sábado, 30 de agosto de 2014

Será que sou mais um vagabundo?*


por Marcelo Andrade**

Esta pergunta sempre ronda a minha cabeça quando escuto dizer que quem recebe bolsa do Estado – em especial as do Programa Bolsa Família – são “acomodados” e que dispensam o trabalho para ficar na“vagabundagem”. Após uma conversa animada com amigos sobre a importância do Programa Bolsa Família, resolvi assumir que também sou mais um “vagabundo” que recebeu e recebe bolsa do Estado.

Considerei as diferentes bolsas de estudos que recebi e fiz as contas da minha “vagabundagem”. Em valores corrigidos e/ou equivalentes, eu sou um “acomodado” que teve o seguinte custo aos cofres públicos:

- 2 anos de Bolsa de Iniciação Científica, CNPq (24 x 400,00 = 9.600,00).
- 2 anos de Bolsa de Aperfeiçoamento em Pesquisa (24 x 550,00 = 13.200,00). Esta modalidade de bolsa foi extinta pelo CNPq, mas à época (1996-1998) era equivalente à Bolsa de Apoio Técnico, valor que foi aqui considerado.
- 2 anos de Bolsa de Mestrado, CAPES (24 x 1.500,00 = 36.000,00).
- 2 anos de Bolsa de Doutorado no País, CNPq (24 x 2.200,00 = 52.800,00).
- 2 anos de Taxa de Bancada de Doutorado no País (24 x 394,00 = 9.456,00). Este valor é uma vantagem da Bolsa do CNPq em relação à da CAPES. Como fui um dos melhores colocados no Curso de Doutorado, fui “agraciado” com uma bolsa mais vantajosa.
- 1 ano de Bolsa de Doutorado Faperj Nota 10 (12 x 3.050,00 = 36.600,00). Bolsa do Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) que é uma distinção para estudantes de doutorado que apresentam os melhores desempenhos acadêmicos.
- 1 ano de Bolsa de Doutorado no Exterior, CNPq (13 x 4.160,00 (1.300 Euros) = 54.080,00), sim eles pagam uma mensalidade a mais considerada como Auxílio Instalação. (Considerei a seguinte correlação 1 Euro = 3,20 Reais).
- 3 anos de Bolsa de Produtividade em Pesquisa, CNPq (36 x 1.100,00= 39.600,00).
- 3 anos de Bolsa Jovem Cientista, Faperj (36 x 2.100,00 = 75.600,00).

Em 20 anos, recebi, em valores corrigidos, R$ 326.936,00. São aproximadamente R$ 1.362,24 por mês. Mas, na verdade, nunca me chamaram de “vagabundo” e muito menos consideraram que estava recebendo uma bolsa para ficar “acomodado”.

Após a revelação dessas cifras, meus amigos começaram a fazer várias ponderações a fim de me remover desta terrível convicção, ou seja, de que eu sou um vagabundo e, ainda por cima, durante duas décadas.

“Ah, eram bolsas para você estudar e não ficar sem fazer nada!” Sim, é verdade. Mas, por favor, não esqueçam que o Programa Bolsa Família exige que as crianças estejam matriculadas e frequentando a escola. Então, a meu ver, também funciona com uma bolsa de incentivo aos estudos. Estar matriculado e frequentando a escola não significa necessariamente que alguém aprenda algo, mas sem matrícula e frequência me parece óbvio que a escolarização esperada não poderá acontecer.

