A corrupção na política é coexistente com a corrupção na vida cotidiana e familiar, nas práticas econômicas, nas práticas religiosas etc. etc. Aliás, a corrupção na política é, na maioria dos casos, exatamente uma consequência das outras corrupções.

Portanto, o suposto ódio à corrupção, sozinho, nunca será capaz de derrubar Temer. A Globo está fazendo barulho à toa.

A cobertura dada às gravações de Joesley e à delação da JBS indica claramente que a Globo fez acordo com algum interlocutor para derrubar Temer. E, pelo andar da carruagem, não conseguirá cumprir sua parte no acordo.

Depois de mais de um mês de ininterrupta balburdia contra Temer em todas as mídias do grupo (O Globo, TV Globo, Globo News e Revista Época), o presidente impostor, a cada dia, dá mais prova de que seu staff (“grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”) tem muito mais poder do que se imaginava. Temer pode até não conseguir governar mais, mas só sai do governo se quiser.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Os perigos de um Estado policialesco comandado por um judiciário sem noção


A divulgação da conversa de Reinaldo de Azevedo com Andrea Neves (http://bzfd.it/2rRx7IP), por parte da PRG, é um flagrante abuso de poder. Perece retaliação.

Eu sei... Reinaldo Azevedo é um jornalista controverso, oportunista; uma pessoa que não inspira qualquer empatia. Inclusive, fez amplo uso político do grampo irregular de Lula e Dilma realizado por Moro em março de 2016.  (http://bit.ly/2qTZzui; http://abr.ai/2reQdwi).

Portanto, segundo a maioria das pessoas que conheço, Azevedo não merece uma linha em sua defesa, em matéria de grampo abusivo. Mas eu não embarco nessa. Sua privacidade pessoal e sua atividade jornalística não podem, em hipótese alguma, ser violadas.

Se não há evidência de crime no diálogo com Andrea Neves, por que interessa à PRG divulgar o áudio e anexá-lo ao inquérito? A situação parece retaliação pelas críticas que Azevedo vem fazendo à operação Lava Jato.

Não custa lembrar que Azevedo se transformou, recentemente, num crítico feroz  do juiz Sérgio Moro (http://abr.ai/2pH7PQ3). A virada aconteceu especialmente depois que os queridinhos da direita (Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra) começaram a cair na vala que cavaram para enterrar os petistas.

É uma coisa óbvia, mas precisamos repetir: os direitos individuais precisam ser garantidos independentemente das ideias que as pessoas defendem.

Não gosto de Azevedo, não compartilho suas ideias, mas estou pronto a defender seu direito. A violação de sua privacidade afeta a mim, a você, a todos nós. Estamos começando a perceber os perigos de viver num Estado policialesco, comandado por um judiciário que perdeu a noção de seu papel institucional.

Esse judiciário - viciado em poder e em espetáculo midiático - está assumindo vorazmente prerrogativas que não são suas. E isso é absurdamente perigoso.

Se queremos uma reforma social ampla, não é no judiciário que devemos depositar nossas esperanças e ações. O judiciário não é um poder de gestão e planejamento social. É uma instituição com outro papel sociopolítico.

A instituição responsável por conduzir os rumos de uma sociedade é a política, não o judiciário. Se a política está sendo incapaz de fazer as reformas sociais que desejamos, o que devemos fazer é reformar a própria política, em vez de dar carta branca a procuradores, promotores e juízes.

Devemos nos organizar socialmente e ocupar os espaços da política para de lá procedermos às reformas que queremos. Reformemos a política para, então, reformarmos nossa sociedade!

