domingo, 25 de janeiro de 2015

Escrever é se revoltar


Sou um amedrontado pela página em branco, uma superfície sempre arriscada.
Heleno Godoy [1]

Existem razões para escrever? Não sei. Só sei que escrever é um mistério e uma fonte-foz de angústia.

Quando falo de escrever, obviamente não estou falando de escrever um artigo acadêmico, um relatório técnico ou qualquer coisa ligada ao mundo do trabalho e das obrigações. Estou falando da escrita que não se paga, que não tem função explícita, que não é encomendada. Existe uma escrita que é economicamente desnecessária e desprovida de pretensão-função educativa. É dessa que estou falando.

Penso que algumas pessoas escrevem simplesmente porque estão programadas pra escrever. Existe nelas uma base artística que controla os fluxos da escrita.

Ainda não dispomos de conhecimento suficiente para discernir-descrever a natureza desse sistema. Também não sabemos quem o engastou na alma da pessoa e por que razão fez isso. O fato é que há, em algumas pessoas, uma disposição perfeita, indomável e inadiável pra escrever.

Nessas pessoas, quando os gatilhos e comandos do texto são disparados, não há outra coisa a fazer senão escrever. Não se pode negar um texto a uma alma que é dotada de criação literária. Quando as palavras acordam, uma tremenda balbúrdia se instala na alma; só uma tela em branco clamando por um texto pode salvá-la.

Há outras pessoas que escrevem porque sentem a necessidade de escrever. Essas pessoas não são programadas pra escrever. O texto não irrompe, não está pronto. Na verdade, pede para ser construído. E, como ele não é fruto de ação espontânea, precisa ser pensado, mexido, acariciado, namorado e, sangrentamente, elaborado.

Quando não se tem uma base interna que empurra o texto para fora a qualquer custo, o esforço para gerá-lo é sempre absurdo e cruel. Sentir necessidade de escrever é diferente de, simplesmente, se pôr a escrever, de ser captado por um texto que já está pronto na alma.

A necessidade da escrita torna consciente o seguinte problema: existe um texto reivindicando ser escrito, mas não há matéria e ação espontânea para isso. Na verdade, não é bem um texto que pede para ser escrito; é um monte de palavras que pedem para vazar. Cabe à pessoa a tarefa atroz de ordená-las, textualizá-las.

A diferença entre ser captado pelo texto e sentir necessidade de escrever pode ser descrita mais ou mesmos assim. Quem escreve porque está programado pra escrever não precisa elaborar o texto; precisa apenas pari-lo, pôr para fora. Ele já está gerado nas entranhas. Quem escreve porque sente necessidade escrever precisa dolorosamente fabricar o texto; precisa travar uma luta com um bando de palavras insurgentes e xucras. É preciso desembaralhá-las, domesticá-las. Escrever é, nesse caso, fazer o pensamento sangrar; é fazer o espírito criar algo para o qual ele não está equipado.

Quem escreve por necessidade
contraria o destino,
ensaia e encarna uma dissidência,
se embrenha numa revolta contra uma ausência inexplicável.


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[1] Godoy, Heleno.  Leituras de ficção e outras leituras. Goiânia: Ed. PUC-GO/Kelps, 2011. p. 75.

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