domingo, 4 de dezembro de 2016

Outros Eus continuam nascendo da carne




Hoje perdemos Ferreira Gullar.

Ele era o nosso último grande poeta vivo. Para mim, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto são, nesta ordem, os maiores poetas brasileiros.

Há, entre os poemas de Gullar, um que me toca mais profundamente. É “O Duplo”.

O DUPLO
Foi-se formando
a meu lado
um outro

que é mais Gullar do que eu
que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto
pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

[Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 38]

Esse poema desnuda a relação tensa do Eu com a memória, com a história e com o corpo. O Eu se mantém, mas não pode se manter idêntico a si mesmo. Há que se dividir.

A história, a memória e o corpo, inevitavelmente, clivam e multiplicam o Eu. Em desespero, o Eu se põe a buscar no corpo fragmentos remanescentes de si, que lhe garantam a autenticidade e a unidade. Aos poucos, o Eu percebe, em profunda angústia, que até mesmo o corpo de lhe trai. Outros Eus continuam nascendo da carne.

Em “O duplo”, vemos o Eu Gullar espreitando, de forma enciumada e ressentida, seu duplo que segue livremente a vida que a história lhe concede.

Hoje o Gullar que espreita se foi. Mas não ficamos sem ninguém.

Livre da morte e da vigilância, o outro Gullar se apresenta a nós sem reservas. Nos dedica, em poemas, uma vida e uma memória imortal. Suas palavras nos oferecem, indistintamente, a companhia arrebatadora de Gullar e de seu duplo.

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