sábado, 26 de outubro de 2013

Por uma nova oração: “expressar” em lugar de “pedir”


por Andrés Torres Queiruga [1]


A questão não está, pois, em negar os valores escondidos na petição, mas em trazê-la à luz, libertando-os de seus contravalores. Convém proceder com a máxima delicadeza e respeito: tradicional e biograficamente, há muita vida associada a fórmulas muito queridas; há a experiência de encontros muito profundos com Deus, de confissões da própria indigência, e de confiante acudir ao Senhor. Se não se procede com cuidado – não só para com os outros, mas também para consigo mesmo –, pode-se dar a sensação de espoliação violenta, de violação da intimidade, de perda irreparável nas raízes mesmas do ser religioso. Como conservar e preservar tudo isso, se se deixa a oração de pedido? Pergunta importante, que só se pode escutar com profundo respeito.

E, todavia, em si mesma a resposta é simples e direta: conservando-o. Quero dizer: prescindindo de rodeios e trazendo-o diretamente à palavra. Porque é óbvio que, expressos por si mesmo, todos esses valores podem ser conservados e, olhando-se bem, de forma mais cristalina e intensa, justamente porque os livra conscientemente de aderências que não lhes são próprias. De modo mais técnico: não se trata de negar nada à dimensão expressiva, mas de conservá-la por si mesma, mantendo-a em sua função própria, mas sem que invada as outras, se queremos expressar nossa indigência, expressemo-la. Chamemos as coisas e os sentimentos por seus nomes. Alguém o disse magnificamente num grupo de reflexão sobre este ponto: diante de Deus estamos acostumados a nos queixarmos pedindo; temos que aprender a queixar-nos queixando-nos.

Exato. Observe-se que em todo o anterior não intervém o verbo “pedir”. O que indica que nada se perde, visto que se disse tudo. Mas ao mesmo tempo se ganhou muito, uma vez que se evita instrumentalizar o nome de Deus com conotações que objetivamente são injustas para com ele e subjetivamente nos prejudicam a nós. Com efeito, se me “compadeço” da fome da Etiópia e “peço” ao Senhor que “escute e tenha piedade”, o sentimento pode ser sincero, mas, ao expressá-lo deste modo, estou dizendo algo que em si é ofensivo a Deus. Imaginemos uma mãe sofrendo ao pé da cama de um filho com câncer e fazendo quanto pode para aliviá-lo; a quem ocorreria dizer: “Por favor, escuta teu filho e tem piedade dele?” Não é precisamente o que ela está fazendo? Mais ainda, se alguma coisa estivesse em nossa mão, não seria antes ela que nos pediria que o fizéssemos?

Seguindo com o exemplo da fome na Etiópia, imaginemos uma comunidade que orasse assim: “Senhor, dói-me a fome na Etiópia, fruto das inclemências naturais e do egoísmo humano; sabemos que te dói também a ti muito mais que a nós e que por isso teu Espírito nos está chamando e impulsionando a fazer quanto esteja em nossa mão. Por isso te dizemos: ‘pai, queremos acolher teu chamado e realizar o ter amor’”. Essa oração continua falando de compaixão e solidariedade, de desejo de soluções, de unir-se tentando fazer alguma coisa. Mas, por um lado, agora, reconhecemos a Deus a iniciativa; e, por outro, ao partir para a vida, não se terá a sensação de que já tudo ficou recomendado ao Senhor e que, portanto – de modo inconsciente – possamos desentender tranquilamente; pelo contrário, agora fica claro que é ele quem nos chama, acompanha e dinamiza, quem está encomendando a solução (possível) a nossa responsabilidade.

Não só não fica nada sem expressar, mas tudo se fez de modo mais expresso e consciente (inclusive no vocabulário). Não só não se deixam pairando no ar pressupostos injustos para com o amor de Deus, mas se proclama expressamente seu amor. Não só não se declina a própria responsabilidade, mas essa se vê avivada e recarregada de esperança. Imagina o leitor que excelente catequese se estaria fazendo assim cada domingo na oração dos fiéis?
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[1] Fragmento extraído de: Queiruga, Andrés Torres. Recuperar a criação: por uma religião humanizadora. São Paulo: Paulus, 1999. p. 317-318.

sábado, 19 de outubro de 2013

Deus nos livre de um deus moralista


O fundamentalismo evangélico tem uma queda visceral e doentia pelo recalque e pelo moralismo. Quem tiver o mínimo interesse em comprovar isso basta investigar os termos que os fundamentalistas mais usam para construir e representar seu universo moral.

