sábado, 3 de dezembro de 2016

Não há pensamento progressista em matéria de língua

Me impressiona o fato de que o pensamento progressista simplesmente morre quando o assunto é língua. 

Em matéria de variação e mudança linguística, o pensamento de esquerda se comporta de modo tão conservador quanto o pensamento de direita. Ainda tratamos esse tema com o ranço da colonialidade, do elitismo e da tradição, independentemente de nossa filiação ideológica. 


Antônio Luiz M. C. Costa apresenta a imagem de um suposto mapa dialetal do Brasil e faz o seguinte comentário:

“Mapeando os dialetos do Brasil. No fim das contas, sulistas falam mais "errado" e nordestinos têm a fala mais próxima do português padrão”.

O pensamento expresso no tuíte vem do senso comum. Esse tipo de avaliação (ideológica) não tem amparo na Linguística. As pesquisas sociolinguísticas e dialetológicas jamais colocam a “língua padrão” como uma medida de julgamento. Nenhum linguista adotaria “português padrão” como um instrumento aferidor da legitimidade de outra forma linguística.

Dizer que o português do Nordeste é mais próximo do português padrão serve exatamente a um fim contrário. Constitui uma operação ideológica que, em vez de empoderar a periferia, faz é fortalecer e legitimar ainda mais o centro.

O que é uma “língua padrão” senão um recorte hegemônico da língua, um conjunto de formas usadas e difundidas pelas elites? Que absurdo! Para contestar a representação de periferia de um grupo social utilizamos como medida exatamente à língua do centro.

Não podemos resolver um problema de preconceito invocando outro preconceito. Não podemos combater nossa “xenofobia” interna, especialmente aquela dirigida ao povo do Nordeste, usando um instrumento ideológico.

Seguindo o raciocínio de Antonio Luiz M.C. Costa chegaríamos à seguinte proposição:

O preconceito à fala nordestina é infundado, já que o português do Nordeste é o que mais se aproxima do português padrão, a língua da elite.

Tenho certeza de que nenhuma pessoa realmente progressista concordaria com essa proposição. Portanto, penso ser necessário difundir no pensamento de esquerda e no pensamento progressista uma nova concepção de língua.

Quem coloca a “língua padrão” como referência acaba legitimando a divisão de classe operada na/pela língua. O padrão de medida de uma língua é própria língua em uso, isto é, a língua efetivamente falada pelo povo.

É essa língua que é a referência de uso, não "língua" prescrita em gramáticas normativas e outros instrumentos de poder. É bom lembrar que as elites sempre usaram a prescrição de uma língua ideal como instrumento de dominação e exclusão. Disso resultam vários mitos linguísticos, reproduzidos por quase todos falantes maternos do português brasileiro, entre os quais destaco: "Eu não sei falar português" e "Português é muito difícil". Marcos Bagno faz, em "O preconceito linguístico", uma análise instigante dos mitos linguísticos que estão presentes no imaginário brasileiro. Sugiro muito a leitura do livro.

Embora disponha de muito poder simbólico, as elites quase sempre perdem a batalha linguística. Essa é a notícia boa. No final das contas, quase sempre as formas linguísticas valorizadas pelas elites cedem lugar à língua do povo.

Ou seja, falamos português porque as forças sociais (das elites) que prescreviam o latim não conseguiram vencer a língua do povo.

Falamos português brasileiro, não português de Portugal. E só falamos português brasileiro porque o pensamento colonizado e colonizador (típico de nossa elite vira-lata) não conseguiu vencer a língua do povo.

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