sexta-feira, 3 de maio de 2013

Textos antigos: uma armadilha para leitores inexperientes



A leitura de autores antigos requer um pouco de condescendência. Em alguns casos, é preciso considerar o que eles dizem à luz de seu tempo e do estado em que se encontravam as ciências naquele momento. Não se pode exigir de Schopenhauer conhecimentos de antropologia linguística, sociolinguística e variação linguística. Essas disciplinas simplesmente não existiam naquela época.

Schopenhauer não deve ser criticado por ter escrito algo como:

Com essa maneira torpe de cortar as sílabas sempre que possível, todos os maus escrevinhadores mutilam hoje em dia a língua alemã, que depois não poderá ser restabelecida. Por isso, esses melhoradores da língua deveriam ser castigados, sem exceção alguma, como crianças bagunceiras na escola.[1]

Ou:

A única verdadeira vantagem que a nação alemã tem em relação às restantes, a língua, é anulada levianamente. Pois a língua alemã é a única em que se pode escrever tão bem quanto em grego e latim, característica que seria ridículo atribuir às outras principais línguas europeias, que não passam de dialetos. Comparado com elas, o alemão tem algo de extraordinariamente nobre e sublime.[2]

O leitor que não consegue reconhecer quais ideias e proposições do autor já estão superadas pelos conhecimentos científicos atuais é que deve ser criticado. O demérito não está no autor que escreveu o texto em 1851, mas no leitor que, lendo o texto em 2013, não é capaz de trazer para a leitura o que dizem a linguística e a antropologia modernas.

Como se vê, a leitura de textos antigos é uma armadilha para leitores inexperientes e ingênuos. O leitor que toma tudo o que Schopenhauer disse, em 1851, sobre língua, discurso e texto como um saber intocável não entendeu nada do que o autor disse. É simplório; precisa estudar mais.






[1] A. Schopenhauer. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 98
[2] A. Schopenhauer. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 106



Um comentário:

  1. Sua articulação escrita é admirável! Tornou-se uma das minhas fontes. Abraço, Sostenes.

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