Entre as palavras mais usadas estão certamente “pecado”, “desobediência”, “imundice”, “mundanismo”, “impiedade”, “fornicação”, “iniquidade”, “imoralidade” (entre as palavras negativa) e “santidade”, “retidão”, “pureza”, “pudor” etc. (entre as palavras positivas).

Por outro lado, são bastante raras expressões como “injustiça”, “desigualdade”, “suborno”, “indiferença”, “violência”, “concentração de renda”, “abandono”, “estelionato”  (entre os termos negativos) e “justiça”, “equidade”, “distribuição de renda”, “cuidado”, “amor” (entre os termos positivos).

O que isso revela?

Revela que o fundamentalismo evangélico não tem tempo e nem energia para se dedicar a causas sociais e humanitárias. Não lhe interessa o ser humano em sua dimensão social e histórica. O que importa mesmo é o indivíduo e sua suposta relação pessoal com deus. Não há problema algum se há vitimas de injustiça, de desigualdade, de violência, de concentração de renda etc. para todos os lados. O que interessa mesmo é pregar que deus abomina o pecado, a impureza sexual, a negligência às atividades da igreja, a falta de compromisso com a leitura da bíblia etc.

Pelo que se vê, o deus do fundamentalismo religioso é eticamente cínico e socialmente indiferente. Pouco se incomoda com o fato de muitos seres humanos (muitos deles crianças) estarem sendo, neste momento, vítimas de opressão política, de exploração do trabalho, de exploração sexual. Questões ligadas à justiça social e aos direitos humanos pouco lhe afetam. Em consequência disso, esse deus não exige que seus capatazes cooperadores no mundo se envolvam com isso.

Por outro lado, se tem uma coisa que deixa esse deus irado é a imoralidade. Ele fica possesso quando vê alguém pecando (leia-se: cometendo uma imoralidade sexual). Aliás, esse deus é muito encafifado com questões sexuais. Daí o extremo zelo e vigilância nessa área.

(Diz-se que, tempos atrás, temendo não conseguir fiscalizar as imoralidades humanas sozinho, esse deus ordenou que uma trupe de pastores construísse uma instituição inquisitória, disfarçadamente chamada de igreja, para vigiar, denunciar e punir os rebeldes).

Não é necessário muito esforço para se perceber que o fundamentalismo religioso propaga um deus bastante diferente daquele que percorreu aldeias e cidades da Palestina do primeiro século pregando amor e justiça social.

Aquele Deus, o Jesus de Nazaré, esteve em Jerusalém algumas vezes. Numa delas, denunciou asperamente o moralismo das elites político-religiosas judaicas, apesar do risco que isso envolvia.

O ódio que o deus do fundamentalismo evangélico sente pelos “impuros” se contrasta de modo desconcertante com o amor que o nazareno tinha por todos os tipos de pessoas.

Jesus não teve receio de se associar com as pessoas malfaladas de sua época. Ele sabia que o fato de se juntar a prostitutas, samaritanos, publicanos, leprosos, mulheres (entre outras minorias vítimas de discriminação social em sua época) constituiria uma afronta grave à moral dos fundamentalistas religiosos. Embora soubesse que isso poderia lhe custar a vida, manteve firme o propósito de revelar ao ser humano um Deus que não faz vista grossa ao apelo, ao direito e à dignidade da vítima, do fraco, do pobre, do oprimido, do carente.

Como se sabe, Jesus morreu por causa da intolerância religiosa. Foi levado à morte por uma organização inquisitória comandada por uma elite político-religiosa, que tinha como propósito proteger a honra de um deus irado.

Jesus morreu para fazer valer as exigências punitivas de um deus extremamente moralista.  Para se ter uma ideia do quanto esse deus era moralista, basta ver as razões que o faziam ficar indignado. Por exemplo, ele ficava muito bravo quando alguém comia sem lavar as mãos, quando alguém caminhava mais que 1000 metros no sábado, entre outras esquisitices.

