quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta aberta a Juan Delgado


Caro amigo Juan Delgado,

Manifestantes ligados ao Sindicato dos Médicos do Ceará realizam protesto durante a saída do grupo de 79 médicos cubanos de aula inaugural (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Não sei quase nada sobre você. Sei apenas que você se chama Juan Delgado, que é médico, que decidiu vir trabalhar no Brasil e que tem enfrentado muita resistência.

Ver você sendo vaiado por um pequeno grupo de médicos brasileiros me causou dor. Não sei o tamanho do sofrimento que as vaias lhe causaram. Vi dor em seu olhar. Senti dor no meu olhar. Chorei ao ver sua dignidade sendo aviltantemente atacada. Sua foto me comoveu e me motivou a lhe escrever esta carta.

Eu gostaria de um dia poder ouvir sua história; gostaria de poder ouvir a razão por que você quis vir para o Brasil, e o que você sentiu quando chegou aqui. Não sei se algum dia isso será possível. De qualquer modo, enquanto a hora da nossa conversa não chega, envio esta carta aberta para lhe dizer algumas coisas importantes sobre sua vinda ao Brasil.

Em primeiro lugar quero dizer que você é muito bem-vindo ao nosso país. Estamos felizes porque pessoas como você se dispuseram a sair de seu país para nos ajudar. A presença de vocês fará diferença na vida de muitos brasileiros.

Sei que a recepção que alguns médicos brasileiros têm dado a vocês tem sido imoral e desumana. Sei que isso deve estar lhe causando algum tipo de dor e constrangimento. Peço que não considere esses poucos médicos como porta-vozes do povo brasileiro. Eles são minoria até mesmo dentro da classe médica. Eles não representam os brasileiros; são representantes de si mesmos e de seus interesses.

Imagino que você ainda não conhece bem nossa história. Por isso vou lhe explicar rapidamente o que está na base de todo esse circo de mau gosto que você presenciou em Fortaleza, quando saía de sua aula inaugural. Aqui no Brasil, por muitos anos – na verdade desde sempre –, o médico tem sido representado socialmente como um profissional que detém um saber xamânico, divino, inalcançável. Isso faz dele um ser humano superdotado e um profissional superior a todos os demais[1].

Ora, o raciocínio de quem acredita nessa representação e se beneficia dela se configura mais ou menos assim:

Eu e meus pares – e somente nós – temos condições intelectuais, éticas, sociais e políticas de decidir os rumos de nossa profissão, mesmo quando a vida de alguém – ou de muita gente – está em jogo. Como nossa profissão é de natureza divina, superior a todas as demais, temos o direito a uma remuneração que faça jus a isso. Assim, para manter a média salarial de nossa profissão num patamar justo, precisamos controlar o número de profissionais no mercado, de modo que sempre haja falta de médicos. Assim, a lei da oferta versus procura sempre pesará a nosso favor. Essa é a principal razão por que não podemos de forma alguma permitir a entrada de médicos estrangeiros no Brasil, mesmo que seja para atuar nos lugares para os quais não vamos. Eu e meus pares precisamos da carência de médico para manter nosso poder[2].

Pois é, meu amigo Juan, a atitude desse pequeno grupo que lhe recebeu com truculência, incitação ao preconceito e xenofobia – com bem descreveu o ministro da saúde, Alexandre Padilha – é nada mais do que uma reação descabida, desumana e imoral à perda gradual de uma condição de poder, de uma divisa social. Até agora, essa condição de poder que lhes garantia a ideia de serem profissionais intocáveis, imprescindíveis e insubstituíveis jamais tinha sido social ou politicamente confrontada. Ainda bem que os tempos mudam, e a civilização avança. Saiba que sua chegada aqui é resultado de uma mudança importante em nossa base social, cultural e política.

Juan, mais uma vez peço: releve a atitude dessa gente que vaiou você. Para mim, você é moralmente superior à maioria deles. E digo a razão: você não está se opondo à ida de médicos para lugares onde não há médico. Pelo contrário. Você está tendo coragem de enfrentar o corporativismo dessa gente para dedicar o seu saber profissional a pessoas que habitam os rincões do Brasil, lugares para onde nenhum médico brasileiro quer ir.  Logo, logo, você atenderá um paciente que dificilmente teria acesso a um médico, se você não estivesse aqui.

Caso seja muito importante para você saber o que os brasileiros acham de sua presença aqui, pergunte, em seu primeiro dia de trabalho, a um paciente e/ou à sua família o que eles acham do fato de o governo brasileiro ter decidido contratar um médico estrangeiro – já que nenhum médico brasileiro quis, é bom que se diga. É a opinião desse paciente e de sua família que importa.

