quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Antiteísta, mas não ateu


A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de que o espírito está excluído. Ela é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é uma exigência que a felicidade real formula. Exigir que ele renuncie às ilusões acerca da sua situação é exigir que renuncie a uma situação que precisa de ilusões.
Karl Marx[1]

Será possível? Este velho santo, na sua floresta, ainda não soube que Deus está morto!
Friedrich Nietzsche[2]

O teísmo foi criado por seres humanos assustados para que os ajudasse na tarefa de apagar os incêndios da histeria causados pelos traumas da autoconsciência e pelo choque do "não existir". Enfatizando, Deus entendido teisticamente é claramente uma construção humana.
John S. Spong[3]

Meu sentido de sagrado, na medida em que tenho algum, está atado à esperança de que algum dia, em algum milênio futuro, meus descendentes remotos viverão em uma civilização global em que o amor será adequadamente a única lei.
Richard Rorty[4]

Me tornei crítico do teísmo, mas não consigo ser ateu. Tenho hoje uma fé profundamente paradoxal. Não creio num Deus agente, tal como concebe o cristianismo tradicional, mas não consigo desprezá-lo, ignorá-lo, apagá-lo da minha existência.

Sou antiteísta porque vivo a combater Deus, a negar sua existência. Não consigo ser ateu porque vivo a procurar Deus com uma paixão incontrolável.

Ser crítico do teísmo significa mais do que simplesmente rejeitar o Deus cristão tradicional; significa se entregar com paixão à tarefa de combater Deus, tentar minar suas forças de propagação religiosa. Enfim, tentar matá-lo. Em certo sentido, Nietzsche foi um antiteísta, não um ateu.

Um antiteísta é alguém que busca evidenciar a face monstruosa e paganizada de Deus, constantemente afirmada e cultuada no discurso e nas celebrações religiosas cristãs tradicionais.

Como um antitetísta, não atribuo a Deus o governo do mundo. Não há Deus que faça o bem ou o mal. Não há Deus que faça chover, não há Deus que previna acidente, não Deus que adie a morte. Não há Deus que mate. Todos esses fenômenos seguem os seus próprios cursos, baseados numa intricada teia de correlações de força e poder, dentro da qual atua o ser humano, talvez como o principal agente.

Não concebo Deus como a força misteriosa que ligou a chave de ignição do mundo e o faz funcionar continuamente. Também não o tomo como a enciclopédia que explica os mistérios do mundo, uma espécie de racionalidade tapa-buraco, que busca esclarecer as questões para as quais a ciência ainda não tem resposta.

Apesar do meu antiteísmo, não me tornei um ateu. Vivo em busca de uma fé em Deus, apesar de concordar com quase todas as teses do ateísmo. Talvez haja apenas um único ponto que não compartilho com o ateísmo. Eu tenho desejo de Deus. Ele é, em mim, um desejo incontornável, insubmisso, indelével. Não me conformo com um mundo no qual não haja Deus. Desejo, com o ímpeto mais visceral da minha alma, que ele exista e que seja parte deste mundo.

Como o Deus que se aloja em mim é um desejo, ele sempre se manifesta envolvido numa incerteza inclemente, numa dúvida que me consome e que me estimula. Jamais pude me encontrar com Deus empunhado de convicção e certeza. Como diz sabiamente Rubem Alves, “Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza”.

Busco ter fé em Deus porque tenho um desejo incontornável de que a linguagem, a beleza e amor sejam transcendentes. Não consigo me dar bem com a ideia de que a palavra – por meio qual fazemos poesia e guerra – seja apenas mais um entre os diversos recursos que adquirimos ao longo de nossa jornada evolutiva. Não aceito que beleza seja uma mera abstração conceitual, inventada pela percepção humana e transmitida pela cultura. E, por fim, também não me conformo, em hipótese alguma, que o amor seja uma virtude comum, previsível e de fácil acomodação em nossa trajetória evolutiva.

