quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Quanto vale um voto?


Numa democracia, um voto vale um voto e nada mais que isso. Não há absolutamente nada que agregue valor a um voto individual ou a um conjunto de votos. Nenhum fator (geográfico, econômico, social, cultural, político, ideológico, étnico etc.) confere qualificação ao voto.

Voto de petralha vale um voto; voto de coxinha vale um voto. Na verdade, ao ser computado, o voto lança fora a história e as feições ideológicas do eleitor, tornando-se um número na multidão dos números. Embora isso seja uma obviedade quase infantil, ainda temos certa dificuldade de aceitar que o voto do outro seja tão legítimo quanto o nosso. E eleitores que acumulam algum tipo de poder simbólico – por exemplo, econômico, geográfico ou cultural – têm ainda mais dificuldade de lidar com essa obviedade.

Quem realmente reverencia a democracia respeita e exige respeito pela isonomia do voto. Quem realmente entende o que significa viver num país democrático jamais aceita qualquer tipo de desqualificação do voto alheio.

Numa democracia, não existe voto nordestino ou voto paulista. Existe o voto brasileiro simplesmente, sem nenhuma roupagem geográfica.

Quem considera o próprio voto superior, por qualquer razão que seja, precisa urgentemente de educação política.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Não quero plantar ódio


Noss@s filh@s tendem a seguir nossos posicionamentos ideológicos; tendem a se identificar com @s candidat@s n@s quais votamos. Acho isso legal. Fico feliz em ver minha filha dizer que vota (mesmo não votando) n@ candidat@ em quem voto. Isso me diz que estou conseguindo passar a ela certos valores sociais e políticos que são importantes para mim. Considero o voto uma ação de cidadania e, em muitos casos, de justiça social. Ver que ela se identifica com minhas escolhas é muito gratificante.

Mas nossa capacidade de influenciar noss@s filh@s não está cercada apenas de coisas boas.  Nossa força de influência (política, ideológica, ética, religiosa etc.) pode dar abrigo a um monstro devastador, o ódio.

As eleições deste ano já superam as de 1989 na propagação do ódio. Eu era criança quando Lula enfrentou Collor. Me lembro vagamente do quanto a campanha de Collor foi efetiva na propagação de ódio e de fobia ao suposto comunismo do PT. Mas imagino que aquela disputa perde feio para a campanha de ódio mútuo que está em curso no momento.

A coisa está tão séria que a formação política de nossas crianças está descambando para o cultivo do ódio. Uma coisa é uma criança se identificar afetivamente com @ candidat@ d@ pai/mãe, outra coisa, bem diferente, é uma criança desenvolver ódio a algum@ candidat@ adversário. Infelizmente, tenho visto pais/mães mostrando nas redes sociais, como uma espécie de troféu, @s filh@s vociferando ódio e fobia a algum@ candidat@. Fico triste.

Cultivar o ódio é algo abjeto e irreversível. Plantar no coração de uma criança a semente do ódio por alguém é, para mim, algo irracional e execrável. Creio que muit@s pais/mães fazem isso sem refletir, sem pensar nas consequências e implicações dessa atitude na formação ética d@ filh@. E a coisa fica muito pior quando @ pai/mãe, que está gestando o ódio n@ filh@, se identifica como cristão. É  uma desfaçatez descomunal.

Quero muito que minhas filhas se identifiquem com as minhas posições ideológicas e com @s candidat@s n@s quais voto, mas vou lutar muito para que os meus ódios (eu tenho, você tem, todo mundo tem... "só a bailarina que não tem") jamais sejam transmitidos a elas. Sei que não vou conseguir eliminar a transferência de todos, mas vou lutar. Quero influenciá-las por meio da afirmação e do afeto positivo. Eu não quero ser um plantador de ódio.

P.S. Não precisa jogar na minha cara que minhas postagens, às vezes, desferem rajadas de ódio, especialmente contra um segmento da classe média brasileira, como a que está presente no texto "Como pensa um sujeito típico da classe média". Eu sei. Faço isso por não suportar ver as manifestações de ódio dessa gente contra as minorias (étnicas, religiosas, sexuais etc.) e contra os pobres. Não precisa me dizer que, ao fazer isso, acabo me enroscando numa tremenda contradição. Tenho consciência disso. Usar ódio no combate ao ódio não é só uma contradição filosófica; é um erro ético elementar. Não me orgulho do que eu faço.

domingo, 12 de outubro de 2014

A vergonha que não podemos mais ter: renovando a esperança*


por Josimar A. de Alcântara Mendes**

No ano de 1987, regido pelo signo de Peixes, eu vim a este mundo durante as águas de março. Filho de uma mãe que fugiu da família opressora e violenta do interior de Minas, eu nasci como o caçula de uma família que se reorganizava após um divórcio.

