quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O que é o curso de Letras?



Frequentemente, algumas pessoas me perguntam sobre a natureza do curso de Letras. Em razão disso, resolvi escrever uma série de textos sobre o assunto. Pretendo, assim, apresentar algumas informações que poderão ajudar as pessoas interessadas em conhecer melhor o nosso curso.  Começo essa série respondendo duas perguntas muito comuns.

a) O curso de Letras é um curso de gramática?

Não. Muita gente pensa que estudar Letras é equivalente a estudar gramática. Não é! Estudamos gramática sim, mas isso não compreende a totalidade do curso. Estudamos muitas outras coisas.

Para ser mais exato, o estudo de normas gramaticais nem é o foco do curso. Em termos de estudo linguístico, o nosso foco é o estudo da língua enquanto atividade social carregada de heterogeneidade, inovação, luta, ideologia etc. como qualquer outra prática social. E fazemos esse estudo a partir do método científico. Isso significa dizer que tratamos a língua como ela se manifesta socialmente sem qualquer julgamento.

Não estudamos a língua a partir de fundamentos morais e ideológicos, do tipo certo e errado. Um linguista não é um estilista da língua. Nosso papel não consiste em classificar as formas da língua em certas e erradas; consiste, prioritariamente, em investigar a língua como um fato social, observando-a em todas as suas dimensões e manifestações.  

b) O curso de Letras ensina a “escrever bem”?

Essa é uma pergunta que não dá pra responder com apenas “sim” ou “não”. Primeiramente porque não é fácil definir o que é “escrever bem”. Para uma boa parte das pessoas “escrever bem” é simplesmente “produzir um texto de forma clara, coesa e coerente”. Se tomarmos essa definição como referência, temos de reconhecer que a atribuição de ensinar a “escrever bem” é da Educação Básica, não de qualquer curso do Ensino Superior.

Nessa perspectiva, partimos da tese de que todas as pessoas que concluíram a Educação Básica, depois de 12 anos de aula de português, “escrevem bem”. Se isso não acontece é porque nossa Educação Básica deve estar com algum problema (e, de fato, está!), e as aulas de Língua Portuguesa não estão funcionando como deveriam.

Bom, voltando o nosso foco para o curso de Letras, o que posso dizer sobre o tema “escrever bem”, dentro dessa primeira acepção, é que o curso de licenciatura em Letras tem como principal objetivo a formação de professores/as de língua. Portanto, tem a responsabilidade de formar um/a professor/a que maneja bem a escrita para que este tenha plenas condições de ensinar a “boa escrita” às/aos alunas/os da Educação Básica. Nesse sentido, ao ingressar no curso de Letras, a/o estudante, na condição de professor/a em formação, assume a responsabilidade moral de aprender a “escrever bem” para ter condições de ensinar a “escrever bem”.

Mas a definição apresentada acima não é a única para “escrever bem”. Devemos pensar numa definição mais abrangente, segundo a qual “escrever bem” vai além da atividade elementar de produzir um texto meramente pragmático.  Seguindo essa proposta, podemos definir “escrever bem” como a arte de explorar, com leveza e precisão, as potencialidades das palavras. Assim, “escrever bem” é construir um texto sublime, que cause no leitor uma experiência arrebatadora e memorável. Nesse sentido, quem “escreve bem” escreve com a alma do leitor, pensando no conforto e prazer que quer lhe causar. E esse “escrever bem” não se aplica apenas à produção da arte com palavras. Podemos (e devemos) escrever um relatório técnico com arte e estilo.

Como dito, trabalhamos com a linguagem em suas múltiplas dimensões, incluindo aí, obviamente, a dimensão estética (não a dimensão moral, que classifica o certo e o errado). Portanto, podemos dizer que o curso de Letras contribui sim para a formação de um bom “escritor”.

Aguardo pergunta dos/as leitores/as para a produção de novos textos da série.