Deus é a palavra, a beleza e o amor. Definitivamente não consigo ser ateu.




[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre a Religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 46.
[2] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 35.
[3] SPONG, John. S. Um novo cristianismo para um novo mundo: a fé além dos dogmas. Campinas: Verus, 2006. p. 64.
[4] RORTY, Richard. Anticlericalismo e ateísmo. In: RORTY, Richard; VATTIMO, Gianni. O futuro da religião: solidariedade, caridade e ironia. (Organização de Santiago Zabala). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006. p.  60.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ter fé


Ter fé é afirmar minha fé em Deus, contrariando todas as forças interiores e razões exteriores.
Ter fé é recusar a inexistência de Deus, apesar de razoável.
Ter fé é desejar, com o ímpeto mais profundo da minha alma, que Deus exista.

Ter fé é seguir uma jornada em busca de Deus, tendo em mão um mapa em branco, sem qualquer inscrição.
Ter fé é querer me encontrar com Deus, sem auxílio de qualquer narrativa e prática religiosa.
Ter fé é embarcar numa jornada que só acabará quando minha vida terminar.
Ter fé é acreditar que vale a pena seguir essa jornada, mesmo sabendo que ela provavelmente não me levará a lugar algum.

Ter fé é não se conformar que Deus seja fundamentalmente uma ausência.

Ter fé é fazer da ausência de Deus a razão para um poema.

domingo, 1 de novembro de 2015

Sou um peregrino perdido


“A verdade acontece ao longo do diálogo. [...] Há que repetir uma e outra vez: a fé não é uma questão de problemas, mas de mistério, por isso nunca devemos abandonar o caminho da busca e da indagação”.
Tomáš Halík[1]


A verdade se insinua frágil e fugazmente enquanto os diálogos e itinerários acontecem. Interrompidos os diálogos e os itinerários, a verdade se derrete diante do calor escaldante do solipsismo e da inércia.

Estou em um caminho cujo destino desconheço quase completamente. Não sei exatamente para onde vou. A cada momento surgem novos saberes e meu caminho é refeito.

Não tenho apego ao destino. Me apego ao caminhar. Estou seguro de que vale a pena caminhar. Essa é a feição da minha jornada espiritual. A cada dia me refaço e reconstruo minhas trajetórias. Sou um peregrino, e todo peregrino se realiza enquanto anda, viaja, se move. Minha memória se acumula de jornadas de insucessos.

Sigo a perspectiva de fé de Tomáš  Halík:

Ter fé significa “seguir no encalço”; neste mundo, toma a forma de uma caminhada infindável. A verdadeira fé religiosa na terra nunca pode terminar, como se fosse uma busca bem-sucedida de um ou outro objeto – ou seja, encontrando-o e tomando posse dele –, porque não se orienta para um fim material, mas para o coração do mistério, que é inesgotável, como um poço sem fundo.[2]

Sou um peregrino que se reconhece perdido.

Perdido em dois sentidos. Por um lado, me apego à ideia de que existe alguém que esteja à procura de mim, alguém de quem me desliguei. Penso que há alguém que pede o meu retorno, tal qual o pai cujo filho decidiu ir embora e nunca mais deu notícias. Sou o perdido de alguém e vagueio pela vida sonhando com esse reencontro.

Por outro lado, sou um perdido que não sabe para onde ir. A vida é para mim um labirinto. Vagueio por becos. Subo, desço, viro à direita, viro à esquerda, avanço, retrocedo. Chego a lugares novos e volto a lugares pelos quais já passei. Não sei exatamente para onde irei amanhã. É na aurora que a trajetória de cada dia é desenhada.

Como sou um peregrino, não me conformo com a ideia de que não vale a pena vaguear, mesmo que esteja andando para trás. Vagueio com paixão.

Um dia chegarei a um destino e este será o último destino.

E, até esse dia chegar, tentarei fazer das minhas andanças uma experiência de amor e ternura. Quero peregrinar amando e sonhando.