No ano em que nasci, o nosso país estava em um franco processo de redemocratização, após anos de Ditadura Militar. Os livros de História contam que a esperança voltava aos corações de nossos pais, mães e avós.

Aí veio Tancredo, depois Sarney e em seguida Collor. A esperança minguava de novo nos corações. Depois veio o Itamar e o Plano Real, o qual levou o Sr. Fernando Henrique Cardoso à Presidência do nosso país.

Nos idos de 1994, eu tinha apenas os meus tenros 7 anos de idade. Não sabia o que era inflação e nunca pude imaginar e/ou dimensionar os sacrifícios que uma mãe solteira com três filhos tinha que fazer para sustentar a sua família com a tal inflação chegando aos 900% ao ano.

Mas eu sempre soube o que era pobreza. Fui pobre, sim. E por mais piegas que possa ser, devo dizer que era "pobre no bolso, mas rico no coração e na alma". E era isso que, naquela época, me fazia olhar para a pobreza com um olhar ingênuo e até encantado.

Minha mãe sempre trabalhou muito como diarista, fazendo o imenso, doloroso, mas necessário, sacrifício que todas as diaristas têm que fazer: deixar de cuidar da própria casa e dos próprios filhos para cuidar da casa e dos filhos dos outros. Outro sacrifício que fazia era rebolar para pagar o aluguel e, ao mesmo tempo, alimentar os três filhos. Tarefa difícil naquela época. Sem escolha - como quase nenhum pobre tinha naquela época -, minha mãe decidiu mudar-se de Sobradinho, cidade satélite a uns 20km da capital do país, Brasília. Nós iríamos para o recém-implantando "assentamento" que havia sido feito por um governador populista da época. Mudamos para Sobradinho II - na época apelidada de Agreste, não apenas em alusão à famosa novela da época, mas também um retrato fiel das condições que a cidade apresentava - ou melhor, não apresentava: não tinha esgoto, não tinha água, não tinha luz, não tinha asfalto, não tinha acesso à educação... não tinha nada (parece até a prima pobre daquela "casa muito engraçada" das cantigas infantis).

Em um ato, o qual eu só posso classificar como de coragem e força (o que os pobres precisavam ter e muito naquela época), minha mãe alugou um caminhão de mudança, colocou todos os poucos pertences que tinha e os três filhos pequenos dentro. Lembro de ir com ela em seu colo. A percepção pueril do mundo fazia-me ver aquilo como uma excitante aventura - e devo dizer que a pobreza foi assim para mim durante grande parte da minha infância.

O caminhão ia desbravando o assentamento. Minha mãe estava determinada a achar o melhor lugar para ficarmos. Em uma dada rua, mais precisamente no fim dessa rua, em um terreno baldio, minha mãe deu a ordem com firmeza: é aqui! O caminhão parou, descarregou as coisas no barro e poeira vermelha. Não me lembro muito bem, mas minha mãe já havia acertado com alguns conhecidos para ajudá-la a construir o barraco de madeira que, a partir dali, chamaríamos de lar – os governantes chamariam de invasão de terreno público. Enquanto ela arregimentava a mão de obra e as folhas de madeirite, eu me entretia com o chafariz, única fonte de água para as pessoas que moravam ali – depois entendi que aquele local escolhido, não era por acaso; minha havia escolhido ele sabiamente, pois, assim, teríamos acesso rápido e fácil à água. O fim do dia chegou e com ele a nossa nova casa. Era um barraco com aproximadamente 20 metros quadrados com o chão de terra vermelha batida e ainda sem banheiro. Ali havia uma cama (a qual eu e minha mãe dividíamos) um beliche, onde os meus dois irmãos mais velhos ficavam, um guarda-roupa velho e um fogão meio surrado. Não tínhamos TV, nem geladeira e nem adiantaria, pois não havia energia.

Tenho muitas lembranças daquela época. Lembro da conivência difícil com as formigas saúvas, moradoras originais daquele terreno que insistiam em dividir o barraco conosco – todo domingo, a minha mãe fazia a feira e na lista sempre tinha o veneno para matar as saúvas, mas elas resistiram bravamente até o dia em que foi feito um piso de cimento queimado lá em casa. Lembro dos banhos de caneca e bacia; do dia em que foram cavar a fossa lá de casa e como eu me divertir com todo aquele barro vermelho, entrando e saindo do buraco; lembro dos banhos de chafariz no final de tarde de céu amarelado, antes de minha mãe chegar do trabalho – quando o sol de punha, era quando ela chegava; lembro da brincadeira de rua com os colegas de infância... lembro de tudo isso com uma memória viva de alegria e encanto diante da vida, mesmo cercado pela violência que a pobreza e insalubridade podem gerar, pelas drogas e violência estatal (ora instrumentalizada pela própria polícia – lembro-me de, pelo menos, três episódios de violência e abuso policial que presenciei quando criança; ora pelos agentes da TERRACAP que, mais de uma vez, vieram para derrubar o nosso barraco, mas nunca o fizeram, graças a Deus!).

