quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Antiteísta, mas não ateu


A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de que o espírito está excluído. Ela é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é uma exigência que a felicidade real formula. Exigir que ele renuncie às ilusões acerca da sua situação é exigir que renuncie a uma situação que precisa de ilusões.
Karl Marx[1]

Será possível? Este velho santo, na sua floresta, ainda não soube que Deus está morto!
Friedrich Nietzsche[2]

O teísmo foi criado por seres humanos assustados para que os ajudasse na tarefa de apagar os incêndios da histeria causados pelos traumas da autoconsciência e pelo choque do "não existir". Enfatizando, Deus entendido teisticamente é claramente uma construção humana.
John S. Spong[3]

Meu sentido de sagrado, na medida em que tenho algum, está atado à esperança de que algum dia, em algum milênio futuro, meus descendentes remotos viverão em uma civilização global em que o amor será adequadamente a única lei.
Richard Rorty[4]

Me tornei crítico do teísmo, mas não consigo ser ateu. Tenho hoje uma fé profundamente paradoxal. Não creio num Deus agente, tal como concebe o cristianismo tradicional, mas não consigo desprezá-lo, ignorá-lo, apagá-lo da minha existência.

Sou antiteísta porque vivo a combater Deus, a negar sua existência. Não consigo ser ateu porque vivo a procurar Deus com uma paixão incontrolável.

Ser crítico do teísmo significa mais do que simplesmente rejeitar o Deus cristão tradicional; significa se entregar com paixão à tarefa de combater Deus, tentar minar suas forças de propagação religiosa. Enfim, tentar matá-lo. Em certo sentido, Nietzsche foi um antiteísta, não um ateu.

Um antiteísta é alguém que busca evidenciar a face monstruosa e paganizada de Deus, constantemente afirmada e cultuada no discurso e nas celebrações religiosas cristãs tradicionais.

Como um antitetísta, não atribuo a Deus o governo do mundo. Não há Deus que faça o bem ou o mal. Não há Deus que faça chover, não há Deus que previna acidente, não Deus que adie a morte. Não há Deus que mate. Todos esses fenômenos seguem os seus próprios cursos, baseados numa intricada teia de correlações de força e poder, dentro da qual atua o ser humano, talvez como o principal agente.

Não concebo Deus como a força misteriosa que ligou a chave de ignição do mundo e o faz funcionar continuamente. Também não o tomo como a enciclopédia que explica os mistérios do mundo, uma espécie de racionalidade tapa-buraco, que busca esclarecer as questões para as quais a ciência ainda não tem resposta.

Apesar do meu antiteísmo, não me tornei um ateu. Vivo em busca de uma fé em Deus, apesar de concordar com quase todas as teses do ateísmo. Talvez haja apenas um único ponto que não compartilho com o ateísmo. Eu tenho desejo de Deus. Ele é, em mim, um desejo incontornável, insubmisso, indelével. Não me conformo com um mundo no qual não haja Deus. Desejo, com o ímpeto mais visceral da minha alma, que ele exista e que seja parte deste mundo.

Como o Deus que se aloja em mim é um desejo, ele sempre se manifesta envolvido numa incerteza inclemente, numa dúvida que me consome e que me estimula. Jamais pude me encontrar com Deus empunhado de convicção e certeza. Como diz sabiamente Rubem Alves, “Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza”.

Busco ter fé em Deus porque tenho um desejo incontornável de que a linguagem, a beleza e amor sejam transcendentes. Não consigo me dar bem com a ideia de que a palavra – por meio qual fazemos poesia e guerra – seja apenas mais um entre os diversos recursos que adquirimos ao longo de nossa jornada evolutiva. Não aceito que beleza seja uma mera abstração conceitual, inventada pela percepção humana e transmitida pela cultura. E, por fim, também não me conformo, em hipótese alguma, que o amor seja uma virtude comum, previsível e de fácil acomodação em nossa trajetória evolutiva.

