segunda-feira, 16 de março de 2015

Sou contra corrupção (E alguém é a favor, por acaso?)


Pedir impeachment, gritar “Fora Dilma” e “Fora PT” são um benefício da democracia. Ir à rua e dizer que deseja a queda do governo vigente é um direito democrático intocável. Em praticamente todos os governos pós 1989 houve pedido de impeachment. Acho que só Itamar Franco foi poupado. Quem não se lembra da campanha “Fora FHC” encabeçada pelo PT e pelos movimentos sociais? Houve também o “Fora Lula”. E agora há o “Fora Dilma”. Esse tipo de clamor e manifestação faz parte da história de nossa jovem democracia.

Contudo, algumas coisas nessa onda de pedir impeachment de Dilma  me chamam a atenção.

Acho estranho o fato de o movimento pró impeachment acontecer poucos meses depois das eleições; também acho estranho o fato de não haver, entre os milhares de manifestantes, pelo menos 1% que votou na Dilma e agora está inconformado com o seu princípio de governo, a ponto de rejeitá-lo por completo; também acho estranho o fato de o pedido dos tais 2 milhões de manifestantes (segundo a notável, respeitável e incorruptível Organizações Globo) ser julgado mais importante que o voto de 54 milhões de brasileiros.

Essas questões, entre tantas outras igualmente importantes, me fazem pensar, pelo menos por enquanto, que esse grande movimento não passa de histeria coletiva de gente que não aceita ser contrariada. São meninos mimados que acreditam que, se forem para as ruas e gritarem “Fora Dilma”, no dia seguinte, seu candidato derrotado nas urnas instantânea e magicamente tomará posse como presidente da república.

Um fato interessante é que essa histeria é um benefício fundamentalmente democrático, um direito inerente à democracia. Inexplicavelmente, alguns mentecaptos desejam a suspensão do direito de gritar “Fora Dilma”. Insisto mais um pouco no assunto pra tentar mostrar o tamanho da merda que é portar um cartaz com os dizeres: “Intervenção Militar Já”. Vai pedir impeachment de um governo militar pra você ver o que acontece?

Invocar golpe militar é uma estupidez lógica (se é que isso seja razoavelmente lógico!) tão banal que qualquer primata é capaz de discerni-la. Imagino que alguns deles, quando veem alguém pedir golpe militar, se sentem muito injustiçados pela natureza: “Como é que uma criatura dessas pode ter vencido a corrida evolutiva?”

Essa multidão que vocifera “Fora Dilma” e que pede intervenção militar é, na verdade, uma massa construída pela mídia, formada por eleitores de Aécio, que, inconformados com o fato de não serem maioria, querem encontrar uma saída para deslegitimar os 54 milhões de votos que elegeram o atual governo. O que essa gente quer não é reforma política. O que quer, de verdade, é uma forma (não democrática) de reverter a derrota na urna. Simples assim.

Quem quer protestar de verdade contra corrupção deve pedir reforma política e o fim urgente do financiamento empresarial das campanhas.

Pense comigo.

Você acha que as empreiteiras investigadas pela operação Lava Jato, que fizeram doação de 98 milhões para as campanhas de Dilma e Aécio, realmente doaram esse dinheiro todo, ou fizeram um empréstimo? Que empresa em sã consciência doa 1 real que seja a alguém?

Você realmente acha que o problema de corrupção que está aí é de um partido específico?

Você realmente acha que a simples derrubada do governo que está aí e/ou uma nova eleição (com custo de mais de 200 milhões por chapa a ser financiado por empresas) vai criar um ambiente imune à corrupção?

Se você acredita que ir pra rua e gritar “Fora Dilma”, “Fora PT”, “Intervenção Militar Já” é um ato de politização, sinto muito em dizer que você é, na projeção mais otimista, uma pessoa bem intencionada, mas profundamente ingênua.

A coisa é muito mais complicada que simplesmente bater o pé e dizer “Fora Dilma”.

Em tempo:

votei em Dilma (mas não sou petista) e estou profundamente decepcionado com esse começo de governo. A composição ministerial, as alianças com setores e alas políticas conservadoras, o pacote econômico, entre outras questões, são ações realmente muito diferentes do que eu esperava. Nesse sentido, se houver uma manifestação que apresente pautas concretas que apontem para a reinvenção do sistema político brasileiro (e na qual não haja primatas pedindo intervenção militar), estarei lá, com certeza.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre deuses, pássaros e gaiolas [por Rubem Alves]


Rubem Alves*

Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”. Deus “ele”, masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A Igreja Católica não conhece a mulher... Conhece apenas a 'mãe' que foi mãe sem ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos houve que disseram que Deus é uma criança que nos convida a brincar... Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Se tenho uma religião ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta:

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea de sua garganta,
 mais leve. E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto, mais leve...

Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim...
  
“Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: ‘Tenho de ir’. A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. ‘Menina’, disse-lhe o pássaro, ‘aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar...’ E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: ‘Agora ele será meu para sempre’. Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe”.
  
A estória termina na ausência do pássaro e a menina se enfeitando para a sua volta. Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna... Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta... Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas.

O Pássaro Encantado não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta... Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu voo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade – ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço: “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E voo com ele...

Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro...

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas... O que as religiões desejam é transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria...

Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto.

À transformação da poesia em manipulação milagreira, os profetas deram o nome de idolatria.

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*Alves, Rubem. Um mundo num grão de areia: o ser humano e seu universo. Campinas: Verus, 2002. p. 17-22.