Jesus foi vítima de um deus bastante parecido com o deus propagado por muitas organizações religiosas de nossos dias. Portanto, dar força politica a instituições que agem em nome de um deus moralista significa abrir caminho para a intolerância e violência. Não sabemos exatamente o que pode fazer um sujeito intolerante quando compra acumula poder. Por isso, digo, parafraseando Ricardo Gondim[1]: “Deus nos livre de um deus moralista”.

@Limasostenes
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[1] Gondim, Ricardo. Deus nos livre de um Brasil evangélico. Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/deus-nos-livre-de-um-brasil-evangelico/. Acesso em: 19 out. 2013.

sábado, 12 de outubro de 2013

Nem Deus nos torna plenos


Depois de tudo, fica um sentimento, às vezes escamoteado, de que nada é pleno. Na base de tudo há um vazio, que não se preenche com nada.

 “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”.
Albert Camus[1]

 “Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: ‘valeu a pena’”.
Rubem Alves[2]


A frase “Só Deus pode preencher o vazio da alma humana” é muita conhecida no meio cristão. Estou cansado de ouvi-la sem dizer nada. Resolvi escrever este artigo para afirmar exatamente o contrário: “Há no ser humano um vazio fundante que não se preenche com nada, nem mesmo com Deus”.  

Às vezes ouvimos no universo igrejeiro uma frase ainda mais ousada: “Todo sentimento de vazio é resultado da falta de Deus”. Alguns pregadores mais espertos pensam ter encerrado o debate, quando encontram, em grandes autores da literatura e filosofia universal, a suposta “validade acadêmica e científica” de suas ideias. Para dar aos seus sermões sobre o tema uma feição “erudita”, pregadores mais versados em clichês e frases de efeito recorrem frequentemente a Agostinho, Pascal e Dostoievski.

Entre as frases mais usadas, está certamente: “Existe no ser humano uma lacuna do tamanho de Deus”, e sua forma variante: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”. Ambas são atribuídas tanto a Agostinho quanto a Pascal e Dostoievski. Um detalhe interessante é que ainda não encontrei essas frases nos escritos dos autores, embora sejam figurinhas carimbadas em fontes de falsa erudição sites de frases, como “Pensador”, do portal UOL, e “Frases”, do portal Globo[3].

(Abrindo um parêntese: como é fácil ser erudito em Dostoievski atualmente, hein! Basta fazer um busca no site “Pensador” e cabrum! Lá estão todas as frases de efeito que um falso erudito precisa para impressionar a patuleia. Encontrei, por exemplo, a suposta frase de Dostoievski num post de ninguém menos que o excêntrico – para não usar um adjetivo deselegante – Marco Feliciano).

Votando ao assunto. Na vida real, fora do mundo de fantasia pintado pelo fanatismo evangélico, parece ser difícil sustentar a possiblidade de uma vida plena. Ouço com frequência pessoas de variadas orientações religiosas se queixarem da angústia de existir, independentemente do quão são “cheias” de Deus. Me parece que, independentemente das convicções teológicas e das práticas espirituais, há no ser humano uma propensão à angústia existencial. Parece não haver recurso espiritual que apazigue a sensação de desamparo que nos ronda. A espiritualidade certamente mostra caminhos, ameniza a dor, mas não resolve o problema.

Confesso que viver para mim é, em alguns momentos, uma jornada carregada de angústia. Não há crença teológica ou mantra litúrgico que me faça viver continuamente em paz com a vida. Sinto uma falta que não é falta de Deus.

Algum amigo pentecostal, baseado nas frases de efeito do discurso igrejeiro, poderia me aconselhar: “Você não percebe, mas essa angústia vem exatamente da falta do Deus verdadeiro. Você está tão distante de Deus que não consegue senti-lo. O Deus no qual está firmada sua fé não pode mesmo satisfazê-lo. Quando você se encontrar com o Deus verdadeiro se sentirá definitivamente pleno. Busque encher-se do Espírito Santo que sua vida será outra”.

Simplesmente não consigo ver razoabilidade num conselho como esse. O modelo de experiência religiosa aí sugerido não me toca a alma. Logo, não há razão para buscá-lo.