“Ah, mas foi um investimento público para formar um pesquisador que iria trabalhar pelo país!” Em primeiro lugar, vale lembrar que o Programa Bolsa Família tem sido decisivo para diminuir os níveis de analfabetismo e evasão escolar em nosso país. Criança que não frequenta a escola tem menos possibilidades de aprender a ler e, consequentemente, de terminar a educação básica. Sem educação básica, ninguém poderá se profissionalizar, quanto mais pensar em ser pesquisador. Em segundo lugar, é bom registrar que muitos pesquisadores formados com recursos públicos não se fixaram no país e foram trabalhar em centros de referências do exterior, mas poucas pessoas consideram que eles são vagabundos que lesaram o país. Por fim, se o país não forma seus recursos humanos os melhores postos de trabalhos ofertados ficam vagos ou disponíveis a profissionais de outros países. Sabemos que hoje, por exemplo, precisamos “importar” médicos e engenheiros. Se muitos não começarem lá na educação básica alguns tantos não chegarão ao ensino superior e não prestarão um serviço profissional que todos nós precisamos, tais como medicina e engenharia. Alguém, realmente, pode acreditar, então, que manter crianças na escola é formar uma geração de vagabundos?

“Ah, mas era para você gastar em pesquisa, gerar conhecimento!” As bolsas que recebi sempre exigiram um relatório final, mas não, necessariamente, uma prestação de contas sobre como e em que gastei o recurso. Com exceções da Taxa de Bancada do Doutorado e da Bolsa Jovem Cientista, nunca tive que comprovar em que exatamente gastei o dinheiro. Tive sim que apresentar os trabalhos finais (dissertação, tese, relatórios de pesquisa), tal como o beneficiário do Bolsa Família precisa comprovar a frequência escolar e a vacinação dos filhos. No caso das bolsas de estudo e de pesquisa, pode-se, inclusive, gastar com “sexo, drogas e rock'n roll”, ao contrário da Bolsa Família que o cartão magnético não pode ser usado na compra de cigarros, bebidas alcoólicas ou em outros itens considerados não essenciais. O que quero dizer é que o controle sobre os gastos do Programa Bolsa Família são bastante rígidos, o que na maioria das vezes não acontece com algumas modalidades de bolsas de estudos. Vale lembrar ainda que nunca pediram minha caderneta de vacinação, ou seja, pude receber as bolsas de estudo como um investimento para o país e se quisesse poderia não se preocupar com a minha saúde, o que seria um desperdício de dinheiro público. Imagine que é possível o investimento de dinheiro público na formação de um profissional que poderia não dar o devido retorno pelo simples fato de não cuidar de sua saúde e não viver suficiente para prestar o serviço para o qual foi formado.

“Ah, mas você é um cara que tem consciência, soube aproveitar as oportunidades!” Nem deveria responder a esta ponderação, pois o pressuposto é que pessoas pobres não sabem aproveitar as oportunidades. Vim de uma família muito simples, de gente trabalhadora e com poucos recursos. Meus pais tinham poucos anos de escolaridade e tiveram oito filhos. Sem as bolsas de estudo não poderia ter chegado aonde cheguei e nem teria ajudado outros a avançar socialmente. Se tivessem lançado sobre mim a dúvida que não era merecedor das bolsas, talvez, eu tivesse acreditado, desde muito jovem, que era um “vagabundo mamando nas tetas do governo”, só para ficar estudando. Mas, ao contrário, o privilégio (sim, bolsas de estudo num país de gente que passa fome é um privilégio) de receber uma bolsa de estudo nunca me trouxe nenhum rótulo negativo, mas me impulsionou, desde a iniciação científica, a estudar mais.

“Ah, mas estas bolsas não estimulavam você ter mais filhos e se manter na pobreza”. As pesquisas sobre controle demográfico apontam que quanto mais uma população é escolarizada maior é o controle sobre a natalidade, ou seja, o melhor “anticoncepcional” que existe é aumentar o nível educacional da população, principalmente das mulheres. Assim, acredito que, em longo prazo, a Bolsa Família ajudará no controle da natalidade, se isso for realmente um problema.

Após as ponderações de meus amigos, conclui que investimento que exige como contrapartida mais educação e cuidado com a saúde não poderia formar uma geração de vagabundos. Tenho clareza que os fundos de pesquisa dos quais participei formou uma geração de pesquisadores e, muitos deles, fortemente comprometidos com o país. Se investimento público em estudos gera vagabundos, então, eu sou um deles. E há muitos outros por aí. Alguns, inclusive, contrários à Bolsa Família.