Um belo dia, aprendi que ser pobre era ruim. Aprendi a ter vergonha de ser quem eu era e, principalmente, de onde eu morava. Na primeira série, o encanto pela pobreza já tinha acabado, agora eu só tinha a dureza de perceber o quanto aquilo tudo era sofrido e o quanto eu tinha vergonha. Hoje sinto que, naquela época, os pobres tinham que ser não somente pobres e ficarem à própria sorte, mas também a ter vergonha disso. A vergonha era sustentada, legitimada e reforçada nos mais diversos espaços sociais, inclusive na escola.

Em um dia de chuva, o pai de uma colega da escola se ofereceu para me levar de carro até em casa. Aceitei o convite, mas chegando na minha rua, senti uma angústia, uma ansiedade, um incômodo. Era a vergonha me lembrando que eu era pobre e do quanto que eu não queria que eles vissem o barraco aonde eu morava. No meio da rua, aproveitando o lamaçal que se fazia toda vez que chovia, eu pedi a ele: "pode parar aqui, não vai dar para passar!" Daí ele perguntou: "mas aonde é a sua casa?" Pego de surpresa, a única reação que eu pude ter foi apontar para uma casa que ficava perto da minha. Feita de tijolos, com muro, portão e um pequeno sobrado. “É ali que eu moro”, eu disse. Desde aquele dia, aquela passara a ser a minha casa para os amigos da escola. Eu tinha vergonha de onde morava e de ser pobre.

Hoje eu me pergunto que país era aquele onde as pessoas além de serem relegadas à pobreza e a própria sorte dos poucos recursos que tinham, deviam ter vergonha de ser daquele jeito, de morar naquele lugar, de não ter dinheiro e nem condições e se conformarem com isso. Hoje eu sei que essa é uma das mais poderosas tecnologias de dominação e exercício de poder já criadas e que Foucault nenhum botaria defeito!

Na escola não era diferente. Lembro de uma professora de Matemática que, durante um dos seus constantes rompantes histéricos, disse a todos da turma: “vocês são burros mesmo! Não têm jeito, aqui todo mundo vai ser ou lavadeira ou caixa de supermercado”. Os alunos ressentiam calados, resignados enquanto viam a vergonha de sua pobreza ser, mais uma vez, legitimada e reforçada.

Não se pode negar que as políticas públicas da época não tinham qualquer preocupação com essa situação. Reduzir as desigualdades sociais, empoderando socioeconomicamente os menos favorecidos nunca fez sentido, pois isso contrariava a própria lógica de dominação estabelecida.

A primeira vez que eu e minha família fomos beneficiados por alguma política pública efetiva foi durante o mandato do ex-governador Cristovam Buarque, na época integrante do Partido dos Trabalhadores – PT. Cristovam implementou o programa Bolsa Escola – que foi um dos programas embrionários do Bolsa Família. Com o primeiro benefício que recebemos, a minha mãe pôde comprar uma geladeira lá para casa - a qual perdura até hoje! Antes disso, a comida tinha que ser feita para o dia e os alimentos perecíveis eram guardados nas casas dos vizinhos que tinham geladeira e se disponibilizavam a nos ajudar. Pouco tempo antes, havia chegado água encanada e energia elétrica lá em casa. Ainda consigo lembrar da minha excitação e alegria em tomar banho com chuveiro quente. Mas a maior alegria estava por vir. Não tínhamos TV em casa e, a exemplo da geladeira, a gente partilhava da TV que tinha na casa dos vizinhos. Com o segundo benefício do Bolsa Escola, minha mãe comprou a TV. Eu não pude acreditar! Ter uma TV em casa era algo quase mágico, poder assistir os meus desenhos na minha própria casa, era um verdadeiro sentimento de dignidade.

Eu sempre gostei de estudar, mas a legitimidade que o governo dava para aquilo, por meio daquele benefício social que tanto ajudava a minha família, era um grande reforço para seguir no caminho dos estudos. Com o incentivo do Bolsa Escola, eu segui firme nos estudos, terminando o Ensino Fundamental. Quando entrei para o Ensino Médio, não havia mais nenhum benefício social que me incentivasse, mas havia o benefício da mudança social que se instalava no país com a eleição do ex-presidente Lula. Naquela época, eu já sabia que as coisas já estavam mudando, mas que eu só poderia vencer por meio dos estudos.

