terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre o direito à felicidade e ao sucesso


Duas buscas perturbam a vida de quase todo mundo hoje: a busca pela felicidade e a busca pelo sucesso. Pouca gente consegue viver sem estar fazendo alguma coisa para ser feliz e/ou para ter sucesso. Num movimento cíclico, ser feliz é colocado como condição para ter sucesso, e vice-versa. Assim, é feliz quem tem sucesso e tem sucesso quem é feliz.

O que pouca gente sabe é que essas duas buscas estão entre as principais causas da onda de infelicidade e fracasso que perturba a vida de tanta gente hoje em dia. É contraditório, mas absolutamente verdadeiro: a busca frenética pela felicidade leva as pessoas a uma infelicidade crônica e a busca desenfreada pelo sucesso tem feito surgir uma geração de fracassados.

Precisamos mesmo buscar a felicidade? Precisamos mesmo buscar o sucesso? Não. Não precisamos buscar uma coisa e nem outra.

Não precisamos buscar a felicidade porque ela não é algo que se busca, não é um destino. A felicidade real é um modo de viver, uma forma de encarar a vida, um estilo existencial e ético de experimentar o aqui e o agora. A felicidade que se busca em algum lugar, como meta, objeto ou destino, jamais poderá ser encontrada; não passa de um engodo existencial. Como está distante – no tempo e no espaço – jamais pode ser vivida aqui e agora. Em última instância, nada do que está no futuro pode ser realmente experimentado agora. Por isso, a felicidade como meta causa tanta infelicidade.

Também não precisamos buscar o sucesso porque ele não é absolutamente necessário para a vida, pelo menos não o tipo de sucesso que a maior parte de nós persegue atualmente. Tudo que hoje é definido como sucesso traz à vida mais desgaste que benefícios, mais buscas do que encontros, mais ansiedade que serenidade.

Temos visto muita gente abrir mão da vida para ser bem-sucedida. Há muita gente que é incapaz de usufruir os benefícios do sucesso porque não têm mais vida suficiente para apreciar, por exemplo, uma simples refeição com a família. Outros, talvez a maioria, não usufruem os benefícios do sucesso porque precisam de mais sucesso e, por isso, não podem perder tempo com supostas banalidades.

Como se vê, as palavras felicidade e sucesso estão carregadas do mal-estar de nossa época. Elas definem o modo como nossa geração vive, ou melhor, passa pela vida.  Se investigarmos um pouquinho mais, descobriremos que a maior parte dos males que vivemos em nossa época tem na base algo ligado ao desejo de felicidade e de sucesso. Por essa razão, prefiro usar outras duas palavras, que ainda não foram totalmente corrompidas pela mercado, para mostrar o papel que a felicidade e o sucesso tem em nossa vida.

Prefiro falar de contentamento e realização, porque essas palavras ainda não foram totalmente colonizadas pelo individualismo e pelo narcisismo, marcas contundentes do modo como as pessoas conduzem suas relações com as outras na contemporaneidade.

Somos realizados, mas não nos contentamos com isso. Queremos mesmo é o sucesso. Kivitz apresenta, em Vivendo com propósitos, uma estatística que, embora informal, nos chama a atenção para o que temos aqui e agora. Se considerarmos bem, veremos que tudo que temos neste momento é mais que suficiente para nos deixar contentes (felizes) e realizados (bem-sucedidos).

Veja o que diz o texto:

Se fosse possível reduzir a população do mundo inteiro a uma vila de 100 pessoas, mantendo a proporção do povo existente no mundo na virada para o terceiro milênio, tal vila seria composta com a seguinte configuração:
57 asiáticos, 21 europeus, 14 americanos (Norte, Centro e Sul) e 8 africanos
52 seriam mulheres e 48 seriam homens, 70 não-brancos e 30 brancos
6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo;
80 viveriam em casas inabitáveis
50 sofreriam de desnutrição;
1 teria computador e 1, apenas 1, teria formação universitária.

