sábado, 10 de dezembro de 2016

Fazer amor com as palavras


Sou aficionado pelas palavras. Para mim, elas encerram toda a beleza do universo. Elas são a memória do mundo; são responsáveis por nos fazer humanos; são a nossa matéria estética mais formidável.

As palavras me interessam não apenas porque são matéria da poesia. Elas também me interessam porque são objetos da vida cotidiana, meios que usamos para significar e para representar o mundo. Me interesso em observar o modo como elas constroem o nosso dia a dia, a nossa política, o nosso mundo acadêmico etc.

Gasto grande parte do meu tempo estudando o modo como as palavras se organizam para formar textos, especialmente os textos escritos. E, dentro do universo da escrita, há uma questão que me traz um fascínio particular. Trata-se do estilo textual.

Adoro estudar os estilos de escrita; adoro ler textos de qualidade. Me esforço ao extremo para produzir textos que ofereçam ao leitor uma experiência de prazer com as palavras. Sei que esse é um objetivo difícil de ser alcançado. Mas já me dou por satisfeito quando o leitor chega às últimas linhas de um artigo sem se aborrecer com a minha escrita.

Neste texto, quero fazer um breve comentário sobre estilo textual na escrita acadêmica.

Parto do pressuposto de que a preocupação com o estilo de um texto deve vir depois da preocupação com o conteúdo. Só textos de qualidade (com conteúdo relevante) podem ser bem ou mal escritos. Textos fracos são necessariamente mal escritos. Não há estilo que compense a falta de ideias.

No ambiente acadêmico, encontramos uma infinidade de textos de qualidade (com conteúdo relevante) mal escritos. Há textos acadêmicos que leio porque preciso. O estilo me aborrece, mas acabo tendo que ler até o final porque o conteúdo é importante para mim.

Sei que muitas pessoas não dão a mínima importância para a forma do texto. Leem o que têm que ler e pronto; escrevem o que têm que escrever e pronto. Eu não sou assim. Encaro a escrita e a leitura como atividades funcionais e estéticas. Um texto pode ser tanto um objeto funcional (que atende a uma necessidade) quanto um objeto estético (que dá prazer).

Ao ler um texto acadêmico, busco suprir a necessidade de um conhecimento específico. Mas busco também ter uma experiência de prazer com as palavras. Se o texto, mesmo sendo útil, não me dá prazer, chego ao fim da leitura com certo aborrecimento e tédio.

Recentemente me deparei com um livro que pode ser qualificado como um texto meramente funcional. Ironicamente o livro trata do ensino de escrita. Durante a leitura, não pude evitar alguns momentos de tédio e aborrecimento. As palavras são simplesmente jogadas no texto:

Cabe também aqui citar Ilari, que em seu texto “Algumas opções do professor de português no segundo grau”, tratando da questão de que, “frequentemente, as perplexidades do professor tomam a forma de alternativas sobre o que ensinar”, por exemplo, língua escrita ou língua falada (entre outras coisas, como língua ou literatura, gramática ou prática de expressão, etc.), lembra que, na realidade, o aluno não domina completamente a língua falada ao ingressar no segundo grau. Em outras palavras, o problema de se ensinar a língua escrita é muito mais complicado do que simplesmente passar para os alunos técnicas que lhes permitam registrar por escrito as mesmas produções verbais de que se mostram capazes de falar[1].

Nesse trecho, as palavras são usadas com utilitarismo e frieza. São tratadas como meros objetos que dizem alguma coisa. Não há afeto, não há carinho.

O interessante é que o/a próprio/a autor/a tem certa consciência de que as palavras estão sendo fustigadas. Depois de amontoar 74 palavras num período sofrível, o/a autor/a começa o período seguinte com a fórmula “Em outras palavras”. Essa fórmula denota um mea-culpa. É como se o/a autor/a estivesse dizendo: “O período anterior está bastante hostil, mas posso torná-lo mais amigável”.

“Ler é fazer amor com as palavras”, nos ensina Rubem Alves. Mas só podemos fazer amor com as palavras enquanto lemos, se o texto tiver sido gerado num grande encontro de amor. É preciso que o escritor faça amor com as palavras antes do leitor. Quando o texto é produzido sem afeto, o leitor é impedido de ter uma experiência de prazer com as palavras.

@Limasostenes 
______________________________
[1] Por uma questão de ética e elegância, resolvi omitir a referência do texto.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Outros Eus continuam nascendo da carne




Hoje perdemos Ferreira Gullar.

