sábado, 12 de outubro de 2013

Nem Deus nos torna plenos


Depois de tudo, fica um sentimento, às vezes escamoteado, de que nada é pleno. Na base de tudo há um vazio, que não se preenche com nada.

 “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”.
Albert Camus[1]

 “Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: ‘valeu a pena’”.
Rubem Alves[2]


A frase “Só Deus pode preencher o vazio da alma humana” é muita conhecida no meio cristão. Estou cansado de ouvi-la sem dizer nada. Resolvi escrever este artigo para afirmar exatamente o contrário: “Há no ser humano um vazio fundante que não se preenche com nada, nem mesmo com Deus”.  

Às vezes ouvimos no universo igrejeiro uma frase ainda mais ousada: “Todo sentimento de vazio é resultado da falta de Deus”. Alguns pregadores mais espertos pensam ter encerrado o debate, quando encontram, em grandes autores da literatura e filosofia universal, a suposta “validade acadêmica e científica” de suas ideias. Para dar aos seus sermões sobre o tema uma feição “erudita”, pregadores mais versados em clichês e frases de efeito recorrem frequentemente a Agostinho, Pascal e Dostoievski.

Entre as frases mais usadas, está certamente: “Existe no ser humano uma lacuna do tamanho de Deus”, e sua forma variante: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”. Ambas são atribuídas tanto a Agostinho quanto a Pascal e Dostoievski. Um detalhe interessante é que ainda não encontrei essas frases nos escritos dos autores, embora sejam figurinhas carimbadas em fontes de falsa erudição sites de frases, como “Pensador”, do portal UOL, e “Frases”, do portal Globo[3].

(Abrindo um parêntese: como é fácil ser erudito em Dostoievski atualmente, hein! Basta fazer um busca no site “Pensador” e cabrum! Lá estão todas as frases de efeito que um falso erudito precisa para impressionar a patuleia. Encontrei, por exemplo, a suposta frase de Dostoievski num post de ninguém menos que o excêntrico – para não usar um adjetivo deselegante – Marco Feliciano).

Votando ao assunto. Na vida real, fora do mundo de fantasia pintado pelo fanatismo evangélico, parece ser difícil sustentar a possiblidade de uma vida plena. Ouço com frequência pessoas de variadas orientações religiosas se queixarem da angústia de existir, independentemente do quão são “cheias” de Deus. Me parece que, independentemente das convicções teológicas e das práticas espirituais, há no ser humano uma propensão à angústia existencial. Parece não haver recurso espiritual que apazigue a sensação de desamparo que nos ronda. A espiritualidade certamente mostra caminhos, ameniza a dor, mas não resolve o problema.

Confesso que viver para mim é, em alguns momentos, uma jornada carregada de angústia. Não há crença teológica ou mantra litúrgico que me faça viver continuamente em paz com a vida. Sinto uma falta que não é falta de Deus.

Algum amigo pentecostal, baseado nas frases de efeito do discurso igrejeiro, poderia me aconselhar: “Você não percebe, mas essa angústia vem exatamente da falta do Deus verdadeiro. Você está tão distante de Deus que não consegue senti-lo. O Deus no qual está firmada sua fé não pode mesmo satisfazê-lo. Quando você se encontrar com o Deus verdadeiro se sentirá definitivamente pleno. Busque encher-se do Espírito Santo que sua vida será outra”.

Simplesmente não consigo ver razoabilidade num conselho como esse. O modelo de experiência religiosa aí sugerido não me toca a alma. Logo, não há razão para buscá-lo.

Prefiro seguir outra trilha, mais complicada, eu sei. Prefiro me firmar na ideia de que o ser humano tem diversos vazios. Um deles certamente é preenchido por Deus, mas não todos. E há, ainda, um vazio mais fundante, que não é preenchido por ninguém e por nada, absolutamente nada, nem mesmo por Deus. O ser humano está condenado à incompletude. Nem Deus dá jeito nisso.

A meu ver, foi o próprio Deus que estabeleceu essa lógica da incompletude. Somente um ser incompleto encontra razões para continuar vivendo; somente um ser incompleto encontra razões para mudar o mundo. A existência de qualquer recurso – de natureza religiosa, social, política etc. – que fosse capaz de tornar o ser humano pleno seria uma verdadeira catástrofe à humanidade. As grandes narrativas ideológicas (religião, nacionalismo etc.) que prometeram isso logo se transformaram em redes de fundamentalismo e opressão. O fato é que nada pode ser suficiente para o ser humano.

Às vezes ouço pessoas sinceras dizerem ter encontrado a plenitude em Deus. Afirmam com honestidade que Deus lhes tornou plenos. Isso me intriga. Exemplos assim parecem contradizer o que estou discutindo.

