sábado, 30 de novembro de 2013

É preciso recusar o que somos [1]



Talvez o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser.

Michel Foucault [2]


O discurso cristão tradicional está sob a mira de diversos movimentos sociais. Não é apenas o movimento de defesa dos direitos civis dos homossexuais que está em choque com o discurso de certas igrejas cristãs. Vários outros setores da sociedade também vêm manifestando resistência ao discurso religioso tradicional, especialmente no que diz respeito ao modo como certas identidades sociais são aí construídas e representadas.

O sujeito hegemônico e homogêneo construído pelo discurso cristão tradicional se vê cada vez mais confrontado por diversas alteridades conflitantes, que anteriormente eram facilmente negadas ou dominadas.

Muitas igrejas, comprometidas com os interesses de algumas identidades sociais dominantes (homem, heterossexual, branco, europeu, jovem etc.), vêm sentindo o efeito de uma série de mudanças sociais e discursivas que tem garantido aos sujeitos diferentes condições reais de resistência.  Diversas minorias sociais – entre elas a mulher, o homossexual, o negro, o velho – que anteriormente eram facilmente silenciadas por instituições hegemônicas conquistaram forças sociais e políticas suficientes para combater certas representações culturais que lhes são desfavoráveis.

É sabido que muitas instituições cristãs, dos mais variados segmentos, foram coniventes com a escravidão. Amparado por uma leitura ideologizada de Gênesis 9.20-27, o cristão branco europeu construiu uma representação identitária do negro como um sujeito amaldiçoado, designado pelo próprio Deus a ser subalterno. Essa representação deu legitimidade e sustentação não apenas para a escravidão, mas para várias outras injustiças sociais que persistem até os dias de hoje.

É importante dizer que não foi o discurso religioso que construiu sozinho essa representação negativa do negro. Ocorreu aí, na verdade, um coalisão de formações discursivas. Diversos setores da sociedade construíram conjuntamente a subalternidade do negro e se beneficiaram dela. O problema da instituição cristã é mais grave por causa da incoerência ética aí implicada.

Conceitos flagrantemente ideologizados como feiura, anormalidade, entre tantos outros, são frequentemente atribuídos a alteridades não hegemônicas. No domínio da religião tradicional, frequentemente se representam as práticas culturais dos sujeitos diferentes como estranhas, feias, anormais. Por exemplo, no meio cristão tradicional, as práticas culturais de matriz africana são frequentemente rotuladas como demoníacas, animistas, anormais, esquisitas.

No âmbito da moralidade, o sujeito que não se adequa ao padrão de comportamento normativo, hegemônico é visto como anormal e pecador. Nem é preciso esforço para notar que o discurso religioso tradicional está fundamentado muito mais no moralismo do que na ética. Em geral, a moralidade é usada como o principal instrumento para obstruir, segregar e oprimir as alteridades.

Como dito, uma série de mudanças sociais e discursivas recentes garantiu às alteridades o direito de se fazerem vistas, ouvidas, respeitadas e incluídas.  Nesse sentido, nossa geração tem o dever e o privilégio de desmontar uma série de perversidades que, por anos a fio, tem infernizado a vida da mulher, do homossexual, do negro, do velho e de tantas outras minorias.

Infelizmente, o discurso cristão tradicional tem se mantido irredutível em seu compromisso com a manutenção das assimetrias sociais. Infelizmente, alguns grupos religiosos têm recrudescido seu discurso de negação das alteridades e de negação de direitos humanos fundamentais, fazendo aumentar ainda mais as tensões sociais.

Mas há boas notícias. Esse discurso reacionário não está presente em todos os seguimentos religiosos. São muitas as igrejas, denominações e pessoas religiosas que veem a identidade do outro a partir da ética do amor e da aceitação incondicionais.  Por estarem inexoravelmente comprometidas com o fundamento anunciado e praticado por Jesus de Nazaré, muitas instituições e pessoas cristãs buscam reconhecer, respeitar e incluir as alteridades sem qualquer exigência ou violação.

Jesus jamais negou ou combateu os sujeitos diferentes. Pelo contrário. Em muitos momentos, deixou claro que sua missão consistia exatamente em dar acolhimento, voz e dignidade ao discriminado, ao excluído. Aliás, é importante assinalar, o próprio Jesus foi considerado um sujeito diferente, uma alteridade que causava desconforto. Pesou sobre ele tantas representações desfavoráveis, que as instituições hegemônicas encontraram pouca dificuldade para orquestrar sua morte.

As palavras de Foucault, que servem de epígrafe a este artigo, soam como um autêntico apelo profético dirigido a todos os cristãos: “Talvez o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser”. Tomo a liberdade de pensar a recusa identitária proposta por Foucault em dois sentidos. Não importa se fazemos parte de identidades dominantes ou de identidades minoritárias, devemos renunciar o que somos sempre que a dignidade humana estiver sendo, de alguma forma, ameaçada, aviltada.

Como cristãos, devemos recusar qualquer prática identitária (pessoal ou institucional) que obstrua e/ou exclua as alteridades. Se somos o sujeito diferente, devemos recusar com vigor as representações negativas que pesam sobre nós.  Se somos o sujeito que exclui o diferente, devemos recusar com veemência o modo como representamos o outro.

O dever de recusar a própria identidade pesa muito mais sobre os cristãos que fazem parte de algum grupo dominante. Recai sobre nós a necessidade estabelecer a igualdade, a equidade e a justiça; recai sobre nós a responsabilidade de resgatar o mandamento do amor ao próximo, que nesse caso significa permitir que o sujeito diferente expresse sua existência dentro de seus próprios padrões socioculturais, sem qualquer tipo obstrução ou violação.

A premissa de Jesus nos constrange a não estabelecer o apagamento das alteridades como critério para amar. Não se pode chamar de amor o vínculo que exige que o outro se torne igual a mim ou que se torne meu subalterno para que eu o aceite. Isso não é amor. Isso é opressão disfarçada, uma ação estrategicamente montada para o aniquilamento do outro sem que ele se dê conta disso. Devemos nos opor a qualquer operação discursiva que negue e/ou desfigure o evangelho do amor.

Talvez não haja mesmo necessidade de vasculhar nossos porões para descobrir quem realmente somos. Parece muito mais urgente termos coragem de reconhecer que nós cristãos quase sempre estivemos propensos a demonizar as alteridades. Devemos recusar e combater veementemente a continuidade dessa prática. “Devemos imaginar e construir o que poderíamos ser”, diz Foucault. Ora, o reino de Deus consiste exatamente em fazer irromper um novo modo de existência humana, no qual as relações, as identidades e as práticas humanas sejam baseadas unicamente no amor.



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[1] Artigo publicado originalmente em: Lima, Sostenes. É preciso recusar o que somos. Diário da Manha, Goiânia, 25 nov. 2013. Opinião Pública, p. 5. Disponível em:
[2] Foucault, Michel. O sujeito e o poder. In: Dreyfus, Hubert; Rabinow, Paul. Michel Foucault, uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 1995. p. 239.