sábado, 19 de outubro de 2013

Deus nos livre de um deus moralista


O fundamentalismo evangélico tem uma queda visceral e doentia pelo recalque e pelo moralismo. Quem tiver o mínimo interesse em comprovar isso basta investigar os termos que os fundamentalistas mais usam para construir e representar seu universo moral.

Entre as palavras mais usadas estão certamente “pecado”, “desobediência”, “imundice”, “mundanismo”, “impiedade”, “fornicação”, “iniquidade”, “imoralidade” (entre as palavras negativa) e “santidade”, “retidão”, “pureza”, “pudor” etc. (entre as palavras positivas).

Por outro lado, são bastante raras expressões como “injustiça”, “desigualdade”, “suborno”, “indiferença”, “violência”, “concentração de renda”, “abandono”, “estelionato”  (entre os termos negativos) e “justiça”, “equidade”, “distribuição de renda”, “cuidado”, “amor” (entre os termos positivos).

O que isso revela?

Revela que o fundamentalismo evangélico não tem tempo e nem energia para se dedicar a causas sociais e humanitárias. Não lhe interessa o ser humano em sua dimensão social e histórica. O que importa mesmo é o indivíduo e sua suposta relação pessoal com deus. Não há problema algum se há vitimas de injustiça, de desigualdade, de violência, de concentração de renda etc. para todos os lados. O que interessa mesmo é pregar que deus abomina o pecado, a impureza sexual, a negligência às atividades da igreja, a falta de compromisso com a leitura da bíblia etc.

Pelo que se vê, o deus do fundamentalismo religioso é eticamente cínico e socialmente indiferente. Pouco se incomoda com o fato de muitos seres humanos (muitos deles crianças) estarem sendo, neste momento, vítimas de opressão política, de exploração do trabalho, de exploração sexual. Questões ligadas à justiça social e aos direitos humanos pouco lhe afetam. Em consequência disso, esse deus não exige que seus capatazes cooperadores no mundo se envolvam com isso.

Por outro lado, se tem uma coisa que deixa esse deus irado é a imoralidade. Ele fica possesso quando vê alguém pecando (leia-se: cometendo uma imoralidade sexual). Aliás, esse deus é muito encafifado com questões sexuais. Daí o extremo zelo e vigilância nessa área.

(Diz-se que, tempos atrás, temendo não conseguir fiscalizar as imoralidades humanas sozinho, esse deus ordenou que uma trupe de pastores construísse uma instituição inquisitória, disfarçadamente chamada de igreja, para vigiar, denunciar e punir os rebeldes).

Não é necessário muito esforço para se perceber que o fundamentalismo religioso propaga um deus bastante diferente daquele que percorreu aldeias e cidades da Palestina do primeiro século pregando amor e justiça social.

Aquele Deus, o Jesus de Nazaré, esteve em Jerusalém algumas vezes. Numa delas, denunciou asperamente o moralismo das elites político-religiosas judaicas, apesar do risco que isso envolvia.

O ódio que o deus do fundamentalismo evangélico sente pelos “impuros” se contrasta de modo desconcertante com o amor que o nazareno tinha por todos os tipos de pessoas.

Jesus não teve receio de se associar com as pessoas malfaladas de sua época. Ele sabia que o fato de se juntar a prostitutas, samaritanos, publicanos, leprosos, mulheres (entre outras minorias vítimas de discriminação social em sua época) constituiria uma afronta grave à moral dos fundamentalistas religiosos. Embora soubesse que isso poderia lhe custar a vida, manteve firme o propósito de revelar ao ser humano um Deus que não faz vista grossa ao apelo, ao direito e à dignidade da vítima, do fraco, do pobre, do oprimido, do carente.

Como se sabe, Jesus morreu por causa da intolerância religiosa. Foi levado à morte por uma organização inquisitória comandada por uma elite político-religiosa, que tinha como propósito proteger a honra de um deus irado.

Jesus morreu para fazer valer as exigências punitivas de um deus extremamente moralista.  Para se ter uma ideia do quanto esse deus era moralista, basta ver as razões que o faziam ficar indignado. Por exemplo, ele ficava muito bravo quando alguém comia sem lavar as mãos, quando alguém caminhava mais que 1000 metros no sábado, entre outras esquisitices.

Jesus foi vítima de um deus bastante parecido com o deus propagado por muitas organizações religiosas de nossos dias. Portanto, dar força politica a instituições que agem em nome de um deus moralista significa abrir caminho para a intolerância e violência. Não sabemos exatamente o que pode fazer um sujeito intolerante quando compra acumula poder. Por isso, digo, parafraseando Ricardo Gondim[1]: “Deus nos livre de um deus moralista”.

@Limasostenes
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[1] Gondim, Ricardo. Deus nos livre de um Brasil evangélico. Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/deus-nos-livre-de-um-brasil-evangelico/. Acesso em: 19 out. 2013.

2 comentários:

  1. Fico curiosa em saber quais são as suas atitudes (ações) em relação a tudo o que você escreve, pois palavras sem ação é morta e é muito fácil apontar o erro dos outros. Nem os fundamentalistas e nem os liberais praticam o verdadeiro evangelho de Cristo.

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