terça-feira, 21 de maio de 2013

Como pensa um sujeito típico da classe média



1. Considera-se um entendido de tudo[1] porque fez uma faculdade qualquer[2] e porque fala inglês;

2. Julga ser uma pessoa cosmopolita porque viaja com certa frequência para o exterior[3];

3. Fala de boca cheia que os Estados Unidos são o país mais civilizado do mundo;

4. Vive dizendo que gostaria de morar num país como os EUA ou outros países da Europa, em especial França, Alemanha e Inglaterra;

5. Acredita piamente que tudo que é de fora do Brasil[4] é necessariamente melhor do que as coisas daqui;

6.  Adora falar mal do Brasil, bancando o vira-lata, e acha que está arrasando;

7.  Acredita que corrupção e jeitinho são vícios exclusivamente brasileiros;

8. Tem ódio mortal do governo da Venezuela, Argentina e Cuba porque lê constantemente na Veja, Folha de S. Paulo e O Globo que esses países estão sendo governados por um socialismo totalitário;

9. Adora a revista Veja; na verdade, considera essa revistinha como uma bíblia, em matéria de jornalismo;

10. Considera Arnaldo Jabor um grande intelectual, talvez o homem mais inteligente da televisão brasileira;

11. Considera Rui Barbosa o maior intelectual que o Brasil já teve, embora ignore completamente o fato de que Rui Barbosa jamais escreveu alguma obra de grande relevância acadêmica;

12. Adora falar que o Brasil tem de seguir o exemplo da Coreia do Sul[5], que conseguiu realizar uma revolução incrível em seu sistema educacional nos últimos 30 anos, embora não faça ideia de como isso aconteceu;

13. Diz que o programa do governo bolsa família serve só para estimular a pobreza, a procriação e a preguiça;

14. Diz que o sistema de cotas é uma injustiça contra quem estuda, e algo que vai acabar deteriorando a qualidade das universidades públicas;

15. Leu um ou dois clássicos da literatura brasileira e, em razão disso, se julga um crítico literário erudito, capaz de sentenciar, a partir de uma análise refinada, que Paulo Coelho produz qualquer outra coisa, menos literatura;

16. Diz que o Brasil é definitivamente um país de terceiro mundo, um caso perdido, e ficou mais perdido depois do governo Lula;

17. Odeia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como se odeia o diabo;

18. Aguarda com ansiedade e delírio o dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF), sob a liderança do estupendo, magnífico, santo, divino ministro Joaquim Barbosa[6] conseguirá colocar Lula na cadeia;

19. Tem um preconceito perverso, embora não admitido, contra pobre, negro e nordestino;

20. Lamenta que o Brasil tenha sido colonizado pelos portugueses e não pelos ingleses, pelos holandeses, pelos franceses ou pelos escambau;

21.  Diz que um dos grandes erros que o Brasil cometeu, em termos de infraestrutura, foi ter optado pelo sistema rodoviário em vez do ferroviário, embora não faça ideia de quem (ou qual classe social) foi responsável por essa decisão histórica;

22. É excessivamente moralista, em especial no que diz respeito a questões relacionadas à sexualidade;

23. Etc.

24. Etc.

25. Etc.

Para mim, o sujeito brevemente descrito acima constitui uma figura emblemática de nossa classe média pseudoerudita, pseudoescolarizada, pseudopolitizada, pseudoetc. Embora pudesse ter dito de outro modo, concordo plenamente com o que uma pessoa disse no twitter: “Nossa classe média não passa de uma elite de bosta”. Numa palestra recente, Marilena Chauí encerrou sua fala com uma descrição exuberante: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”. E é para (in)formar essa elitizinha que a grande mídia fala, escreve, vomita.

Se você conhece muita gente com as características que apresentei acima, significa que Globo, Veja, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, entre outras espeluncas jornalísticas, estão trabalhando bem.




[1] Esse sujeito se acha uma espécie de erudito anônimo que ainda não foi descoberto pela grande mídia e pelo mercado editorial pseudoerudito.
[2] A coisa piora muito quando o sujeito fez um curso que garante ao alienado a ilusão de que é doutor.
[3] Os EUA são o destino principal de viagem desse sujeito, onde ele se empanturra de compras.
[4] Entenda-se por fora do Brasil as seguintes localidades: EUA, Canadá, Europa, Austrália e Japão.
[5] Ele adora falar sobre isso porque já leu uma matéria magnífica, inesquecível na revista Veja sobre o assunto.
[6] É preciso informar que a canonização de Joaquim Barbosa é a primeira realizada por Veja depois da canonização de FHC no início dos anos 2000.