Assim que terminei o Ensino Médio, me vi meio sem rumo. Não tinha perspectiva, pois apesar de querer entrar para a Universidade, sabia que não seria fácil. Cheguei a cursar dois semestres de cursinho pré-vestibular com bolsa de 80%, custeada por uma amiga professora da Universidade de Brasília – UnB, já que a minha mãe não poderia pagar. Mas não consegui obter a aprovação, devido à alta concorrência. Era como se eu estivesse vendo a materialização perversa da profecia do mal que aquela professora de matemática havia feito anos atrás. Mas o ano de 2005 começou com boas notícias e uma delas foi a de que eu havia sido contemplado com uma bolsa integral no Programa Universidade para Todos – ProUni para cursar Psicologia na Universidade Católica de Brasília. Eu não consigo descrever a minha emoção e alegria quando recebi a notícia. Naquele instante, naquele exato momento, eu começava a me despir de vez da vergonha de ter o estigma de ser pobre.

Mas os movimentos instituídos de legitimação da vergonha ainda se faziam presentes. Certa vez, eu estava conversando com uma amiga que havia ingressado na UnB. Daí um homem da comunidade nos abordou, nos deu os parabéns pela conquista da Universidade, mas aconselhou severamente a minha amiga: “mas olha, não fala para eles lá que você é daqui, não viu? Eles vão te descriminar!” Essa mesma realidade eu encontrei quando, junto com essa amiga, montei um projeto voluntário, no qual eu voltava a minha antiga escola de Ensino Médio e palestrava para os alunos sobre a importância de estudar e as formas de ingressar na Universidade. O maior desafio era ajudá-los a perceber que eles, apesar dos pesares, de também serem pobres e morar ali, tinham todo o direito de querer entrar e poder entrar na Universidade.

Após cinco anos e meio de muitas dificuldades e com ajuda muita de gente que acreditou em mim, finalmente eu consegui me formar como Bacharel em Psicologia no primeiro semestre de 2011. Depois de formado, me vi, mais uma vez, em uma situação difícil, precisava trabalhar, mas queria continuar a minha formação. Em um ato de coragem, decidi me inscrever na seleção do mestrado da UnB. Graças ao programa de reestruturação e ampliação das Universidades, o REUNI, o qual ampliou o número de vagas, eu passei no processo seletivo e dei início ao meu curso de mestrado. Mas ainda tinha um problema: como me manter no mestrado e na própria vida sem dinheiro? Após um mês de mestrado, eu passei em uma seleção para professor temporário do Instituto Federal de Brasília – IFB, que estava se expandido pelo DF, graças ao fomento do Governo Federal. Um ano e meio depois, também comecei a dar aula no PRONATEC, pelo IFB.

Eu sempre soube que seria professor, mas a experiência no IFB não apenas consolidou essa certeza, como também a paixão por lecionar, algo que quero continuar a fazer até quando o corpo e a mente me permitirem.

No ano de 2013, eu terminei o meu mestrado. Lá estava eu, o filho pobre de uma diarista que estudou só até a quarta série; com irmãos que sequer conseguiram terminar o Ensino Fundamental; que morou e ainda morava em um barraco de madeira... concluindo um curso de pós-graduação. Eu nunca vou esquecer do dia 18 de outubro de 2013, o dia da minha defesa de dissertação de mestrado. Ao final, ao receber o título de Mestre em Psicologia, eu agradeci com o coração e lágrimas a Deus e a todos os presentes – que, de alguma forma, contribuíram para eu chegar até ali. Eu agradecia também como o cidadão de um país, aonde existia um governo que acreditava em seus cidadãos, em especial os menos desfavorecidos que, historicamente, sempre foram renegados e explorados em nosso país.

Hoje eu trabalho em um dos Ministérios da Esplanada aqui em Brasília e sou Professor de uma Instituição de Ensino Superior. Com os meus dois empregos, eu pude comprar o meu carro e estou tirando carteira. Mas o mais importante, depois de 20 anos, eu pude livrar a mim e a minha mãe da última das vergonhas que os processos históricos de discriminação, segregação e desigualdades sociais de nosso país nos impuseram: daqui a um mês e pouco estará pronta a casa da minha mãe, feita com tijolos, rebocada, com todos os acabamentos a que tem direito, com muro e um portão. É muito importante para mim poder dar a minha mãe, ainda em vida, o mínimo de dignidade que todo ser humano deveria ter: uma casa decente para morar.

Não há como negar que todas essas minhas conquistas, a despeito de fatores pessoais, subjetivos, de contexto e resiliência, só puderam existir graças à mudança socioeconômica que o nosso país vem passando desde 2002. Seguramente, posso dizer que jamais poderia ter chegado até aqui sem essas mudanças. Diminuir as desigualdades é a chave para o crescimento de qualquer país, não só o econômico, mas também, e principalmente, o social.

É notório que o Governo do PT tem os seus calcanhares de Aquiles, como todos os governos anteriores e o que vierem terão. O problema do nosso país são os processos históricos de desigualdades e segregação que fundamentam os valores, culturas e costumes de nosso país e perpetuam perversamente a violência, a discriminação, a corrupção e tantas outras mazelas sociais. A melhor forma de se combater isso é justamente atuar sobre esses processos, desconstruindo eles, ainda que aos poucos. E é isso que o Governo do PT vem fazendo e precisa continuar fazendo com a presidenta Dilma!