Não caiamos no engodo de uma proposta de reforma social via judiciário. Isso não vai dar certo! Não transformemos procuradores, promotores e juízes em salvadores da pátria. Eles não são! Se algum deles se vê assim, está errado. A salvação nacional só é possível via ação política.

quarta-feira, 22 de março de 2017

O lobo e a ovelha


Certo dia um lobo, depois de muitas investidas, conseguiu capturar uma ovelha. Com sua presa cravada nos dentes, seguiu alegre sua caminhada, feliz com o tanto de comida que tinha acabado de arranjar. Ao passar por uma linda pastagem, depois de uma longa jornada, o lobo propôs à ovelha:

_ Acho que nós dois podemos nos dar bem. Eu estou com fome, e você também está! Vamos fazer assim: eu deixo você encher a barriga nesse lindo pasto hoje, e logo depois faço a minha refeição. Vou comer apenas uma de suas quatro pernas.

A ovelha, sem ter o que fazer, concordou. Pastou até se fartar, sob a vigilância cuidadosa do lobo. Quando já estava visivelmente saciada, o lobo se aproximou e disse:

_ Agora é a minha vez de comer.

Ele avançou sobre a ovelha e lhe arrancou um quarto dianteiro. Comeu com gosto. Ficou satisfeito. Depois estarem saciados, lobo e ovelha adormeceram.

No dia seguinte, o lobo voltou a falar para a ovelha:

_ Pode pastar à vontade. À noite faço a minha refeição.

A troca de favor entre o lobo e a ovelha se seguiu por alguns dias, até que, no nono dia, o lobo devorou a cabeça da ovelha. Enquanto se preparava para dormir, o lobo se encheu de orgulho de sua generosidade para com a ovelha. Sentiu-se profundamente humanizado por permitir que a ovelha pastasse por todos aqueles dias. Pensou no quanto os outros lobos, que devoram as ovelhas imediatamente após capturá-las, são maus. Em êxtase, por sua profunda bondade, logo adormeceu.

Na manhã seguinte, sentiu que deveria ensinar os outros lobos a serem mais gentis com as ovelhas. Sentiu-se vocacionado a salvar os outros lobos da barbárie. Passou, então, a mostrar para os seus amigos que as ovelhas, antes de serem devoradas por completo, têm direito à alimentação.

domingo, 19 de março de 2017

O sofrimento de pensar


"O ainda não pensado faz-nos mal, pois sentimo-nos bem entre o já pensado".
Jean-François Lyotard [1]


Estamos cercados por uma infinidade de tecnologias que tornam nossa vida cada vez mais confortável. Diariamente aparecem novos dispositivos tecnológicos com o objetivo de dispensar o nosso corpo de realizar alguma atividade ou de, pelo menos, reduzir significativamente o esforço dos nossos músculos.

Até pouco tempo atrás tínhamos que girar uma manivela para fechar os vidros dos nossos carros; agora fazemos isso apenas pressionando um botão. Em breve teremos a opção de fazer isso com um simples comando de voz ou com algum outro comando sonoro, eliminando quase por completo o esforço físico.

A expansão das tecnologias não está atuando apenas no domínio das ações corporais mais concretas. Estamos vendo o surgimento de inúmeros dispositivos que visam também reduzir ou eliminar o esforço da mente. Temos ouvido, com muita frequência, pessoas se queixando de que até algum tempo atrás tinham uma memória melhor. Eram capazes de memorizar uma série de números relacionados a documentos pessoais, telefone, endereços etc. e agora não conseguem mais.

O que aconteceu? Com os dispositivos de memória eletrônica portáteis, passamos a não ter mais necessidade de estimular a memória a registrar certas informações. Sem estímulo (ou sem necessidade) a memória foi ficando preguiçosa. O acesso constante e ilimitado à informação em dispositivos digitais passa à nossa memória o recado de que é um desperdício de esforço memorizar. Por exemplo, não precisamos nos esforçar muito para reter na memória um endereço. Basta dizer ao smartphone Android: “Ok Google... endereço do cinema tal”. Imediatamente teremos acesso ao endereço e ao trajeto.