Ele era o nosso último grande poeta vivo. Para mim, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto são, nesta ordem, os maiores poetas brasileiros.

Há, entre os poemas de Gullar, um que me toca mais profundamente. É “O Duplo”.

O DUPLO
Foi-se formando
a meu lado
um outro

que é mais Gullar do que eu
que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto
pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

[Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 38]

Esse poema desnuda a relação tensa do Eu com a memória, com a história e com o corpo. O Eu se mantém, mas não pode se manter idêntico a si mesmo. Há que se dividir.

A história, a memória e o corpo, inevitavelmente, clivam e multiplicam o Eu. Em desespero, o Eu se põe a buscar no corpo fragmentos remanescentes de si, que lhe garantam a autenticidade e a unidade. Aos poucos, o Eu percebe, em profunda angústia, que até mesmo o corpo de lhe trai. Outros Eus continuam nascendo da carne.

Em “O duplo”, vemos o Eu Gullar espreitando, de forma enciumada e ressentida, seu duplo que segue livremente a vida que a história lhe concede.

Hoje o Gullar que espreita se foi. Mas não ficamos sem ninguém.

Livre da morte e da vigilância, o outro Gullar se apresenta a nós sem reservas. Nos dedica, em poemas, uma vida e uma memória imortal. Suas palavras nos oferecem, indistintamente, a companhia arrebatadora de Gullar e de seu duplo.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Não há pensamento progressista em matéria de língua

Me impressiona o fato de que o pensamento progressista simplesmente morre quando o assunto é língua. 

Em matéria de variação e mudança linguística, o pensamento de esquerda se comporta de modo tão conservador quanto o pensamento de direita. Ainda tratamos esse tema com o ranço da colonialidade, do elitismo e da tradição, independentemente de nossa filiação ideológica. 


Antônio Luiz M. C. Costa apresenta a imagem de um suposto mapa dialetal do Brasil e faz o seguinte comentário:

“Mapeando os dialetos do Brasil. No fim das contas, sulistas falam mais "errado" e nordestinos têm a fala mais próxima do português padrão”.

O pensamento expresso no tuíte vem do senso comum. Esse tipo de avaliação (ideológica) não tem amparo na Linguística. As pesquisas sociolinguísticas e dialetológicas jamais colocam a “língua padrão” como uma medida de julgamento. Nenhum linguista adotaria “português padrão” como um instrumento aferidor da legitimidade de outra forma linguística.

Dizer que o português do Nordeste é mais próximo do português padrão serve exatamente a um fim contrário. Constitui uma operação ideológica que, em vez de empoderar a periferia, faz é fortalecer e legitimar ainda mais o centro.

O que é uma “língua padrão” senão um recorte hegemônico da língua, um conjunto de formas usadas e difundidas pelas elites? Que absurdo! Para contestar a representação de periferia de um grupo social utilizamos como medida exatamente à língua do centro.

Não podemos resolver um problema de preconceito invocando outro preconceito. Não podemos combater nossa “xenofobia” interna, especialmente aquela dirigida ao povo do Nordeste, usando um instrumento ideológico.

Seguindo o raciocínio de Antonio Luiz M.C. Costa chegaríamos à seguinte proposição:

O preconceito à fala nordestina é infundado, já que o português do Nordeste é o que mais se aproxima do português padrão, a língua da elite.

Tenho certeza de que nenhuma pessoa realmente progressista concordaria com essa proposição. Portanto, penso ser necessário difundir no pensamento de esquerda e no pensamento progressista uma nova concepção de língua.

Quem coloca a “língua padrão” como referência acaba legitimando a divisão de classe operada na/pela língua. O padrão de medida de uma língua é própria língua em uso, isto é, a língua efetivamente falada pelo povo.

É essa língua que é a referência de uso, não "língua" prescrita em gramáticas normativas e outros instrumentos de poder. É bom lembrar que as elites sempre usaram a prescrição de uma língua ideal como instrumento de dominação e exclusão. Disso resultam vários mitos linguísticos, reproduzidos por quase todos falantes maternos do português brasileiro, entre os quais destaco: "Eu não sei falar português" e "Português é muito difícil". Marcos Bagno faz, em "O preconceito linguístico", uma análise instigante dos mitos linguísticos que estão presentes no imaginário brasileiro. Sugiro muito a leitura do livro.