Prefiro seguir outra trilha, mais complicada, eu sei. Prefiro me firmar na ideia de que o ser humano tem diversos vazios. Um deles certamente é preenchido por Deus, mas não todos. E há, ainda, um vazio mais fundante, que não é preenchido por ninguém e por nada, absolutamente nada, nem mesmo por Deus. O ser humano está condenado à incompletude. Nem Deus dá jeito nisso.

A meu ver, foi o próprio Deus que estabeleceu essa lógica da incompletude. Somente um ser incompleto encontra razões para continuar vivendo; somente um ser incompleto encontra razões para mudar o mundo. A existência de qualquer recurso – de natureza religiosa, social, política etc. – que fosse capaz de tornar o ser humano pleno seria uma verdadeira catástrofe à humanidade. As grandes narrativas ideológicas (religião, nacionalismo etc.) que prometeram isso logo se transformaram em redes de fundamentalismo e opressão. O fato é que nada pode ser suficiente para o ser humano.

Às vezes ouço pessoas sinceras dizerem ter encontrado a plenitude em Deus. Afirmam com honestidade que Deus lhes tornou plenos. Isso me intriga. Exemplos assim parecem contradizer o que estou discutindo.

Não quero, neste momento, argumentar que o sentimento de completude de muitas pessoas está fundado em contradições internas veladas e negadas, muitas das quais inconscientes.  O que posso dizer neste momento é que a consciência de incompletude exige certa capacidade de autoanálise e de leitura do mundo que nos rodeia.

Parece haver, em nós e à nossa volta, evidências suficientes de que não há nada que garanta plenitude consistente à vida. Sempre há vazios. Isso não quer dizer que estamos impedidos de experimentar um sentimento momentâneo – absolutamente fugaz – de satisfação plena. Esses momentos existem, mas duram muito pouco. Segundo Rubem Alves, são esses momentos que nos fazem encontrar com a eternidade[4].

Nossa alma suplica insaciavelmente por plenitude. Isso é um indicativo de transcendência, de desejo de imortalidade, da busca pelo eterno. Volto a dizer: diferentemente do que se diz nas interpretações religiosas mais convencionais, essa sede de plenitude não é uma contradição a Deus. É na verdade um rastro de Deus.

Nossa arquitetura não comporta a plenitude. O vazio é fundante, faz parte do design original, não pode ser desfeito por nada. Penso que o próprio Deus desenhou o ser humano com essa fenda secreta com dois propósitos. Em primeiro lugar, para que pudéssemos transcender o nosso mundo em direção a ele. Nosso vazio existe, não para ser saciado por Deus, mas para apontar para ele. E, em segundo lugar, para que pudéssemos conquistar a condição de humanos, frente a uma realidade carregada de fortes e constantes apelos à barbárie. Nosso vazio nos permite e nos impele a redesenhar constantemente nossa condição humana ou, conforme o termo de Heidegger, nossa condição de ser-no-mundo.

Por exemplo, a fala humana existe porque um vazio profundo nos compeliu a inventar um sistema simbólico que nos possibilita representar e (re)construir o mundo. A poesia existe porque há na alma humana uma lacuna que conduz à subversão da ordem das coisas e à construção de uma realidade diferente, a partir dos mais variados símbolos e elementos, tais como a palavra, o corpo, as cores, o som, as formas etc.

Enfim, somos inexoravelmente incompletos, inacabados, vazios. A incompletude humana é, a um só tempo, um destino trágico e um destino libertador. Nosso vazio é nossa condenação e nossa salvação. Somos destinados à angústia, e ela nos move em direção à liberdade criativa.





[1] Camus, Albert. O homem revoltado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 22.
[2] Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139.
[3] Ficarei grato se alguém souber as referências dessas frases e puder me informar.
[4] Na crônica Um único momento, Rubem Alves contrapõe o feitiço do tempo com o encanto da eternidade. No último parágrafo, ele apresenta um belo depoimento sobre a eternidade presente em pequenos fragmentos de tempo: “Compreendi que a vida não é uma sonata, que para realizar sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira” [Alves, Rubem. Concerto para o corpo e alma. 11. ed. Campinas: Papirus, 2003. p. 139].