sábado, 20 de julho de 2013

Quando o medo de morrer se transforma em medo de viver


Começo dizendo que o medo não é, em nenhum aspecto, algo ruim. Só há benefícios em sentir medo. Nada se pode dizer contra essa que é uma das nossas manifestações instintivas mais básicas, até porque não há como evitá-la.

O medo não é um construto emocional, psíquico ou ético, tal como a esperança ou a coragem. Não é, portanto, um acessório que se constrói com a vida. É antes um dispositivo de série; está no DNA. É, felizmente, um bem filogenético necessário concedido a todos nós, independentemente do quão saudáveis somos, tanto do ponto de vista emocional quanto do ético.

E porque o medo foi incorporado ao nosso DNA? Simples: a vida é cheia de riscos. E o medo é o principal dispositivo de que dispomos para lidar com as ameaças; é ele que nos ajuda antecipar o perigo e agir imediatamente. Diante de um risco real, o medo nos diz que a morte está à espreita e nos predispõe, de forma quase sempre automática, a duas ações: fuga ou enfrentamento.

Noutras palavras, o medo assume o controle da situação: avalia e age conforme seus próprios critérios. É difícil haver uma situação em que conseguimos controlar racionalmente qual decisão (fugir ou enfrentar) é mais viável. O fator tempo (ou mais precisamente a falta de tempo) deve ser o motivo porque a decisão é deixada a cargo do instinto. A razão e a consciência precisam de tempo para recuperar informações e experiências, e, só então, ponderar o que é menos arriscado: fugir ou enfrentar.

De um ponto de vista estritamente natural, podemos dizer que o medo é o recurso mais importante que temos para manter nossa linhagem genética viva. Sem ele, a minha e a sua linhagem já teriam sucumbido às inúmeras catástrofes naturais e sociais que nossos antepassados enfrentaram. Sem medo, a morte não representa ameaça. E quando a morte já não amedronta mais, não há mais razão para prolongar a vida. Quem chega ao ponto de não ter mais nada a perder já perdeu a vida, mesmo que ainda esteja vivo.

Portanto, o medo não é um vilão. Quem tem medo não é moralmente fraco. Quem tem medo está vivo, apenas isso. Como diz o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem”.

O ser humano é um ser absolutamente complexo. Entre inúmeras outras conquistas simbólicas, conseguiu desenvolver, a partir de uma base biológica comum à maior parte dos animais, uma série de acessórios, isto é, uma série de equipamentos que não estão disponíveis no DNA, pelo menos não da mesma forma que o medo. Todos os animais vertebrados têm medo. Mas apenas o ser humano conseguiu derivar do medo sentimentos e virtudes.

O medo, como uma matéria prima natural, nos permitiu fabricar um monte de artefatos emocionais, existenciais, éticos, culturais (tais como a preocupação, o desespero, a esperança, a ansiedade, a tranquilidade, a serenidade, a coragem, a covardia, entre tantos outros), os quais nos tornam aptos ao nosso complexo modo de vida social e cultural. Em sentido estrito, apenas nós, os humanos, conseguimos viver ansiosos, ao ponto de neutralizar a força, o poder e beleza da vida.

De todos os sentimentos, virtudes e vícios derivados do medo, a ansiedade é talvez o substrato que lhe está mais próximo na cadeia de derivação. A ansiedade tem em comum com o medo a ativação do estado de alerta. A diferença é que o medo só ativa o estado de alerta quando a ameaça é real e iminente. O medo está necessariamente preso ao presente. Apenas o aqui e o agora podem despertar o medo de seu sono. O medo não tem vínculo com o passado (memória), nem vínculo com o futuro (esperança). O medo não simboliza. O medo trabalha com a realidade em seu estado mais concreto, o presente.

Já a ansiedade se liga basicamente ao futuro. É o e o então que a despertam. A realidade concreta do aqui e agora tem pouca influência sobre seu quadro. Como define o psiquiatra Aubrey Lewis, a ansiedade é uma experiência subjetiva de medo, desagradável, desproporcional e dirigida para o futuro. É no presente que a ansiedade se manifesta, mas não é dele que ela se constrói; não é para ele que ela está voltada.

Portanto, pode se dizer que a ansiedade é uma antecipação do futuro. E essa antecipação pode ser boa ou ruim. Como o medo é uma resposta às intempéries apenas do presente, e como somos seres que navegam no passado, presente e futuro, a ansiedade é uma espécie de complementação do medo. É uma forma de lidarmos com as ameaças que estão no futuro. Se, tal como os animais, não tivéssemos consciência do futuro, também não teríamos necessidade da ansiedade. Foi o nascimento do futuro em nossa consciência que fez nascer a ansiedade.

Devo dizer que a ansiedade, assim como o medo, também foi muito importante para manter nossa linhagem genética viva. Se, por um lado, o medo nos ajudou a enfrentar sobretudo as ameaças de ordem natural e as ameaças repentinas, por outro, a ansiedade nos ajudou a enfrentar antecipadamente as ameaças de ordem social e cultural.

Diante de um animal feroz, é o medo que nos comanda, nos impelindo à ação menos arriscada. A mesma coisa acontece numa situação de assalto – um evento ameaçador que também se constrói repentinamente. Contudo, em ambos os casos é possível fazer alguma coisa antecipadamente para minimizar os riscos. Quando sabemos da possibilidade de um assalto, a ansiedade pode nos levar a tomar uma série de precauções. A consciência da possibilidade de uma intempérie futura nos compele a criar meios para evitá-la ou para enfrentá-la com menos prejuízo.

Portanto, pessoas com doses adequadas de ansiedade costumam sofrer menos contratempos na vida; costumam fazer aplicações mais seguras. Uma pessoa saudavelmente ansiosa tem bem menos chance de perder uma fortuna em certas aplicações financeiras claramente arriscadas.

Contudo, apesar dos benefícios, a ansiedade pode se transformar em algo absurdamente ruim, patológico. Em última instância, o medo e a ansiedade são dispositivos que nos alertam quanto ao perigo da morte, iminente ou futura. Por isso, são fundamentais para a nossa existência.

Acontece que essa mesma combinação, medo mais ansiedade, pode assumir uma feição completamente oposta. Em vez de nos alertar quanto ao perigo da morte, pode nos levar a focar doentiamente nos perigos da vida. Em vez de nos preparar para evitar, fugir e vencer a morte, passa a nos perturbar quanto aos riscos de viver. Passamos a antecipar a morte por puro medo de viver. E não é muito difícil notar quando a ansiedade passa a ser patológica. Basta observar se ela está atrapalhando (mais do que favorecendo) os relacionamentos e o mundo do trabalho, colocando aí um medo doentio do que pode acontecer amanhã.

Um comentário:

  1. Convivo diariamente com o medo, mas tento não deixar me dominar. A ansiedade envenena nosso corpo e mente, pois geralmente ela antecipa desgraças.

    ResponderExcluir