sábado, 17 de agosto de 2013

A saudade


A saudade chega quando
palavras, cheiros, sons, lugares subitamente tocam os eus que fui.
Quando o eu que sou agora se esgota e se esmaece,
sou lançado para fora de mim.
Saio atrás de alguém que seja eu, mas que não se encontre em perigo.
Busco os eus que ficaram perdidos (ou guardados)
em casas já desmanchadas,
em cercas que viraram muros,
em bicicletas já corroídas pela ferrugem,
em piões, fincas e outros brinquedos que agora, desfigurados, são apenas peças de decoração,
em cheiros da terra e da água in natura,
em chuvas que surravam o telhado da casa e escorriam gostosamente pelas biqueiras, convidando a criançada para uma dança com a alegria.

A memória oferece muitas alternativas de visita,
o suficiente para me afastar de qualquer ameaça do presente.
Quando a chuva que hoje causa medo e hostiliza a cidade assusta,
corro para me encontrar com o eu que desejava a chuva da tarde
para por ela ser envolvido enquanto corria livremente à procura de pingos mais fortes.

A saudade me leva aos corredores silenciosos da memória.
Lá abro uma porta e dou de cara com uma lembrança inesperada.
Ela se aproxima de mim, me atrai, me faz entrar em seu recôndito e me dá garantia de vida.
Lá encontro outros eus vivos e imunes ao tempo.

Mas agora o eu que sou precisa voltar.
Então retorno, retomo o presente e continuo despedaçado.

A saudade nasce de um presente que caminha para morte.
A saudade é uma busca de vida no passado,
lá onde a morte, que agora ameaça, não tem poder.
Para não me deixar ser devorado pelo presente,
corro atrás dos eus fortes e jovens que moram em outras estações da vida.

7 comentários:

  1. É tudo que tenho vivido ultimamente.

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  2. A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.
    Rubem Alves

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  3. A saudade não reconhece o tempo/espaço, possibilitando assim viajar por ele, onde me perco nas lembranças.

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  4. Você consegue colocar em palavras essa mistura de sentimentos quando sinto saudades. Me fez voltar no tempo, sentir o gosto da chuva, o cheiro das árvores.. Ah! como era bom, sem medo, sem preocupação.
    Lindo poema!

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  5. Lindooooo poeta "impostor"

    Gosto de ter saudades de tudo o que foi bom.

    saudades ... e um grande abraço.

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  6. Saudades, saudades, saudades...

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  7. É uma palavra difícil de ser traduzida, e muito mais difícil ainda é explicá-la.

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