domingo, 11 de janeiro de 2015

Diálogo com Osvaldo L. Ribeiro sobre o discurso autoral


Sostenes Lima:
Quando a gente escreve alguma coisa, algo de nós se desnuda;
Algo de nós se desgruda e toma forma autônoma.  O texto, uma vez escrito, segue o seu próprio caminho.

Osvaldo Luiz Ribeiro:
A questão que me interessa, e só ela, é:
- o que você falou e pôs lá, sua fala e discurso, continua lá, a despeito da deriva dessa jangada no mar polissêmico?
- se sim, ela ainda pode ser recuperada?

Sostenes Lima:
Questões interessantes. Vamos ao que penso sobre elas:
1. O sujeito enunciador jamais pode ser apagado do texto. Ele e seu entorno discursivo (identidade, relações, ideologia, crenças etc.) estão irredutivelmente inscritos no texto. Mas há um problema. O texto - se considerarmos apenas a sua materialidade - permanece inalterado no tempo, apesar das mudanças inevitáveis do sujeito enunciador e dos sujeitos coenunciadores. Isso quer dizer que o autor de um texto, passado algum tempo, não existe mais na história. Outro sujeito se erige sobre suas memórias e sobre seus escombros históricos. Quando produzimos um texto, devemos estar cientes de que, mais cedo ou mais tarde, não seremos mais o autor daquele texto, uma vez que discursivamente já teremos nos tornado outro enunciador, atravessado por outras redes e formações discursivas.
2. Disso conclui-se que o discurso autoral realizado num texto só pode ser recuperado à luz de uma retrospectiva histórica. O que eu disse em um texto há algum tempo só pode ser atribuído a mim atualmente de um ponto de vista material e jurídico. De um ponto de vista discursivo, o texto já é outro (uma vez que as condições de leitura são outras) e o autor também é outro (uma vez que estou ligado a uma nova configuração sociodiscursiva e histórica).

Osvaldo Luiz Ribeiro:
De tudo o que você disse, tudo muito óbvio, o que faz de você um positivista, como dizem que eu sou, e um fundamentalista, por quem também me tratam, é que você manteve a possibilidade, pelo viés histórico, da tentativa de recuperação do discurso autoral: "Disso conclui-se que o discurso autoral realizado num texto só pode ser recuperado à luz de uma retrospectiva histórica".
Positivista fundamentalista igual a mim...
Seja como for, só isso me interessa: a arqueologia do sentido autoral.

Sostenes Lima:
Embora eu seja (rs), não sei bem o que é ser um positivista. Considerando o texto acima como material de análise, em que consiste exatamente o meu (e o seu) positivismo?

Osvaldo Luiz Ribeiro:
Exatamente nisso - em acreditar que é possível tentar recuperar o discurso autoral - positivismo e fundamentalismo, porque você pressupõe "objetividade" da busca/pesquisa e "fundamentos discursivos fixos em códigos"... Acredite. Não foi nem uma nem duas pessoas que já me disseram isso, entre risos que Freud ensinou a dar...

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