O senhor Aécio Neves dissimula boas intenções, mas não pode negar os interesses por trás das ações que o PSDB defende e sempre defendeu. A prova disso é o argumento do Fernando Henrique Cardoso ao dizer que os mais pobres votam na Dilma por serem menos qualificados. Tal discurso escancara sem nenhum temor ou pudor a intenção do PSDB, caso eleito, de retornar os pobres ao lugar de onde nunca deveriam ter saído: o da vergonha, o do alijamento social, econômico e existencial.

Por isso, no dia 26 de outubro de 2014 eu voto na renovação da esperança, voto 13, voto Dilma!

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* Texto recebido via e-mail. A publicação foi autorizada pela próprio autor.
**Josimar A. de Alcântara Mendes  é psicólogo e professor do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB); tem mestrado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB).

sábado, 30 de agosto de 2014

Será que sou mais um vagabundo?*


por Marcelo Andrade**

Esta pergunta sempre ronda a minha cabeça quando escuto dizer que quem recebe bolsa do Estado – em especial as do Programa Bolsa Família – são “acomodados” e que dispensam o trabalho para ficar na“vagabundagem”. Após uma conversa animada com amigos sobre a importância do Programa Bolsa Família, resolvi assumir que também sou mais um “vagabundo” que recebeu e recebe bolsa do Estado.

Considerei as diferentes bolsas de estudos que recebi e fiz as contas da minha “vagabundagem”. Em valores corrigidos e/ou equivalentes, eu sou um “acomodado” que teve o seguinte custo aos cofres públicos:

- 2 anos de Bolsa de Iniciação Científica, CNPq (24 x 400,00 = 9.600,00).
- 2 anos de Bolsa de Aperfeiçoamento em Pesquisa (24 x 550,00 = 13.200,00). Esta modalidade de bolsa foi extinta pelo CNPq, mas à época (1996-1998) era equivalente à Bolsa de Apoio Técnico, valor que foi aqui considerado.
- 2 anos de Bolsa de Mestrado, CAPES (24 x 1.500,00 = 36.000,00).
- 2 anos de Bolsa de Doutorado no País, CNPq (24 x 2.200,00 = 52.800,00).
- 2 anos de Taxa de Bancada de Doutorado no País (24 x 394,00 = 9.456,00). Este valor é uma vantagem da Bolsa do CNPq em relação à da CAPES. Como fui um dos melhores colocados no Curso de Doutorado, fui “agraciado” com uma bolsa mais vantajosa.
- 1 ano de Bolsa de Doutorado Faperj Nota 10 (12 x 3.050,00 = 36.600,00). Bolsa do Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) que é uma distinção para estudantes de doutorado que apresentam os melhores desempenhos acadêmicos.
- 1 ano de Bolsa de Doutorado no Exterior, CNPq (13 x 4.160,00 (1.300 Euros) = 54.080,00), sim eles pagam uma mensalidade a mais considerada como Auxílio Instalação. (Considerei a seguinte correlação 1 Euro = 3,20 Reais).
- 3 anos de Bolsa de Produtividade em Pesquisa, CNPq (36 x 1.100,00= 39.600,00).
- 3 anos de Bolsa Jovem Cientista, Faperj (36 x 2.100,00 = 75.600,00).

Em 20 anos, recebi, em valores corrigidos, R$ 326.936,00. São aproximadamente R$ 1.362,24 por mês. Mas, na verdade, nunca me chamaram de “vagabundo” e muito menos consideraram que estava recebendo uma bolsa para ficar “acomodado”.

Após a revelação dessas cifras, meus amigos começaram a fazer várias ponderações a fim de me remover desta terrível convicção, ou seja, de que eu sou um vagabundo e, ainda por cima, durante duas décadas.

“Ah, eram bolsas para você estudar e não ficar sem fazer nada!” Sim, é verdade. Mas, por favor, não esqueçam que o Programa Bolsa Família exige que as crianças estejam matriculadas e frequentando a escola. Então, a meu ver, também funciona com uma bolsa de incentivo aos estudos. Estar matriculado e frequentando a escola não significa necessariamente que alguém aprenda algo, mas sem matrícula e frequência me parece óbvio que a escolarização esperada não poderá acontecer.

