sábado, 22 de junho de 2013

A ingenuidade de quem empunha o bordão “Fora Dilma”


Muita gente acha que se a presidenta Dilma fosse derrubada todos os problemas sociais e políticos brasileiros seriam resolvidos. Para mim, duas razões são suficientes para mostrar a ingenuidade da maior parte daqueles que estão vociferando o bordão “Fora Dilma”:

a) Alguém se lembra de quem é o vice-presidente? Gostaria de lembrar ao cara-pálida que carrega o cartaz "Fora Dilma" que o vice-presidente é Michel Temer. Portanto, meu amigo de inteligência rara, pense no que significaria ser governado por um presidente, cujo partido sempre arranjou um jeito de estar no poder desde 1985, passando pelos governos de Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, FHC, Lula e Dilma, independentemente do espectro ideológico que fundava cada pleito. O que esperar desse partido se não uma ganância inescrupulosa por ocupar indecentemente ministérios, presidência de autarquias, comissões etc. etc. etc.?

b) Caso Dilma caísse, qualquer outro presidente que viesse depois encontraria um país em frangalhos e um Congresso completamente desbaratado. Você acha mesmo que Michel Temer conseguiria fazer coisa alguma melhor do que Dilma está fazendo? Tenho certeza de que ele não faria nada melhor, nem se não houvesse crise. Com crise, então, seria derrubado logo em seguida. Quem viria depois?

Só existem duas opções democráticas para a saída de Dilma do governo: morte natural ou o encerramento do mandado. Então, como você quer que ela caia fora agora? Seria por impeachment? Nesse caso, o que pesa a favor da abertura de um processo de impeachment? Ou seria por renúncia? Novamente, o que pesaria a favor de uma renúncia? Ou algo mais absurdo como um assassinato? Volto a repetir: só existem duas opções democráticas para a saída de Dilma da presidência: morte natural ou  o encerramento do mandato. Qualquer outra via é golpe. Vou escrever em CAIXA ALTA para você  entender com clareza o que está pedindo com o bordão "Fora Dilma": GOLPE POLÍTICO. Só mais uma perguntinha, talvez a mais importante deste artigo: Qual o nível de coerência política de um manifestante que pede golpe político numa democracia? Pense nisso.

Muita gente também embarca ingenuamente na ideia de que os problemas políticos brasileiros se resolvem com uma simples troca de presidente. Não se resolvem, não. O problema é muito mais complexo. Portanto, um panfletinho com “Fora Dilma” só pode ser piada de um alienado, que não faz ideia do universo político no qual está envolvido. Vejamos algumas coisinhas que você precisa saber, menino:

a) O grande problema do governo Lula e do governo de Dilma (dos dois mandados de FHC também) decorre da necessidade da tal governabilidade, que obriga o executivo a fazer alianças terríveis.

Por que Haddad fez aliança com Maluf? Por que Dilma aceitou Michel Temer como vice? Por que Lula e Dilma apoiaram Sarney na presidência do Senado? Por que Dilma apoia Renan Calheiros (ex-ministro de FHC, não custa dizer) na presidência do Senado? Por que a base aliada emplacou Marco Feliciano (do PSC, um partido abertamente cooptado e fisiológico) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias do Congresso (algo simplesmente inconcebível até mesmo no roteiro de um romance de meia-pataca)?

A resposta para todas essas perguntas todo mundo já sabe, mas não quer levar a sério neste momento de clamor por reformas políticas. Tudo mundo sabe que o governo (leia-se o presidente) precisa do tráfico de influência de sujeitos como esses que eu mencionei logo acima para conseguir governar. Enquanto houver a sustentação desse sistema de venda de pedaços do executivo (ministérios, autarquias, secretárias etc.) e gente interessada em comprar, nenhum presidente conseguirá governar de verdade, independentemente do partido a que pertença. É aqui que mora o nosso grande problema político. É esse câncer que precisa ser debatido e combatido pela sociedade.

b) A quantidade de partidos sem identidade e decência ideológica só faz piorar a situação. Você sabe me dizer quantos partidos existem no Brasil atualmente? E, destes, quantos realmente tem história, cara e representatividade política? Aí vão algumas informações elementares e não tão rigorosas: i) existem no Brasil atualmente mais de 25 partidos diferentes; ii) destes, apenas 15 têm cadeiras na Câmara dos Deputados, isto é, têm algum tipo (nem que seja de apenas um Deputado) de representatividade popular; iii) dos 15 partidos que têm representantes do povo no Câmara, pelo menos uns 10 não têm a mínima identidade e decência ideológica; são apenas legendas que alugam (a um preço caríssimo e indecente) seus deputados para quem pagar mais: governo, oposição ou grupos sociais poderosos (religiosos, empresariado, ruralistas, etc.).