[1] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 30-31.
[2] HalíkTomáš. Paciência com Deus: oportunidade para um encontro. São Paulo: Paulinas, 2015. p. 32.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Sou contra corrupção (E alguém é a favor, por acaso?)


Pedir impeachment, gritar “Fora Dilma” e “Fora PT” são um benefício da democracia. Ir à rua e dizer que deseja a queda do governo vigente é um direito democrático intocável. Em praticamente todos os governos pós 1989 houve pedido de impeachment. Acho que só Itamar Franco foi poupado. Quem não se lembra da campanha “Fora FHC” encabeçada pelo PT e pelos movimentos sociais? Houve também o “Fora Lula”. E agora há o “Fora Dilma”. Esse tipo de clamor e manifestação faz parte da história de nossa jovem democracia.

Contudo, algumas coisas nessa onda de pedir impeachment de Dilma  me chamam a atenção.

Acho estranho o fato de o movimento pró impeachment acontecer poucos meses depois das eleições; também acho estranho o fato de não haver, entre os milhares de manifestantes, pelo menos 1% que votou na Dilma e agora está inconformado com o seu princípio de governo, a ponto de rejeitá-lo por completo; também acho estranho o fato de o pedido dos tais 2 milhões de manifestantes (segundo a notável, respeitável e incorruptível Organizações Globo) ser julgado mais importante que o voto de 54 milhões de brasileiros.

Essas questões, entre tantas outras igualmente importantes, me fazem pensar, pelo menos por enquanto, que esse grande movimento não passa de histeria coletiva de gente que não aceita ser contrariada. São meninos mimados que acreditam que, se forem para as ruas e gritarem “Fora Dilma”, no dia seguinte, seu candidato derrotado nas urnas instantânea e magicamente tomará posse como presidente da república.

Um fato interessante é que essa histeria é um benefício fundamentalmente democrático, um direito inerente à democracia. Inexplicavelmente, alguns mentecaptos desejam a suspensão do direito de gritar “Fora Dilma”. Insisto mais um pouco no assunto pra tentar mostrar o tamanho da merda que é portar um cartaz com os dizeres: “Intervenção Militar Já”. Vai pedir impeachment de um governo militar pra você ver o que acontece?

Invocar golpe militar é uma estupidez lógica (se é que isso seja razoavelmente lógico!) tão banal que qualquer primata é capaz de discerni-la. Imagino que alguns deles, quando veem alguém pedir golpe militar, se sentem muito injustiçados pela natureza: “Como é que uma criatura dessas pode ter vencido a corrida evolutiva?”

Essa multidão que vocifera “Fora Dilma” e que pede intervenção militar é, na verdade, uma massa construída pela mídia, formada por eleitores de Aécio, que, inconformados com o fato de não serem maioria, querem encontrar uma saída para deslegitimar os 54 milhões de votos que elegeram o atual governo. O que essa gente quer não é reforma política. O que quer, de verdade, é uma forma (não democrática) de reverter a derrota na urna. Simples assim.

Quem quer protestar de verdade contra corrupção deve pedir reforma política e o fim urgente do financiamento empresarial das campanhas.

Pense comigo.

Você acha que as empreiteiras investigadas pela operação Lava Jato, que fizeram doação de 98 milhões para as campanhas de Dilma e Aécio, realmente doaram esse dinheiro todo, ou fizeram um empréstimo? Que empresa em sã consciência doa 1 real que seja a alguém?

Você realmente acha que o problema de corrupção que está aí é de um partido específico?

Você realmente acha que a simples derrubada do governo que está aí e/ou uma nova eleição (com custo de mais de 200 milhões por chapa a ser financiado por empresas) vai criar um ambiente imune à corrupção?

Se você acredita que ir pra rua e gritar “Fora Dilma”, “Fora PT”, “Intervenção Militar Já” é um ato de politização, sinto muito em dizer que você é, na projeção mais otimista, uma pessoa bem intencionada, mas profundamente ingênua.