Estas breves reflexões sobre minhas bolsas de estudos e o Programa Bolsa Família foram publicadas numa rede social. O texto alcançou mais de 22 mil compartilhamentos em pouco mais de uma semana. Nunca pensei que um depoimento meu pudesse interessar tanta gente. Pude acompanhar o que outras pessoas (maioria de desconhecidos para mim) vinculam ao meu texto. A maioria concorda, agradece os argumentos e parabeniza por divulgar os valores, que para muita gente é um tanto misterioso. Na verdade, os valores são públicos e é fácil chegar a esta conta vendo o Currículo Lattes de cada pesquisador. Por outro lado, alguns me acusam de defensor do governo, de assistencialista ou esmoleiro. Não sou filiado a nenhum partido político e não fiz defesa de nenhum governo, mas de um programa de transferência de renda mínima vinculada à educação e saúde que, aliás, atravessa governos, de um e de outro partido.

Só quis mostrar que, a meu juízo, o Programa Bolsa Família não é um incentivo à vagabundagem. Não acho que seja “dar o peixe”, mas sim “ensinar a pescar”, já que fortalece o ingresso e a permanência de crianças pobres na escola. Por que manter crianças na escola – especialmente as mais pobres – seria“dar o peixe”? Ir à escola não seria uma das maneiras mais importante de “ensinar a pescar”? Com este simples incentivo, as crianças mais pobres podem se manter na escola e o trabalho infantil – que, durante gerações, condenou-os ao ciclo de baixa escolaridade, pouca profissionalização e baixos rendimentos – deixa de ser uma alternativa atraente. Além disso, parece-me uma contradição ser a favor de mais educação e mais saúde e ser contra um programa que mantém crianças pobres frequentando a escola e com a vacinação em dia.

Ninguém – nunca, jamais – fez um julgamento pejorativo sobre o fato de eu ser bolsista da CAPES, CNPq ou FAPERJ. Ninguém nunca me chamou de vagabundo por isso. Sempre me olharam com respeito por eu ter uma bolsa de estudos. Mas, se algo semelhante é feito para os mais pobres é esmola. Como assim?! Minha hipótese é que as bolsas de estudo e pesquisa envolvem um argumento um tanto confuso sobre o “mérito” enquanto a Bolsa Família é, a meu juízo, uma clara ação de justiça social, de tentativa da promoção de igualdade. Assim, numa sociedade na qual o mérito vale mais que a justiça e a igualdade, eu me tornei um bolsista “respeitável” e os que recebem Bolsa Família são pejorativamente “estigmatizáveis”, ou seja, são “vagabundos” e “acomodados”.

Lamento, sinceramente, em perceber que neste país o mérito e os privilégios dele derivados sejam mais valorizados que a justiça e a igualdade. Acho que isso sim é uma inversão de valores. Sempre aprendi que a justiça seria a promoção das melhores condições para todos e não apenas para aqueles que supostamente são os mais capazes para usufruir das melhores oportunidades.

Depois dessas reflexões duas novas questões me surgiram: (a) se eu posso receber bolsa para pesquisar a escola, por que o menino e a menina que mais precisam da escola não podem receber uma bolsa mínima para ir à mesma escola que pesquiso e sou remunerado para isso? (b) será que, na verdade, me tornei um vagabundo e me levaram a crer que eu era um pesquisador “respeitável”? Vou continuar me questionando sobre isso.

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* Texto publicado em: Andrade, Marcelo. Será que sou mais um vagabundo? Jornal do professor, Goiânia, Adufg, ano III, n. 16, p. 3, jul./ago. 2014.


** Licenciado em Filosofia (1995), História (1996) e Sociologia (1996); Mestre em Educação (2000) e Doutor em Ciências Humanas (2006) pela PUC-Rio e a Universitat de València (Espanha). Bolsista do Programa Jovem Cientista (Faperj) e Bolsista de Produtividade em Pesquisa (CNPq). Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-Rio. E-mails: marcelo-andrade@puc-rio.br; marcelo.andrade@pesquisador.cnpq.br.