c) As coligações partidárias, à revelia da identidade e perfil ideológico - se é que isso ainda existe - dos partidos, é para mim um acinte. Como pode uma coligação do tipo PT-PSDB? Pois é, esse tipo de promiscuidade partidária aconteceu em várias cidades do Brasil nas eleições do ano passado. Pior que uma coligação PT-PSDB é uma coligação PCdoB-DEM, que também aconteceu em alguma cidade do Brasil.

Digo mais uma vez: os problemas a serem combatidos devem ser o câncer que se instalou na relação do Palácio do Planalto com o Congresso Nacional, e no modo como o sistema partidário tem construído seus arranjos. É esse mar de lama e de fezes que precisa ser extirpado; é contra essas distorções que os movimentos de protestos precisam marchar com bravura. Quem empunha um cartaz “Fora Dilma” e não consegue ver o câncer que existe na relação entre Executivo e Legislativo, e a latrina que as relações, coligações e alianças partidárias se tornaram, não tem a mínima noção do que está fazendo. É meramente massa de manobra, um alienado engajado que se acha politizado.

P.S. Para os desavisados e apressados em tirar conclusões absurdas, quero deixar claro que nem ventilei a ideia de extinção dos partidos políticos. Eles são fundamentais em qualquer processo democrático. Estou defendo a ideia de reforma na legislação, de modo a tornar os partidos mais fortes, mais definidos e menos suscetíveis à cooptação.

22 comentários:

  1. Olá, professor. Como sempre ótimas observações. E, como sempre, gostaria de tecer alguns comentários, principalmente em relação à Democracia e Partidos políticos no contexto das manifestações populares.

    Maquiavel acredita numa "economia da violência", assegurada pelo Estado e pelos detentores do poder, pois o objetivo destes é sempre reprimir - mas, primeiramente, de forma ideológica - a consciência crítica e política que porventura poderia se instalar no consciente coletivo de uma sociedade frustrada (CUNHA, 1999).

    Nesse caso, o Estado e seus Aparelhos Ideológicos de Estado (mídia, igreja, escola, etc.) ao mesmo tempo em que subjugam o indivíduo, também permitem ou oferecem a ele alguns elementos ideológicos que são válvulas de escape para as suas frustrações (ALTHUSSER, 1985). É o caso do Estado democrático.

    Porém, em uma sociedade dividida em classes, a democracia dominante é a democracia definida pela classe dominante. Nesse sentido, ela só existe de forma abstrata e em sua raiz etimológica de Governo do Povo, o que é equivalente a Autogoverno ou Autogestão. Assim:

    “O que diferencia ditadura e democracia é a forma como o Estado capitalista se relaciona com as classes sociais. A democracia se caracteriza pela participação restrita das classes sociais na constituição do poder estatal, enquanto que a ditadura se caracteriza pela participação restrita apenas do bloco dominante” (VIANA, 2003, p. 57).

    Portanto, na prática, a real democracia é puramente ilusória, sendo uma democracia particularista, centrada nos interesses da classe dominante. É essa compreensão fictícia de democracia que a considera, de maneira equivocada, como um sistema fundado nos princípios de liberdade e igualdade e, assim, sendo diferente de outras formas de governo, que faz com que muitos, a partir do conceito de Estado democrático, se insiram nas atuais manifestações (na prática ou na teoria) e, por conseguinte, adotem e defendam considerações também ilusórias e ingênuas como certos slogans, bordões, atitudes, etc.

    É também partindo do conceito real de democracia (Governo do Povo) e não de suas abstrações, que se pode compreender os partidos políticos como organizações burocráticas que visam à conquista do Estado e buscam legitimar sua luta pelo poder através da ideologia da representação, quando, na verdade, todos expressam os interesses de uma outra classe contrária aos interesses do povo (VIANA, 2003b, p 12).

    Em suma, e sintetizando todo o supracitado:

    “Do ponto de vista autoritariamente elitista, por isso mesmo reacionário, há uma incapacidade quase natural do Povão. Incapaz de pensar certo, de abstrair, de conhecer, de criar [...], o Povão precisa ser ‘defendido’. A sabedoria popular não existe, as manifestações autênticas da cultura do povo não existem, a memória de suas lutas precisa ser esquecida, ou aquelas lutas contadas de maneira diferente; a ‘proverbial incultura’ do Povão não permite que ele participe ativamente da reinvenção da sua sociedade. Os que pensam assim e assim agem, defendem uma estranha democracia, que será mais ‘pura’ e ‘perfeita’, segundo eles, quanto menos o povo nela participe (FREIRE, 1987, p. 37-38).