A coisa é muito mais complicada que simplesmente bater o pé e dizer “Fora Dilma”.

Em tempo:

votei em Dilma (mas não sou petista) e estou profundamente decepcionado com esse começo de governo. A composição ministerial, as alianças com setores e alas políticas conservadoras, o pacote econômico, entre outras questões, são ações realmente muito diferentes do que eu esperava. Nesse sentido, se houver uma manifestação que apresente pautas concretas que apontem para a reinvenção do sistema político brasileiro (e na qual não haja primatas pedindo intervenção militar), estarei lá, com certeza.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre deuses, pássaros e gaiolas [por Rubem Alves]


Rubem Alves*

Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”. Deus “ele”, masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A Igreja Católica não conhece a mulher... Conhece apenas a 'mãe' que foi mãe sem ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos houve que disseram que Deus é uma criança que nos convida a brincar... Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Se tenho uma religião ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta:

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea de sua garganta,
 mais leve. E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto, mais leve...

Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim...
  
“Era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: ‘Tenho de ir’. A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. ‘Menina’, disse-lhe o pássaro, ‘aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar...’ E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: ‘Agora ele será meu para sempre’. Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe”.
  
A estória termina na ausência do pássaro e a menina se enfeitando para a sua volta. Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna... Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta... Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas.

O Pássaro Encantado não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta... Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu voo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade – ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço: “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E voo com ele...

Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro...

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas... O que as religiões desejam é transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria...

Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto.

À transformação da poesia em manipulação milagreira, os profetas deram o nome de idolatria.

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*Alves, Rubem. Um mundo num grão de areia: o ser humano e seu universo. Campinas: Verus, 2002. p. 17-22.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Escrever é se revoltar


Sou um amedrontado pela página em branco, uma superfície sempre arriscada.
Heleno Godoy [1]

Existem razões para escrever? Não sei. Só sei que escrever é um mistério e uma fonte-foz de angústia.

Quando falo de escrever, obviamente não estou falando de escrever um artigo acadêmico, um relatório técnico ou qualquer coisa ligada ao mundo do trabalho e das obrigações. Estou falando da escrita que não se paga, que não tem função explícita, que não é encomendada. Existe uma escrita que é economicamente desnecessária e desprovida de pretensão-função educativa. É dessa que estou falando.

Penso que algumas pessoas escrevem simplesmente porque estão programadas pra escrever. Existe nelas uma base artística que controla os fluxos da escrita.

Ainda não dispomos de conhecimento suficiente para discernir-descrever a natureza desse sistema. Também não sabemos quem o engastou na alma da pessoa e por que razão fez isso. O fato é que há, em algumas pessoas, uma disposição perfeita, indomável e inadiável pra escrever.

Nessas pessoas, quando os gatilhos e comandos do texto são disparados, não há outra coisa a fazer senão escrever. Não se pode negar um texto a uma alma que é dotada de criação literária. Quando as palavras acordam, uma tremenda balbúrdia se instala na alma; só uma tela em branco clamando por um texto pode salvá-la.

Há outras pessoas que escrevem porque sentem a necessidade de escrever. Essas pessoas não são programadas pra escrever. O texto não irrompe, não está pronto. Na verdade, pede para ser construído. E, como ele não é fruto de ação espontânea, precisa ser pensado, mexido, acariciado, namorado e, sangrentamente, elaborado.

Quando não se tem uma base interna que empurra o texto para fora a qualquer custo, o esforço para gerá-lo é sempre absurdo e cruel. Sentir necessidade de escrever é diferente de, simplesmente, se pôr a escrever, de ser captado por um texto que já está pronto na alma.

A necessidade da escrita torna consciente o seguinte problema: existe um texto reivindicando ser escrito, mas não há matéria e ação espontânea para isso. Na verdade, não é bem um texto que pede para ser escrito; é um monte de palavras que pedem para vazar. Cabe à pessoa a tarefa atroz de ordená-las, textualizá-las.