“Ah, mas foi um investimento público para formar um pesquisador que iria trabalhar pelo país!” Em primeiro lugar, vale lembrar que o Programa Bolsa Família tem sido decisivo para diminuir os níveis de analfabetismo e evasão escolar em nosso país. Criança que não frequenta a escola tem menos possibilidades de aprender a ler e, consequentemente, de terminar a educação básica. Sem educação básica, ninguém poderá se profissionalizar, quanto mais pensar em ser pesquisador. Em segundo lugar, é bom registrar que muitos pesquisadores formados com recursos públicos não se fixaram no país e foram trabalhar em centros de referências do exterior, mas poucas pessoas consideram que eles são vagabundos que lesaram o país. Por fim, se o país não forma seus recursos humanos os melhores postos de trabalhos ofertados ficam vagos ou disponíveis a profissionais de outros países. Sabemos que hoje, por exemplo, precisamos “importar” médicos e engenheiros. Se muitos não começarem lá na educação básica alguns tantos não chegarão ao ensino superior e não prestarão um serviço profissional que todos nós precisamos, tais como medicina e engenharia. Alguém, realmente, pode acreditar, então, que manter crianças na escola é formar uma geração de vagabundos?

“Ah, mas era para você gastar em pesquisa, gerar conhecimento!” As bolsas que recebi sempre exigiram um relatório final, mas não, necessariamente, uma prestação de contas sobre como e em que gastei o recurso. Com exceções da Taxa de Bancada do Doutorado e da Bolsa Jovem Cientista, nunca tive que comprovar em que exatamente gastei o dinheiro. Tive sim que apresentar os trabalhos finais (dissertação, tese, relatórios de pesquisa), tal como o beneficiário do Bolsa Família precisa comprovar a frequência escolar e a vacinação dos filhos. No caso das bolsas de estudo e de pesquisa, pode-se, inclusive, gastar com “sexo, drogas e rock'n roll”, ao contrário da Bolsa Família que o cartão magnético não pode ser usado na compra de cigarros, bebidas alcoólicas ou em outros itens considerados não essenciais. O que quero dizer é que o controle sobre os gastos do Programa Bolsa Família são bastante rígidos, o que na maioria das vezes não acontece com algumas modalidades de bolsas de estudos. Vale lembrar ainda que nunca pediram minha caderneta de vacinação, ou seja, pude receber as bolsas de estudo como um investimento para o país e se quisesse poderia não se preocupar com a minha saúde, o que seria um desperdício de dinheiro público. Imagine que é possível o investimento de dinheiro público na formação de um profissional que poderia não dar o devido retorno pelo simples fato de não cuidar de sua saúde e não viver suficiente para prestar o serviço para o qual foi formado.

“Ah, mas você é um cara que tem consciência, soube aproveitar as oportunidades!” Nem deveria responder a esta ponderação, pois o pressuposto é que pessoas pobres não sabem aproveitar as oportunidades. Vim de uma família muito simples, de gente trabalhadora e com poucos recursos. Meus pais tinham poucos anos de escolaridade e tiveram oito filhos. Sem as bolsas de estudo não poderia ter chegado aonde cheguei e nem teria ajudado outros a avançar socialmente. Se tivessem lançado sobre mim a dúvida que não era merecedor das bolsas, talvez, eu tivesse acreditado, desde muito jovem, que era um “vagabundo mamando nas tetas do governo”, só para ficar estudando. Mas, ao contrário, o privilégio (sim, bolsas de estudo num país de gente que passa fome é um privilégio) de receber uma bolsa de estudo nunca me trouxe nenhum rótulo negativo, mas me impulsionou, desde a iniciação científica, a estudar mais.

“Ah, mas estas bolsas não estimulavam você ter mais filhos e se manter na pobreza”. As pesquisas sobre controle demográfico apontam que quanto mais uma população é escolarizada maior é o controle sobre a natalidade, ou seja, o melhor “anticoncepcional” que existe é aumentar o nível educacional da população, principalmente das mulheres. Assim, acredito que, em longo prazo, a Bolsa Família ajudará no controle da natalidade, se isso for realmente um problema.

Após as ponderações de meus amigos, conclui que investimento que exige como contrapartida mais educação e cuidado com a saúde não poderia formar uma geração de vagabundos. Tenho clareza que os fundos de pesquisa dos quais participei formou uma geração de pesquisadores e, muitos deles, fortemente comprometidos com o país. Se investimento público em estudos gera vagabundos, então, eu sou um deles. E há muitos outros por aí. Alguns, inclusive, contrários à Bolsa Família.

Estas breves reflexões sobre minhas bolsas de estudos e o Programa Bolsa Família foram publicadas numa rede social. O texto alcançou mais de 22 mil compartilhamentos em pouco mais de uma semana. Nunca pensei que um depoimento meu pudesse interessar tanta gente. Pude acompanhar o que outras pessoas (maioria de desconhecidos para mim) vinculam ao meu texto. A maioria concorda, agradece os argumentos e parabeniza por divulgar os valores, que para muita gente é um tanto misterioso. Na verdade, os valores são públicos e é fácil chegar a esta conta vendo o Currículo Lattes de cada pesquisador. Por outro lado, alguns me acusam de defensor do governo, de assistencialista ou esmoleiro. Não sou filiado a nenhum partido político e não fiz defesa de nenhum governo, mas de um programa de transferência de renda mínima vinculada à educação e saúde que, aliás, atravessa governos, de um e de outro partido.

