sexta-feira, 31 de maio de 2013

Escrever é preciso, ortografar não é preciso


As vezes sou meio repetitivo quando o assunto é a prática de produção textual e leitura. Vivo insistindo que o que importa mesmo é ler e escrever. O resto é o resto. Exercícios de ortografia devem sempre ser relegados a segundo, terceiro, quarto planos. Não se pode privilegiar as palavras isoladas em detrimento do texto. Diante da produção textual de um aluno, o professor jamais deve focar erros ortográficos. Se fizer isso, inevitavelmente abandonará o que realmente importa: o sentido que o texto constrói.

É muito difícil vencer o senso comum, ainda mais quando ele está arraigado na escola. É muito difícil convencer professores que operam com o senso comum a mudarem sua metodologia. Em se tratando da prática da escrita, a coisa fica ainda mais complicada quando o próprio professor tem muita dificuldade com a leitura e com a escrita.

Consideremos o fato que de analisar e avaliar questões ortográficas é muito mais fácil que avaliar questões textuais.  Para se avaliar elementos de textualidade de uma redação, por exemplo, é necessário que o professor saiba escrever. Se não souber, acabará inevitavelmente se apegando a questões ortográficas.

Além da dificuldade de se vencer o senso comum dos professores, há ainda a imensa dificuldade de se vencer o discurso simplista da mídia-burra. No ano passado, a nossa brilhante mídia-burra criou um alarde enorme em torno de algumas redações do ENEM que alcançaram nota máxima, mesmo tendo palavras grafadas incorretamente. Pois bem. Quem está errado nessa história? A mídia-burra que não entende nada de Educação Linguística  ou o INEP que elaborou um plano de avaliação que privilegia o texto, em vez de questiúnculas gramaticais e ortográficas?

Quem você acha que está certo? Se você acha que a mídia-burra está certa, sugiro que estude um pouco mais e evite falar sobre o que não entende.

Sírio Possenti, publicou em seu blog, um pequeno artigo sobre esse tema, no qual esclarece que a atividade de verificar detalhes ortográficos e pequenas questões gramaticais é muito mais uma atribuição de quem revisa o texto do que de quem escreve. Ele apresenta um pequeno depoimento de Antonio Prata, cronista da Folha de S. Paulo, que mostra claramente que quem escreve está muito mais preocupado em escrever do que em revisar:

Toda terça, lá pelas quatro da tarde, envio a crônica para a Andressa Taffarel, a Lívia Scatena e a Daniela Mercier, redatoras aqui do “Cotidiano”. Duas horas depois, mais ou menos, uma delas me devolve o texto com todos os meus descalabros diligentemente corrigidos e grifados de amarelo. São erros de ortografia e de digitação, vírgulas e mais vírgulas que vão pro beleléu, um ou outro ajuste ao padrão Folha – séculos “XXI” que se adéquam aos ditames do 21, “cowboys” que aprendem a falar sem a afetação do sotaque, como bons caubóis, “quinze pras seis” que trocam a imprecisão das letras pela pontualidade dos números: 17h45.

Portanto, parece não restar dúvida de que o INEP está correto em privilegiar o texto em vez da ortografia. Possenti diz contundentemente: “Uma boa redação (nota 1000, talvez) é aquela que, revisada (por outros), merece 1000. Simples assim”. 

Quero deixar claro que, quando digo que produzir um texto é muito mais importante que saber a grafia de alguma palavra esquisita, não estou inventando a roda. Esse tema é debatido e amplamente pesquisado no ambiente acadêmico desde a década de 1980. O problema é que, infelizmente, os resultados desse debate têm demorado muito chegar à Educação Básica.  Já há muito tempo nossos professores e alunos deveriam saber que o essencial é escrever, não soletrar e/ou grafar palavras. E isso vale tanto para o 3º ano do Ensino Fundamental quanto para o 3º ano do Ensino Médio.

Infelizmente programas de televisão, como o “Soletrando”, do Caldeirão do Huck, alimentam ainda mais a ideia absurda de que saber soletrar e grafar significa alguma coisa. A verdade é que ninguém escreve bem porque sabe soletrar e grafar palavras bizarras como “exéquias”. Por outro lado, muita gente que escreve bem certamente teria dificuldade em soletrar e grafar essa palavra.

Enfim, escrever é preciso, ortografar não é preciso. Não custa lembrar que o corretor eletrônico do Word sabe quase tudo sobre ortografia, mas é incapaz de escrever um texto elementar de dois períodos. Então, o que você prefere: escrever ou ortografar?

4 comentários:

  1. Será que preciso fazer uma opção entre e outro? Por que não posso desejar os dois? Ortografar não é uma consequência de quem lê e escreve rotineiramente?

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  2. Olá, Professor!
    O seu texto traz elementos que nos permitem pensar algumas questões acerca do tema e, mais precisamente, em relação aos "programas televisivos paragramaticais" (Soletrando; Nossa língua portuguesa; Afinando a língua, etc) que carecem de uma formação científica necessária para executarem o trabalho que se propõem a fazer.

    Dentro dessa perspectiva, lembrei de um texto que eu havia escrito em março de 2010, no qual foi feito uma crítica à ideologia perpetuada pelo programa paragramatical Soletrando, isto é, a ideologia de que saber Soletrar é um referencial de qualidade educacional, tanto do aluno quanto da escola.

    http://dineyvasco.blogspot.com.br/2010/03/quem-nao-se-lembra-de-ter-visto-em.html

    Obrigado!!
    Até mais!!

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  3. Acho que um complementa o outro (ortografia e escrita), pois se não fosse necessária (da forma que você coloca), então porque a necessidade de revisar o texto? Como disse André Lima, quem lê e escreve com freqüência, conseqüentemente terá uma boa ortografia.

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  4. eu não tenho a sorte de ter um corretor pra corrigir meus testos poriIço ficou essa porcaria. Vosses que se virem pá entreter o que eu quero fala, já que ortografia nao enterÇa mas daqui a 20 anus a língua portugeza sera otra e nimgem vai se intende por escrivisao, te vira.

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