Deus é a palavra, a beleza e o amor. Definitivamente não consigo ser ateu.




[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre a Religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 46.
[2] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 35.
[3] SPONG, John. S. Um novo cristianismo para um novo mundo: a fé além dos dogmas. Campinas: Verus, 2006. p. 64.
[4] RORTY, Richard. Anticlericalismo e ateísmo. In: RORTY, Richard; VATTIMO, Gianni. O futuro da religião: solidariedade, caridade e ironia. (Organização de Santiago Zabala). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006. p.  60.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ter fé


Ter fé é afirmar minha fé em Deus, contrariando todas as forças interiores e razões exteriores.
Ter fé é recusar a inexistência de Deus, apesar de razoável.
Ter fé é desejar, com o ímpeto mais profundo da minha alma, que Deus exista.

Ter fé é seguir uma jornada em busca de Deus, tendo em mão um mapa em branco, sem qualquer inscrição.
Ter fé é querer me encontrar com Deus, sem auxílio de qualquer narrativa e prática religiosa.
Ter fé é embarcar numa jornada que só acabará quando minha vida terminar.
Ter fé é acreditar que vale a pena seguir essa jornada, mesmo sabendo que ela provavelmente não me levará a lugar algum.

Ter fé é não se conformar que Deus seja fundamentalmente uma ausência.

Ter fé é fazer da ausência de Deus a razão para um poema.

domingo, 1 de novembro de 2015

Sou um peregrino perdido


“A verdade acontece ao longo do diálogo. [...] Há que repetir uma e outra vez: a fé não é uma questão de problemas, mas de mistério, por isso nunca devemos abandonar o caminho da busca e da indagação”.
Tomáš Halík[1]


A verdade se insinua frágil e fugazmente enquanto os diálogos e itinerários acontecem. Interrompidos os diálogos e os itinerários, a verdade se derrete diante do calor escaldante do solipsismo e da inércia.

Estou em um caminho cujo destino desconheço quase completamente. Não sei exatamente para onde vou. A cada momento surgem novos saberes e meu caminho é refeito.

Não tenho apego ao destino. Me apego ao caminhar. Estou seguro de que vale a pena caminhar. Essa é a feição da minha jornada espiritual. A cada dia me refaço e reconstruo minhas trajetórias. Sou um peregrino, e todo peregrino se realiza enquanto anda, viaja, se move. Minha memória se acumula de jornadas de insucessos.

Sigo a perspectiva de fé de Tomáš  Halík:

Ter fé significa “seguir no encalço”; neste mundo, toma a forma de uma caminhada infindável. A verdadeira fé religiosa na terra nunca pode terminar, como se fosse uma busca bem-sucedida de um ou outro objeto – ou seja, encontrando-o e tomando posse dele –, porque não se orienta para um fim material, mas para o coração do mistério, que é inesgotável, como um poço sem fundo.[2]

Sou um peregrino que se reconhece perdido.

Perdido em dois sentidos. Por um lado, me apego à ideia de que existe alguém que esteja à procura de mim, alguém de quem me desliguei. Penso que há alguém que pede o meu retorno, tal qual o pai cujo filho decidiu ir embora e nunca mais deu notícias. Sou o perdido de alguém e vagueio pela vida sonhando com esse reencontro.

Por outro lado, sou um perdido que não sabe para onde ir. A vida é para mim um labirinto. Vagueio por becos. Subo, desço, viro à direita, viro à esquerda, avanço, retrocedo. Chego a lugares novos e volto a lugares pelos quais já passei. Não sei exatamente para onde irei amanhã. É na aurora que a trajetória de cada dia é desenhada.

Como sou um peregrino, não me conformo com a ideia de que não vale a pena vaguear, mesmo que esteja andando para trás. Vagueio com paixão.

Um dia chegarei a um destino e este será o último destino.

E, até esse dia chegar, tentarei fazer das minhas andanças uma experiência de amor e ternura. Quero peregrinar amando e sonhando.




[1] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 30-31.
[2] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 32.