    “O povo unido não precisa de partido” e “O povo organizado não precisa de Estado”. Tais expressões quando vistas e analisadas dentro da “lógica” e ideologia da sociedade moderna capitalista parecem absurdas! Utópicas! Assim como absurdo e utópico era o fim da sociedade feudal, o fim da escravidão. Nesse sentido, quem tem medo da utopia?

    Referências:

    ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

    CUNHA, Wilson Ferreira. Introdução à Ciência Política. Goiânia: Edição do autor, 1999.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

    VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro: Achiamé, 2003.

    VIANA, Nildo. O que são partidos políticos?. Goiânia: Germinal, 2003b.

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  2. O Brasil precisa de mudanças imediatas. Mas não é a saída da Dilma da Presidência que irá resolver todos os nossos problemas, pelo contrário, só irá mudar de mãos (Só Deus sabe nas mãos de quem vamos ficar) . Tudo que vem acontecendo recentemente é uma armadilha planejada minuciosamente, e infelizmente a população não consegue enxergar ou não querem enxergar, que está sendo usada.

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  3. Os intelectuais precisam ocupar a posição do fronte dentro dos movimentos que ocorrem em todo o território brasileiro. É tarefa quase obrigatória e moral dos pensadores, aqueles que conseguem analisar a situação sócio-histórica atual livre de qualquer ranço midiático se colocarem a frente da massa que não sabe nem argumentar de forma coesa o porquê de se estar imerso em uma multidão.
    Muitos estão nas passeatas por saber que o Brasil precisa de mudança, porém se indagados não saberão elaborar uma resposta pertinente que justifique o ato de se estar militando. De forma subjetiva surge o desejo que permeia o inconsciente, um clamor por revolução. A grande massa carece de líderes que os "defendam" do mar de lama político, que nesta realidade se encontra cada vez mais tóxico.
    A revolução que se instaura no Brasil é legítima e legal. O povo precisa de um direcionamento e como pode ser observado a mídia subserviente do governo está empenhando muito bem nesse trabalho; assim pensadores, críticos, jornalistas LIVRES e intelectuais precisam também empenhar em contrapartida às miragens desses veículos de verdades de conveniência.

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  4. E desde de quando intelectual dá "a cara a tapa"?

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  5. Ainda que o Pedro Faria trouxe o nobre articulista de volta à terra. Obrigado.

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  6. Fora Dilma não resolve, mas a população em geral não suporta mais o populismo, as diferenças de classe instaurados neste país pelo PT, o desmando e a roubalheira da classe politica. Ela poderia aproveitar o momento para fazer o que é certo, mas acreditar que ela (como petista) vai fazer o certo é a maior das utopias. Por certo, O PT irá aproveitar o momento para se eternizar no poder.

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  7. Acompanhar o que A Dilma tem feito, de braços cruzados também não do povo Brasileiro. Esse " Acordar" nós fez diferente!, nós fez mostrar ser um Brasil, que nem nós conheciamos.Tirar a Dilma, não irá melhorar, mais deixará atento quem a substituir.Sabendo que não somos aquele Brasil que aceita tudo e fica quieto

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  8. Sr. Sóstenes,
    o país não precisa nem se dar ao luxo de apelar para motivos políticos para abrir um processo de impeachment, meu amigo. Isso não dá em nada...
    A "presidenta" e todo o partido dela juntos devem sair por processo criminal. Sob qual acusação?
    Documentos assinados pelo PT, no Foro de São Paulo, prometendo apoio integral às FARC.
    Então, caro Sostenes, basta isso pra abrir processo por associação ao crime!! Ou talvez o assassinato de Celso Daniel e 6 testemunhas??? Ou quem sabe o assassinato do Toninho de Campinas ??O PT é cúmplice das dezenas de milhares de homicídios anuais no Brasil, tráfico de drogas, sequestro etc...

    E QUEM AINDA DEFENDE A MANUTENÇÃO DE UMA INSTITUIÇÃO HOMICIDA NO PODER DE QUALQUER COISA QUE SEJA DEVERIA SER ACUSADO MORALMENTE POR ESSE APOIO!!!!!

