quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre a natureza da retórica


Todo brasileiro é contra corrupção e contra a baixa qualidade dos serviços públicos em geral. Todos querem protestar contra isso. Todos querem escrever um cartaz no qual conste alguma mensagem contra a corrupção. Mas esse parece não ser o melhor caminho para se exigir um Brasil melhor.

Corremos risco de transformar os protestos em meros porta-vozes da agenda da revista Veja, o que seria um erro terrível, incontornável. Reivindicações vagas e vazias do tipo "Chega de corrupção", "Quero uma educação melhor", "Quero hospital, não estádio", "Muda Brasil" tendem a favorecer ainda mais os grupos conservadores, que contam com o apoio irrestrito da grande-mídia-burra.

Essa besta, a grande-mídia-burra, tentará de todas as formas canalizar (ou canibalizar?) politicamente nossa honesta e valiosa revolta contra o que o Brasil é para os seus próprios interesses. Tentará transformar vilões fascistas (e oportunistas) em mocinhos salvadores da pátria. Não permitamos que isso aconteça; não permitamos que os protestos sejam sorrateiramente pautados.

Caso a grande-mídia-burra consiga emplacar a pauta das reivindicações, já sabemos o que virá depois. A história nos mostra que todo golpe midiático tem um preço. Alguém estudou o movimento de 1964? Sugiro a leitura do editorial de O Globo, de 02 de abril de 1964, para se ter ideia do que as Organizações Globo realmente querem. Agora um exemplo mais recente: alguém se lembra das eleições presidenciais de 1989? A fatura também foi alta.

É por essa razão que os protestos devem continuar com pautas pontuais e específicas, como se deu no início. Reduzir a tarifa do transporte público é algo que pode ser feito com ações políticas pontuais. Agora, me diz o que pode ser feito se a reivindicação é "Quero um Brasil melhor"?

Devemos protestar contra a PEC 37, contra a atual legislação eleitoral (exigindo mudanças pontuais), contra as alíquotas do Imposto de Renda, contra a eleição de Marco Feliciano ao cargo de presidente da comissão de direitos humanos, entre tantos outros exemplos. São questões específicas como essas que nos movem em direção a questões mais abrangentes, como “Um Brasil melhor”, “Um Brasil sem corrupção”, “Um Brasil com educação de qualidade” etc., e não o contrário.

Para quem acha que não existem questões pontuais pelas quais vale a pena protestar, aqui vão duas sugestões, especialmente para quem mora em Goiás:

Protesto contra a alíquota de ICMS na conta de luz, que em nosso Estado é de 29%. Isso mesmo, 29%. Isso é ou não é aviltante? Isso merece ou não merece uma boa manifestação?

Protesto contra sucateamento da UEG, que está em greve há mais de 40 dias e sem qualquer resposta consistente do governador de Goiás.

Muda-se um País, um Estado, uma Cidade exigindo ações específicas, concretas. Exigências gerais e vagas costumam resultar em respostas igualmente gerais e vagas. Uma pergunta geral e sem foco abre espaço para uma resposta retoricamente impecável e completamente vazia. É da natureza da retórica ser geral e vaga.

Seria interessante ver, nas próximas manifestações, diversos cartazes com os seguintes dizeres:

“EU QUERO A CONTA DE LUZ COM ICMS ZERADO”.

“GOVERNADOR, EU QUERO O FIM DA GREVE NA UEG. ISSO SÓ DEPENDE DE VOCÊ”.

2 comentários:

  1. A população está acordando e começando a descobrir que tem o poder de mudar essa nação, só precisa manter o foco no que realmente quer e não desviar dele. Ótimo texto!

    ResponderExcluir
  2. O movimento tornou-se pauta burguesa e a mídia cooptou a luta invertendo-a em interesses neoliberais. Esquecem, porém, que os verdadeiros movimentos sociais estão mobilizados apanhando da polícia há muito tempo! O povo já está na rua há muito tempo!
    Tal situação lembra-me uma carta de Marx a Engels (11/12/1858) na qual ele diz que: "embora vivesse muito mal, após a vitória da revolução passaria a viver pior, porque teria o 'prazer' de ver todos os charlatães comemorarem o triunfo como se fosse deles." (KONDER,1984).

    KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das idéias. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1984.

    ResponderExcluir