A diferença entre ser captado pelo texto e sentir necessidade de escrever pode ser descrita mais ou mesmos assim. Quem escreve porque está programado pra escrever não precisa elaborar o texto; precisa apenas pari-lo, pôr para fora. Ele já está gerado nas entranhas. Quem escreve porque sente necessidade escrever precisa dolorosamente fabricar o texto; precisa travar uma luta com um bando de palavras insurgentes e xucras. É preciso desembaralhá-las, domesticá-las. Escrever é, nesse caso, fazer o pensamento sangrar; é fazer o espírito criar algo para o qual ele não está equipado.

Quem escreve por necessidade
contraria o destino,
ensaia e encarna uma dissidência,
se embrenha numa revolta contra uma ausência inexplicável.


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[1] Godoy, Heleno.  Leituras de ficção e outras leituras. Goiânia: Ed. PUC-GO/Kelps, 2011. p. 75.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Diálogo com Osvaldo L. Ribeiro sobre o discurso autoral


Sostenes Lima:
Quando a gente escreve alguma coisa, algo de nós se desnuda;
Algo de nós se desgruda e toma forma autônoma.  O texto, uma vez escrito, segue o seu próprio caminho.

Osvaldo Luiz Ribeiro:
A questão que me interessa, e só ela, é:
- o que você falou e pôs lá, sua fala e discurso, continua lá, a despeito da deriva dessa jangada no mar polissêmico?
- se sim, ela ainda pode ser recuperada?

Sostenes Lima:
Questões interessantes. Vamos ao que penso sobre elas:
1. O sujeito enunciador jamais pode ser apagado do texto. Ele e seu entorno discursivo (identidade, relações, ideologia, crenças etc.) estão irredutivelmente inscritos no texto. Mas há um problema. O texto - se considerarmos apenas a sua materialidade - permanece inalterado no tempo, apesar das mudanças inevitáveis do sujeito enunciador e dos sujeitos coenunciadores. Isso quer dizer que o autor de um texto, passado algum tempo, não existe mais na história. Outro sujeito se erige sobre suas memórias e sobre seus escombros históricos. Quando produzimos um texto, devemos estar cientes de que, mais cedo ou mais tarde, não seremos mais o autor daquele texto, uma vez que discursivamente já teremos nos tornado outro enunciador, atravessado por outras redes e formações discursivas.
2. Disso conclui-se que o discurso autoral realizado num texto só pode ser recuperado à luz de uma retrospectiva histórica. O que eu disse em um texto há algum tempo só pode ser atribuído a mim atualmente de um ponto de vista material e jurídico. De um ponto de vista discursivo, o texto já é outro (uma vez que as condições de leitura são outras) e o autor também é outro (uma vez que estou ligado a uma nova configuração sociodiscursiva e histórica).

Osvaldo Luiz Ribeiro:
De tudo o que você disse, tudo muito óbvio, o que faz de você um positivista, como dizem que eu sou, e um fundamentalista, por quem também me tratam, é que você manteve a possibilidade, pelo viés histórico, da tentativa de recuperação do discurso autoral: "Disso conclui-se que o discurso autoral realizado num texto só pode ser recuperado à luz de uma retrospectiva histórica".
Positivista fundamentalista igual a mim...
Seja como for, só isso me interessa: a arqueologia do sentido autoral.

Sostenes Lima:
Embora eu seja (rs), não sei bem o que é ser um positivista. Considerando o texto acima como material de análise, em que consiste exatamente o meu (e o seu) positivismo?

Osvaldo Luiz Ribeiro:
Exatamente nisso - em acreditar que é possível tentar recuperar o discurso autoral - positivismo e fundamentalismo, porque você pressupõe "objetividade" da busca/pesquisa e "fundamentos discursivos fixos em códigos"... Acredite. Não foi nem uma nem duas pessoas que já me disseram isso, entre risos que Freud ensinou a dar...