13 comentários:

  1. Ai, ai, ai... quase morri de tanto dar risadas! Isso provavelmente se deve ao fato de eu conhecer dezenas de pessoas assim.....
    Muito bom esse assunto! Parabéns por descrever tão bem esse "povinho" que vive "se achando" !

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  2. Pare de ler a revista Carta Capital professor, por favor. O Sr. já começou a delirar. Vem me dizer que Cuba, Venezuela e Argentina são agora exemplo de democracias no mundo? Faz um seguinte, vai lá em Havana e comece a criticar Raul Castro e Fidel e me diz o que acontece. Pena que o Sr. não vai voltar para me contar como foi huahuahuahuahuahua.

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    1. Oi, Zé Carlos. Obrigado por visitar o blog e por propor uma boa interlocução.

      Seguem as minhas considerações.

      Eu não disse, no meu post, que Cuba é um bom exemplo de democracia. Eu disse apenas que o sujeito típico de nossa classe média odeia o governo de Cuba. E esse ódio é construído a partir do que dizem, principalmente, Veja e Organizações Globo. O nosso sujeito de classe média sequer tem curiosidade de entender o que realmente acontece lá. Se contenta em simplesmente acreditar em tudo essas organizações dizem.

      Esse sujeito também não busca (ou não é capaz de) entender a grande diferença entre o nosso sistema político e o daquele país. Se quisesse realmente entender, logo descobriria que qualquer comparação entre o sistema político brasileiro e o sistema político cubano, feita especialmente quando se quer atacar algum programa social do governo do PT, é desonesta e oportunista. Na verdade, o sujeito já está tão impregnado do que diz a Veja, que quando ouve falar de Cuba só pensa em repressão, violência, ditadura etc.

      Algumas perguntas: Se não há mesmo qualquer tipo de liberdade de expressão em Cuba, e se há mesmo risco para quem critica os irmãos Castro, por que a direitista (e vendida à mídia estrangeira) Yoani Sanches não morreu ainda? Por que ela consegue alimentar seu blog quase diariamente sem impedimentos?

      Mais uma vez reitero que não estou defendendo o sistema político de Cuba, nem defendendo o governo do PT. Esse não é meu objetivo. Quem entendeu assim, não conseguiu interpretar adequadamente o meu texto.

      Meu objetivo foi demonstrar como se estrutura o pensamento de um brasileiro de classe média; só estou tentando mostrar que esse sujeito pensa obtusamente. Sua visão de mundo e suas posições políticas se baseiam quase exclusivamente no que dizem os jornais, as revistas e a televisão. Embora se apresente como uma pessoa crítica e letrada, o típico brasileiro de classe média não lê e não estuda algo realmente relevante par uma formação crítica. Em razão disso, é incapaz de fazer questionamentos elementares.

      Abraços,

      Sostenes Lima

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  3. Primeiramente Sr Professor ,gostaria de saber exatamente o que o senhor chama de classe média. São pessoas que pensam assim (como o senhor descreveu?) ou classe trabalhadora pagadora de impostos que querem viver melhor a cada dia sem roubar ou matar,com dignidade? Ou ainda uma camada de pessoas que passa seu tempo classificando , com suas varinhas da docência as pessoas e o mundo a seu redor? E em qual classe o senhor se definira ? Fiquei curiosa.
    Sem mais
    Janaina

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    1. Fantástico Janaina, gostaria de saber a que "classe" pertence um professor universitário. Talvez pertença a classe "intelectual"(?), superior até mesmo à elite. A propósito, eu não represento classe média, pois sou filho de família humilde, nunca me formei ou viajei para o exterior, não tenho casa própria nem sou beneficiário de bolsas-vagabundo qualquer. E acredito que besteira pode vir da boca de representantes de qualquer classe, até de professores universitários...

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  4. Pois bem, Doutor. Antes de mais nada, vamos fazer um trabalho de esclarecimento. De qual 'classe média' o senhor está falando: daquela criada pelo governo Dilma, e que ganha cerca de 300 reais po mês, ou da tradicional classe média? Pense bem, pois poderá estar colocando em xeque a si mesmo e à sua 'musa' citada mais adiante no seu próprio texto.

    Prossigamos. As opiniões que o senhor expressa neste post são justificadas por sua experiência prática [base empírica], ou, por exemplo, por suas leituras de Carta Capital, Caros Amigos, Luiz Nassif e Paulo Henrique Amorim? No caso de serem baseadas em sua experiência prática, o senhor está certo de que observou 'casos' suficientes para concluir o que afirmou?

    Insistindo no fato de que tudo o que está exposto no seu texto se trata de mera opinião pessoal, com valor, portanto, idêntico a quaisquer outras opiniões, não seria mais honesto da sua parte expressar este fato de maneira literal, de modo a não dar a falsa impressão de que o senhor realmente 'sabe que' a classe média [seja lá de quem o senhor esteja falando...] é do jeito que o senhor diz? Considere o sentido epistemológico do termo entre aspas.