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  9. Eu sou a favor do Fora Dilma, nem que seja uma mera medida paliativa, pois o povo não suporta mais um governo focado em maquiagem e em desvio de verba, que foi o caso do PT no poder durante todo esse tempo.
    E se o próximo que assumir e seguir os mesmo passos, novamente o retiramos do poder.

    Entendo que existe um câncer em nossa política, mas um coisa é certa, o ponta pé inicial foi dado, o Brasil acordou, e aos poucos vamos melhorar as formas de revindicar nossos direitos.

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  10. Estou aguardando sua reflexão sobre o pronunciamento da Dilma.

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  11. Car@ amig@ anônim@,

    os acontecimentos posteriores tornam obsoletas quaisquer reflexões que se façam sobre o pronunciamento da presidenta Dilma do dia 22/06. Então, considero ser mais interessante discutir as propostas apresentadas como resposta para as reivindicações populares.

    Contudo, devo dizer que estou sem tempo para escrever esses dias. Acho que ficarei devendo desta vez.

    Abraço.

    Sostenes Lima

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  12. Obrigada pela sua atenção quanto ao meu pedido. Ficarei aguardando seu retorno, pois suas reflexões, mesmo discordando com algumas delas, me levam a refletir sobre minha opinião já formada sobre o assunto em questão.
    Grata,
    Amara.

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  13. Concordo com tudo que voces disseram:nao adianta tirar Colllor,Desmostenes,Dilma.....isso nao resolve nada! Os protestos tambem se nao for direcionado para uma ideologia ou ruptura nada sera mudado e passara mel na boca de alguns e ainda tiraram proveito disto.SO existe um modo.O POVO COM SUA MANIFESTACAO e a ferramenta ideal para trocarmos o presidencialismo para monarquia,nao ha outra solucao.
    O remédio eficaz e a MONARQUIA.Estude sobre a monarquia e perceberao a diferenca,lembrem-se dos paises que as possui como por exemplo Canada,Japao a mais antiga,Inglaterra,Suecia,Noruega,Australia,Nova Zelandia e por ai vai...

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    1. Meu ..., que bosta , nossa cultura jamais sera adaptada para isso acorda garota.

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  14. Percebo que o povo se perde quando o assunto é política. Parece que ninguém tem ideal próprio. Todos os sistemas são falidos. As coisas tem que funcionar independente de qual seja o regime. É simples assim. Existe uma arrecadação, e ela é destinada à resolver os problemas. Só isso. Arrecadação para a Saúde. Para a educação (construção de faculdades federais). Enfim, é uma conta de mais e menos. Agora enquanto houverem partidos com ideais, ai tudo vai para o brejo. Comunismo, Socialismo, Presidencialismo, Monarquia. Veja só que confusão o vice do PT, é do PMDB. Tem cabimento? Fora todos esses ideais ultrapassados que está levando o Brasil para o caos.

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    1. Concordo,,, tem gente que nao sabe a dura vida de milhoes de brasileiros e fica deferendo um sistema que nao ajuda o povo..... Esse discurso que o PT tirou 40 milhoes da pobreza é igual vc acreditar e mula sem cabeça ou chapeuzinho vermelho. Para com isso.... O que é linha de probreza? Dar dinheiro para as pessoas tiram elas da probreza... aonde? Só aqui,... porque isso na pratica nao funciona.... Esse assistencialismo tem finalidade eleitoreiras de qualquer governo. Usam a miseria do povo para ficar no poder. Se o povo sabesse disso

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  15. Tenho visto frase "fora Dilma" não no contexto que saída imediata, mas sim, como abandono da sua liderança, ou seja vamos virar esta página daqui para frente. Isto deve crescer para as próximas eleições.

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  16. A Dilma tem que sair porque faz parte do grupo de pessoas que defendem os operadores do mensalão e essas pessoas, juntos com a Dilma, chegam ao ponto de desafiar a própria justiça. Dessa forma, são pessoas nocivas à democracia e a sociedade.

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  17. Só acredito que faltou críticas ao Poder Judiciário, na minha opinião acredito ser nosso maior câncer. E o pior, ninguém mete a colher....

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  18. APLAUDO DE PÉ! PARABÉNS! ESPERO QUE ISSO AMENIZE A ALIENAÇÃO DO POVO!

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  19. Se as pessoas se preocupassem em saber do que verdadeiramente acontece nos bastidores, talvez não fossem para as ruas querer que as coisas aconteçam imediatamente, sem questionamento, e mais, que os que supostamente assumissem o poder, iriam num passe de mágica resolver todos os problemas existentes em nosso pais.

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