Só quis mostrar que, a meu juízo, o Programa Bolsa Família não é um incentivo à vagabundagem. Não acho que seja “dar o peixe”, mas sim “ensinar a pescar”, já que fortalece o ingresso e a permanência de crianças pobres na escola. Por que manter crianças na escola – especialmente as mais pobres – seria“dar o peixe”? Ir à escola não seria uma das maneiras mais importante de “ensinar a pescar”? Com este simples incentivo, as crianças mais pobres podem se manter na escola e o trabalho infantil – que, durante gerações, condenou-os ao ciclo de baixa escolaridade, pouca profissionalização e baixos rendimentos – deixa de ser uma alternativa atraente. Além disso, parece-me uma contradição ser a favor de mais educação e mais saúde e ser contra um programa que mantém crianças pobres frequentando a escola e com a vacinação em dia.

Ninguém – nunca, jamais – fez um julgamento pejorativo sobre o fato de eu ser bolsista da CAPES, CNPq ou FAPERJ. Ninguém nunca me chamou de vagabundo por isso. Sempre me olharam com respeito por eu ter uma bolsa de estudos. Mas, se algo semelhante é feito para os mais pobres é esmola. Como assim?! Minha hipótese é que as bolsas de estudo e pesquisa envolvem um argumento um tanto confuso sobre o “mérito” enquanto a Bolsa Família é, a meu juízo, uma clara ação de justiça social, de tentativa da promoção de igualdade. Assim, numa sociedade na qual o mérito vale mais que a justiça e a igualdade, eu me tornei um bolsista “respeitável” e os que recebem Bolsa Família são pejorativamente “estigmatizáveis”, ou seja, são “vagabundos” e “acomodados”.

Lamento, sinceramente, em perceber que neste país o mérito e os privilégios dele derivados sejam mais valorizados que a justiça e a igualdade. Acho que isso sim é uma inversão de valores. Sempre aprendi que a justiça seria a promoção das melhores condições para todos e não apenas para aqueles que supostamente são os mais capazes para usufruir das melhores oportunidades.

Depois dessas reflexões duas novas questões me surgiram: (a) se eu posso receber bolsa para pesquisar a escola, por que o menino e a menina que mais precisam da escola não podem receber uma bolsa mínima para ir à mesma escola que pesquiso e sou remunerado para isso? (b) será que, na verdade, me tornei um vagabundo e me levaram a crer que eu era um pesquisador “respeitável”? Vou continuar me questionando sobre isso.

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* Texto publicado em: Andrade, Marcelo. Será que sou mais um vagabundo? Jornal do professor, Goiânia, Adufg, ano III, n. 16, p. 3, jul./ago. 2014.


** Licenciado em Filosofia (1995), História (1996) e Sociologia (1996); Mestre em Educação (2000) e Doutor em Ciências Humanas (2006) pela PUC-Rio e a Universitat de València (Espanha). Bolsista do Programa Jovem Cientista (Faperj) e Bolsista de Produtividade em Pesquisa (CNPq). Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-Rio. E-mails: marcelo-andrade@puc-rio.br; marcelo.andrade@pesquisador.cnpq.br.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O jardim do velhinho [por Rubem Alves*]



Era uma vez um velhinho simpático que morava numa casa cercada de jardins. O velhinho amava o seu jardim e cuidava dele pessoalmente. Na verdade fora ele que pessoalmente o plantara – flores de todos os tipos, árvores frutíferas das mais variadas espécies, fontes, cachoeiras, lagos cheios de peixes, patos, gansos, garças. Os pássaros amavam o jardim, faziam seus ninhos em suas árvores e comiam dos seus frutos. As borboletas e abelhas iam de flor em flor, enchendo o espaço com as suas danças. Tão bom era o velhinho que o seu jardim era aberto a todos: crianças, velhos, namorados, adultos cansados. Todos podiam comer de suas frutas e nadar nos seus lagos de águas cristalinas. O jardim do velhinho era um verdadeiro paraíso, um lugar de felicidade.

O velhinho amava todas as criaturas e havia sempre um sorriso manso no seu rosto. Prestando-se um pouco de atenção, era possível ver que havia profundas cicatrizes nas mãos e nas pernas do velhinho. Contava-se que, certa vez, o velhinho, para salvar uma criança, lutou com o cão e foi nessa luta que ele ganhou suas cicatrizes.

Os fundos do terreno da casa do velhinho davam para um bosque misterioso que se transformava numa mata. Era diferente do jardim, porque a mata, não tocada pelas mãos do velhinho, crescera selvagem como crescem todas as matas. O velhinho achava as matas selvagens tão belas quanto os jardins. Quando o sol se punha e a noite descia, o velhinho tinha um hábito que a todos intrigava: ele se embrenhava pela mata e desaparecia, só voltando para o seu jardim quando o sol nascia.