Embora disponha de muito poder simbólico, as elites quase sempre perdem a batalha linguística. Essa é a notícia boa. No final das contas, quase sempre as formas linguísticas valorizadas pelas elites cedem lugar à língua do povo.

Ou seja, falamos português porque as forças sociais (das elites) que prescreviam o latim não conseguiram vencer a língua do povo.

Falamos português brasileiro, não português de Portugal. E só falamos português brasileiro porque o pensamento colonizado e colonizador (típico de nossa elite vira-lata) não conseguiu vencer a língua do povo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Seremos resgatados da distopia política?


Desde o dia 1º de janeiro de 2015, boa parte d@s cidadã@s brasileir@s já estava ciente de que a atual composição do Congresso Nacional é, de longe, a pior legislatura que o Brasil já elegeu. Não esperávamos grandes coisas de um parlamento liderado por Eduardo Cunha (Câmara Federal) e Renan Calheiros (Senado Federal).

Contudo, mesmo cientes de que a 55ª legislatura brasileira havia reunido uma plêiade respeitável de canalhas, ainda nos iludíamos com a ideia de que havia ali algum lampejo de civilidade e responsabilidade política. Mantínhamos a crença de que os partidos eram sim diferentes (tanto em termos ideológicos quanto éticos).

Por convicção política e por uma relutante utopia, rechaçávamos veementemente a possibilidade de embarcar na onda do “é tudo farinha do mesmo saco”. Recusávamos admitir que a classe política não passa de uma mistura homogênea de resíduos sociais.

De repente, nossas esperanças e utopias feneceram. Em agonia, sentimos morrer os últimos suspiros de confiança que tínhamos na política e na classe política.

Em 2016, nós, @s eleitor@s esperançosos, tivemos que encarar um calvário de desilusões. Diante de tanto flagelo, não conseguimos prolongar nossa via crucis. Chegamos ao limite. Aquela corja de escroques que dá expediente (esporádico) no Congresso Nacional roubou nossas últimas gotas de esperanças. Agora, não conseguimos acreditar em mais nada. As evidências de canalhice corporativa mataram nossas utopias.

Neste ano de 2016, o Congresso Nacional nos expôs incessantemente ao horror. Aquela encenação apavorante do dia 17 de abril de 2016, que abriu as portas para o golpe, nos mostrou o quanto as vísceras do nosso parlamento são feias e fedorentas.

O ano prosseguiu e os sucessivos flagelos continuaram.

Agora, quase no fechamento do ano de 2016, fomos finalmente levados ao abate. Relutamos muito. Mas não deu. O escárnio venceu a utopia. A canalhice dos parlamentares espezinhou todas as nossas esperanças, das mais fortes às mais frágeis.

Ingenuamente, mantínhamos viva a crença (só por fé isso permanecia possível!) de que partidos como PP (um dos sucedâneos da Arena) e o PCdoB são diferentes. A última votação na câmara (que aprovou o texto-base do projeto de lei que incorpora o suposto pacote de medidas “anticorrupção”) escancarou o óbvio. “Todos são farinha do mesmo saco”.

Esse ano serviu para destroçar o conceito de democracia representativa. Num show midiático incessante, fomos levados a visitar diariamente nossa maior casa legislativa, a suposta casa do povo. Não gostamos do que vimos.

Não tivemos mais força para sustentar a fé política. Não conseguimos manter a crença no Congresso Nacional como a casa do povo, como uma casa legislativa que teria sua razão de ser e de agir centrada nos interesses públicos. 

Vimos que o Congresso Nacional é, na verdade, uma casa legislativa privativa, um clube de negócios de 594 (513 deputad@s e 81 senadores) aproveitador@s da pior estirpe, um bando de canalhas que submete o Estado aos próprios caprichos.

Realmente o ano de 2016 foi medonho, muito além do que poderíamos suportar. Resta-nos, neste último mês de um ano que insiste em não acabar, remoer a morte de nossas utopias e lamber nossas feridas.

O que virá depois? Seremos resgatados desse mundo distópico? Voltaremos a ter fé na política? Voltaremos a acreditar no Congresso Nacional? Voltaremos a ver aquela instituição como a casa do povo? Voltaremos a crer que há diferença entre os partidos? Voltaremos a ter utopias?

Não sei! São tantas perguntas...

Só a história poderá dizer como sairemos desse período de trevas (se é que sairemos!).