Meu amigo, há muitas pessoas precisando de você no Brasil. Que bom que você veio. Faço votos de que sua estadia aqui lhe seja muito agradável e proveitosa. Lhe garanto que, para nós brasileiros, já está sendo muito bom ter você aqui. Não tenho dúvidas de que sua presença ajudará a salvar a vida de muitas pessoas. Obrigado por ter vindo.

Abraços,

Sostenes Lima
@Limasostenes

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[1] O uso da palavra doutor antes do nome de médicos e advogados mostra apenas a ponta do poder simbólico que esses profissionais detêm. Eliane Brum analisa brilhantemente, em "Doutor Advogado e Doutor Médico: Até quando?", o processo de construção histórica da representação social e das forças ideológicas que cerca o papel e atividade desses profissionais. Vale a pena ler.

[2] É importante dizer a maioria dos médicos não pensa assim. Isso está presente nas crenças e ações de alguns estudantes de medicina, de um pequeno número de médicos recém-formados e de médicos corporativistas.

sábado, 17 de agosto de 2013

O sangue é mais visível em luvas brancas


O sangue é mais visível em luvas brancas, diz o ditado. Temos aqui um alerta importante: a ostentação de pureza e justiça deve ser vista sempre com muita suspeita cautela. A ausência de manchas pode ser apenas o resultado de um método refinado de proteger as luvas enquanto se faz sangrar, para depois se exibi-las limpas, como prova de santidade.

A autopromoção moral foi acidamente denunciada por Jesus, quando chamou os fariseus de sepulcros caiados. Jesus os comparou a túmulos cuidadosamente pintados de branco por fora, mas carregados de restos apodrecidos por dentro. Jesus via com clareza o ilusionismo moral que os fariseus praticavam para manter o status quo de grupo religioso mais zeloso e mais devoto.

A religião é uma das instituições socioculturais mais propícias para o cultivo da autopromoção moral. O problema se agrava ainda mais quando a religião se fragmenta em seitas. Nestas, a moralidade geralmente constitui um instrumento importante de apadrinhamento, de punição e de exclusão.

Como ninguém que se sente parte de uma seita (ou se beneficia dela) quer sofrer sansões ou ser excluído – mesmo quando não consegue atender suas exigências morais mínimas – o jeito é encontrar um meio de fabricar e ostentar retidão. E quanto mais, melhor. Aqueles que têm mais poder e recursos para promover a própria moralidade costumam jamais ser questionados. Com isso, se sentem protegidos para prevaricar à vontade.

Moral da história: pessoas que enfatizam a própria retidão costumam esconder algo muito grave nos porões da alma, especialmente aquelas que acumulam poder.

A saudade


A saudade chega quando
palavras, cheiros, sons, lugares subitamente tocam os eus que fui.
Quando o eu que sou agora se esgota e se esmaece,
sou lançado para fora de mim.
Saio atrás de alguém que seja eu, mas que não se encontre em perigo.
Busco os eus que ficaram perdidos (ou guardados)
em casas já desmanchadas,
em cercas que viraram muros,
em bicicletas já corroídas pela ferrugem,
em piões, fincas e outros brinquedos que agora, desfigurados, são apenas peças de decoração,
em cheiros da terra e da água in natura,
em chuvas que surravam o telhado da casa e escorriam gostosamente pelas biqueiras, convidando a criançada para uma dança com a alegria.

A memória oferece muitas alternativas de visita,
o suficiente para me afastar de qualquer ameaça do presente.
Quando a chuva que hoje causa medo e hostiliza a cidade assusta,
corro para me encontrar com o eu que desejava a chuva da tarde
para por ela ser envolvido enquanto corria livremente à procura de pingos mais fortes.

A saudade me leva aos corredores silenciosos da memória.
Lá abro uma porta e dou de cara com uma lembrança inesperada.
Ela se aproxima de mim, me atrai, me faz entrar em seu recôndito e me dá garantia de vida.
Lá encontro outros eus vivos e imunes ao tempo.

Mas agora o eu que sou precisa voltar.
Então retorno, retomo o presente e continuo despedaçado.

A saudade nasce de um presente que caminha para morte.
A saudade é uma busca de vida no passado,
lá onde a morte, que agora ameaça, não tem poder.
Para não me deixar ser devorado pelo presente,
corro atrás dos eus fortes e jovens que moram em outras estações da vida.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tuítes sobre a natureza da poética