Não quero, neste momento, argumentar que o sentimento de completude de muitas pessoas está fundado em contradições internas veladas e negadas, muitas das quais inconscientes.  O que posso dizer neste momento é que a consciência de incompletude exige certa capacidade de autoanálise e de leitura do mundo que nos rodeia.

Parece haver, em nós e à nossa volta, evidências suficientes de que não há nada que garanta plenitude consistente à vida. Sempre há vazios. Isso não quer dizer que estamos impedidos de experimentar um sentimento momentâneo – absolutamente fugaz – de satisfação plena. Esses momentos existem, mas duram muito pouco. Segundo Rubem Alves, são esses momentos que nos fazem encontrar com a eternidade[4].

Nossa alma suplica insaciavelmente por plenitude. Isso é um indicativo de transcendência, de desejo de imortalidade, da busca pelo eterno. Volto a dizer: diferentemente do que se diz nas interpretações religiosas mais convencionais, essa sede de plenitude não é uma contradição a Deus. É na verdade um rastro de Deus.

Nossa arquitetura não comporta a plenitude. O vazio é fundante, faz parte do design original, não pode ser desfeito por nada. Penso que o próprio Deus desenhou o ser humano com essa fenda secreta com dois propósitos. Em primeiro lugar, para que pudéssemos transcender o nosso mundo em direção a ele. Nosso vazio existe, não para ser saciado por Deus, mas para apontar para ele. E, em segundo lugar, para que pudéssemos conquistar a condição de humanos, frente a uma realidade carregada de fortes e constantes apelos à barbárie. Nosso vazio nos permite e nos impele a redesenhar constantemente nossa condição humana ou, conforme o termo de Heidegger, nossa condição de ser-no-mundo.

Por exemplo, a fala humana existe porque um vazio profundo nos compeliu a inventar um sistema simbólico que nos possibilita representar e (re)construir o mundo. A poesia existe porque há na alma humana uma lacuna que conduz à subversão da ordem das coisas e à construção de uma realidade diferente, a partir dos mais variados símbolos e elementos, tais como a palavra, o corpo, as cores, o som, as formas etc.

Enfim, somos inexoravelmente incompletos, inacabados, vazios. A incompletude humana é, a um só tempo, um destino trágico e um destino libertador. Nosso vazio é nossa condenação e nossa salvação. Somos destinados à angústia, e ela nos move em direção à liberdade criativa.





[1] Camus, Albert. O homem revoltado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 22.
[2] Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139.
[3] Ficarei grato se alguém souber as referências dessas frases e puder me informar.
[4] Na crônica Um único momento, Rubem Alves contrapõe o feitiço do tempo com o encanto da eternidade. No último parágrafo, ele apresenta um belo depoimento sobre a eternidade presente em pequenos fragmentos de tempo: “Compreendi que a vida não é uma sonata, que para realizar sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira” [Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139].

6 comentários:

  1. Você Sostenes, foi lá no fundo do baú da alma humana. Muito boa reflexão.
    Mas, me permita refletir também sobre esse vazio que de fato insiste em não completar a satisfação humana. Concordo que isso muitas vezes nos leva em direção à Deus. Na real, percebo na crônica que a busca pela presença de Deus, preenche a lacuna da alma por certo tempo. Então como uma recarga de celular pré-paga, buscamos nos carregar da presença espiritual de Deus, a fim de complementar esse vazio na alma. Disse Jesus na cruz “Esta tudo pago.”
    Paz. Abraço Professor.
    Paulinho ( Galpão Skate Park).

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      Sostenes

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  3. Saciado seja este vazio com a eternidade, não posso deixar de associá lo ao pecado. Nesta situação a plenitude seria compreendida como a santidade, buscada na Terra, eventualmente/parcialmente acessada, mas vivida de forma integral somente na presença do Eterno. Trocando em miúdos, enquanto houver pecado, haverá incompletude e inquietude. Assim posto, fora Cristo o único isento de vazios da alma porquanto aqui passou.
    Lauro.

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  4. Amigo Sóstenes, precisa conhecer a Jesus. Se quiser, podemos fazer um estudo sobre a matéria em causa, juntos. Eu estou disposto.
    Abraços

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  5. Caro Sóstenes, também tenho procurado estas citações. Encontrei a de Pascal:
    Blaise Pascal, Pensees #425:
    “O que mais faz esse desejo, e essa impotência, proclamam, mas que já houve no homem uma felicidade verdadeira, de que tudo o que resta agora é a impressão vazia e traços?
    Isso ele tenta em vão encher-se com tudo ao seu redor, procurando em coisas que não estão lá a ajuda que ele não pode encontrar naqueles que são, embora nenhum deles pode ajudar, uma vez que este abismo infinito pode ser preenchido apenas com um infinito e imutável objeto, em outras palavras, pelo próprio Deus.”

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