Em seguida, Kivitz faz uma pequena reflexão sobre esses números:

Falando francamente, você se considera uma pessoa vivendo no nível da sobrevivência ou já pode se considerar um sucesso? Leve em conta que, se você acordou hoje mais saudável que doente, tem mais sorte que aproximadamente um milhão de pessoas que não verão a próxima semana. Se nunca experimentou o perigo de uma batalha, a solidão de uma prisão, a agonia da tortura, a dor da fome, tem mais sorte do que 500 milhões de habitantes do mundo. Se você tem comida na geladeira, roupa no armário, um teto sobre a cabeça e um lugar aquecido para dormir, considere-se mais rico que 75% das pessoas do mundo. Se tiver dinheiro no banco, na carteira ou um trocado em algum lugar, considere-se entre os 8% das pessoas com melhor qualidade de vida no mundo. Enfim, considere-se uma pessoa bem-sucedida[1].

O que nós chamamos de sucesso pode não ser exatamente o tipo de sucesso que eu e você precisamos para ser contentes e realizados. Reputação, prestígio, alto salário, viagens, carros etc. podem ser, na verdade, empecilhos para uma vida de contentamento e realização.

Parece ser absolutamente verdadeiro o fato de que a maior parte de nós, isto é, a maior parte das pessoas que têm acesso a este artigo, é realizada (bem-sucedida), mas decide não se contentar com isso; prefere correr o mundo atrás do vento. Nem é preciso dizer o quanto isso potencializa ainda mais nossa crise de infelicidade.

Também temos recursos suficientes para sermos contentes, mas preferimos nos aventurar numa busca – insana e absolutamente fracassada – pela felicidade. Atualmente, eu e você somos movidos pelo lema de que temos individualmente um direito legítimo e inexorável à felicidade e ao sucesso, e os outros têm o dever de facilitar e/ou promover esse direito.

Assim, decidimos que as pessoas devem se engajar na tarefa de fazer com que o nosso direito de ser feliz e de ter sucesso se realize plenamente, e quem resistir a isso deve ser deixado de lado, descartado. Eu e você somos diariamente estimulados a desenvolver nossa individualidade, a satisfazer nossos desejos, alcançar nossos objetivos, nem que para isso tenhamos de usar e descartar pessoas.

Não custa lembrar que nenhuma pessoa que trata outra como coisa consegue ser feliz. E, do mesmo modo, nenhuma pessoa que é tratada como coisa consegue fazer outra feliz. Não podemos nos deixar ser seduzidos pela busca individualizada da felicidade e do sucesso. Devemos buscar o contentamento e a realização, que são coisas naturalmente altruístas. Ninguém é contente e realizado de forma individualizada.

Reafirmo que a busca narcísica da felicidade e do sucesso resulta quase sempre na morte e/ou flagelo do outro. Quem se deixa tomar pelo individualismo vive responsabilizando o outro por suas frustrações; vive dizendo que é infeliz porque o outro é ineficaz em seu dever. E, como consequência disso, vive atraindo e descartando pessoas. A cada descarte, a infelicidade e o fracasso existencial se estabelecem com mais ímpeto. 

É importante reafirmar que não há qualquer possibilidade de contentamento e realização sem que a presença do outro seja significativamente cultivada em nossas vidas.


@Limasostenes
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[1] Kivitz, Ed René. Vivendo com propósitos. São Paulo: Mundo Cristão, 2003. p. 36-37.

2 comentários:

  1. Os valores estão invertidos, o ter é mais importante do que o ser, o carisma está acima do caráter, onde se cultua o corpo perfeito a qualquer preço. Essa inversão manifesta-se no individualismo, no egoísmo, na incapacidade de ver o próximo (geralmente os mais próximos são os que mais amamos). Essa busca frenética pela tal “felicidade e sucesso” fazem o ser humano já não ser tão humano assim.

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  2. Tenho aprendido nesses dias que o antídoto pra essa busca desenfreada da tal "felicidade" e "sucesso" é a GRATIDÃO e o CONTENTAmENTO pelo que se tem...
    muito bem colocado o kivitz falou, é isso mesmo...

    Grata por compartilhar...

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