O exemplo dado acima é, obviamente, bastante prosaico; uma simplificação das coisas. De fato, a expansão das tecnologias digitais de informação e comunicação tem impactos muito mais complexos sobre nós. Elas estão associadas a um novo modo de (não)pensar, isto é, atuam, de forma bastante acentuada, na construção de novos modelos mentais, novas formas de cognição e novas configurações da memória.

Sabemos que a construção de novos conhecimentos implica, necessariamente, algum tipo de desequilíbrio, desconforto, sofrimento intelectual. O já conhecido é o terreno da segurança, do equilíbrio. A familiaridade de um conhecimento nos traz a sensação de estar em casa. Sentimos uma espécie de aconchego cognitivo quando tudo à nossa volta já foi visto e pensado antes.

Já o saber ainda desconhecido gera insegurança, desconforto, desequilíbrio. E, para ser aprendido, requer muito esforço. Em última instância, causa sofrimento. Precisamos primeiramente, superar a desconfiança de falsidade em relação a tudo que é novo. Para se preservar, o que já é conhecido sempre nos diz que o desconhecido tende a ser falso, e até danoso. Precisamos, num primeiro momento, reunir dados para atestar que o conhecimento novo não é necessariamente falso e nem potencialmente prejudicial. Depois de realizada essa primeira tarefa, precisamos exercer um enorme esforço intelectual para moldar um novo esquema de cognição, um novo jeito de pensar.

Embora nem sempre tenhamos consciência disso, o fato é que pensar o novo é, quase sempre, um processo doloroso. Aprender algo novo dói.

Num contexto histórico em que a circulação de informação é precária, os novos conhecimentos tendem a ser mais escassos e valiosos. Em situações assim, tendemos a impor à nossa mente, apesar da dor, a obrigação de adquirir todos os novos conhecimentos aos quais podemos ter acesso. Isso significa que, quando estamos diante de um conhecimento escasso – por conseguinte bastante valioso –, não poupamos esforços para adquiri-lo.

Pensemos agora num contexto inverso, em que as informações circulam abundantemente, com pouquíssimas restrições de acesso. Nesse contexto, os novos conhecimentos, dada a abundância de acesso, tendem a ser menos valiosos. O esforço para adquiri-los passa a ser desproporcional em relação ao valor. Dito de modo mais simples: não vale a pena sofrer tanto para aprender algo que está disponível na tela de qualquer smartphone.

O primeiro contexto descrito acima retrata a cultura do papel, do impresso, do analógico. As informações circulavam de forma limitada. Estavam atreladas à fixidez do tempo e do espaço. O segundo contexto retrata a atual cultura da tela, do virtual, do digital. As informações são onipresentes. Estão ao alcance de todos, em quaisquer tempos e espaços.

Vivemos, portanto, num contexto em que os dispositivos digitais portáteis nos fornecem, conforme as necessidades de momento, o acesso a qualquer tipo de saber.

Uma questão importante a ser assinalada é que nesse cenário, o conhecimento novo é tratado, dado a ampla possibilidade de acesso, como conhecimento velho. Se está disponível a todos, então não é novo. Temos aqui uma situação curiosa. O acesso ao conhecimento novo passa a assumir o lugar da aquisição. Ou seja, num cenário de ampla circulação de informação, não precisamos mais aprender; precisamos apenas ter possibilidade de acesso.

Como se nota, a onipresença das informações está afetando drasticamente o nosso modo de lidar com o pensamento novo. Não temos mais necessidade de pensar o que ainda não foi pensado. Não precisamos mais nos submeter ao sofrimento implicado no ato de conhecer. Se eventualmente tivermos necessidade de algo novo, podemos acessar os nossos smartphones e pedir que eles pensem por nós, que falem por nós. Enfim, estamos livres da dor de pensar, do sofrimento de aprender. Como diz Lyotard, em tom provocador, “o sofrimento não tem boa reputação na megalópole tecnologista. Sobretudo o sofrimento de pensar” [2].

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[1] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.
[2] LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. 2. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p. 28.