Ninguém sabia direito o que ele fazia na mata e estranhos rumores começaram a circular. Os seres humanos têm sempre uma tendência para imaginar coisas sinistras. Começaram, então, a espalhar o boato de que o velhinho , quando a noite caía, se transformava num ser monstruoso, parecido com lobisomem, e que na floresta existia uma caverna profunda onde o velhinho mantinha, acorrentadas, pessoas de quem ele não gostava, e que o seu prazer era torturá-las com lâminas afiadas e ferros em brasa. Lá – assim corria o boato –, o velhinho babava de prazer vendo o sofrimento dos seus prisioneiros.

Outros diziam, ao contrário, que não era nada disto. Não havia nem caverna, nem prisioneiros e nem torturas. Essas coisas existiam mesmo era só na imaginação de pessoas malvadas que inventavam boatos. O que acontecia era que o velhinho era um místico que amava as florestas e entrava no seu escuro para ficar em silêncio, em comunhão com o mistério do universo. Quem era o velhinho na realidade? Você decide. Sua decisão será um reflexo do seu coração.



*Alves, Rubem. Do universo à jabuticaba. São Paulo: Planeta, 2010 [Ebook].

domingo, 9 de março de 2014

Tenho vontade, mas não tenho desejo de escrever


Às vezes experimento um paradoxo terrível: sinto vontade de escrever, mas não tenho desejo. Enquanto escrevo este texto, estou sob o efeito desconcertante desse paradoxo.

Muitos tratam vontade e desejo como sinônimos. Tenho boas razões para acreditar que, embora sejam palavras semanticamente próximas, denotam coisas bem diferentes. Costumo pensar a vontade como a sensação do querer e o desejo como a ação do querer.

Quase sempre vontade e desejo caminham juntos. Experimentamos a sensação do querer e logo em seguida somos impelidos à ação do querer. Mas há casos em que nos sobrevém apenas a sensação. Sentimos que queremos alguma coisa, mas o corpo e alma não dão boas-vindas a essa vontade. Então, ela reluta até ser vencida.

Na maior parte das vezes, não damos muita bola para as vontades que vêm sem desejo. Apenas esboçamos um lamento desbotado (ou seria embotado?): “Depois eu faço. Acho que eu não queria muito fazer isso”.

Como acontece com muitas pessoas, às vezes sinto que deveria ler um determinado texto, mas logo a vontade vai embora, restando apenas uma queixa suave: “Que pena que não me animei a ler aquele texto. Talvez outro dia eu me animo”.

Mas há certas disjunções entre vontade e desejo que me inquietam. Uma delas é especial: fico muito embaraçado quanto tenho vontade de escrever, mas não tenho desejo. Às vezes passo dias incomodado com a sensação de querer escrever algo, mas o texto não chega. Não há força que faça a vontade virar texto. O desejo fica inerte.

Penso que a ausência de desejo textual está fundamentalmente associada à falta de uma causa textual, à falta de uma pauta textual que seja urgente. Diz-se que o desejo nos move. Então, isso significa que se estamos inertes é porque não há nada afetando o desejo, não há roteiro para sua ação.

Considero as pautas do desejo como um conjunto de objetos e demandas que, vindos dos lugares mais secretos e desconhecidos de nossa interioridade, saltam violentamente na consciência, fazendo-a romper a quietude e o silêncio. Quando uma pauta irrompe no pensamento, significa que o texto já está pronto, estocado na alma, aguardando uma tela em branco para ser grafado e distribuído.

Há textos que irrompem com muita violência; exigem ser escritos (distribuídos) imediatamente. Há outros que chegam de forma mais suave. Esperam pacientemente um dia, uma semana, um mês, um ano ou até uma vida.

O paradoxo de querer escrever e não desejar escrever me perturba porque significa que, no momento, minha alma se encontra erma, desabitada. Não há pauta, não há texto pedindo pra sair. Parece que quando tudo está arrefecido e sereno dentro de nós alguma coisa está errada. Silêncio e inércia parecem indicar turbulências logo à frente.

Gosto muito da vontade de escrever. Hoje, depois de várias recusas, decidi que iria honrá-la. Não terminaria o dia sem escrever um texto, independentemente da pauta. Constrangi o desejo a agir; coloquei-o contra a parede e o fiz falar. Como não havia nenhuma demanda, provoquei-o com a pergunta: “Por que você está inerte?” Ele me respondeu com duas perguntas: “Por que você não busca descobrir? Por que você não escreve para tentar me decifrar?”. Disso resultou este texto. A vontade de escrever foi finalmente honrada. Querendo ou não o desejo teve de atuar.