    É patentemente desnecessário da minha parte despender energias fazendo réplicas a cada um dos pontos do seu texto, ainda assim, causa-me espécie o fato de não existir argumento algum em todo o post, apenas conclusões jogadas ao vento, sem qualquer premissa que as sustente. Poderia-se mesmo pensar que semelhante texto é sustentado indiretamente por um apelo à autoridade, visto que o leitor deste blog tem, ao centro do mesmo, um post desprovido de argumento e, ao lado, uma seção intitulada 'Quem sou eu', na qual se lêem a formação acadêmica do autor e os atuais cargos que ocupa.

    Finalizando, o que se depreende do seu post é preconceito, e o pior de todos: o preconceito expresso por aqueles que se julgam os fiscais do preconceito alheio. O senhor julga, de maneira apressada, que as pessoas da 'classe média' [???] pensam e agem de determinada maneira não porque são movidas pela sua capacidade autônoma, individual de captar os dados sensíveis do mundo e processá-los através da razão, mas unicamente porque foram 'dopadas' pelos meios de comunicação citados pelo senhor. E caberia ao senhor provar o que diz.

    Cordialmente.

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    1. Exigir "aplicação de método indutivo" sobre tal "espaço amostral" tão vasto e amorfo?! Interessante... Porém esperado, já que numa sociedade na qual só se aplaude o que é conveniente (ou condizente com expectativas pessoais), ignorando-se a elementos "básicos" como qualidade, veracidade (ou no mínimo verossimilhança), ao se perceber "atingido" em seus interesses, opta-se invariavelmente por técnicas de desqualificação - seja acusando ou interlocutor de "burro" ou "ignorante" (a técnica mais comum num país de iletrados) ou de utilizar-se de "argumentos de autoridade". E, INVARIAVELMENTE, como ferramental típico de manutenção de "status quo", finaliza-se com um pretenso desmoralizante "PROVE" (contra-argumento implícito de autoridade, que sugere, a despeito do texto bem escrito, pouca familiaridade com teorias sociológicas e antropológicas fartamente provadas e demonstradas). E, por óbvio, a presente resposta, por carecer de comprovações científicas consiste em simples opinião, palpite mesmo, o que a desqualifica completamente e, pior, pelo fato de seu autor não haver apresentado qualquer titulação acadêmica, haverá de passar por "burro e ignorante" já que não poderá contar com os benefícios da minoração via "argumentos de autoridade".

      Cordialmente.

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    2. Isaías,

      Ele não respondeu provavelmente porque não possui argumentos. Trata-se meramente de preconceito contra um grupo que ele intitulou de classe media. A tal classe media não é aquela criada pelo PT, mas aquela que , um dia, acreditou no PT. Sugiro ao autor uma releitura no seu texto, como algumas alterações, por exemplo, trocando veja por carta capital ou EUA por Venezuela, para ver se ele mesmo não se enquadra na sua caricatura.

      Cordialmente

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  5. Concordo com o que dizem o Isaias e a Janaína. A que "classe" pertence um professor universitário? Talvez represente a "classe intelectual" habitante de um olimpo onde pode observar as "classes" dos mortais com total isenção de preconceitos, afinal preconceito é coisa para reles mortais de "classe média", sendo vossa santidade autor do texto isento desta falha tão humana. Quantos destes "monstros" de classe média não foram alunos seus, quantos não são neste momentos, salvo engano a UNB e as federais estarem cheias de alunos de "classe média"? A propósito, não represento a "classe" citada pelo autor, pois sou filho de família humilde, nunca me formei (UNB então, só conheço de passar perto) ou viajei pro exterior. E acredito que besteiras podem sair da boca de representates de qualquer "classe" até dos intelectuais...

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    1. Discriminação contra negros e homossexuais não pode e contra a pessoa que é classe média pode???

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  6. Porque é que as pessoas abraçam sem questionar essa estratificação de classe sociais que o mercado impõe e ficam se doendo com isso??
    Gostei do texto, penso que ele ilustra bem o 'sujeito classificado' em questão. Entretanto, creio que mais do nunca é necessário nos 'lavarmos' dessa classificação de mercado e nos vermos (ver eu mesma e o meu próximo) fora dessas lentes de rivalidades que a cada dia nos separa mais do HUMANO!
    Quiçá a 'classe média' leitora o interprete como um alerta de que é necessário não assumir essa postura e desconstruir esses formas de preconceitos com as quais o sistema tenta nos moldar desde sempre.
    E antes que alguém questione, não, eu não sou petista!

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  7. Você é, no mínimo, um ser frustrado financeiramente. Um tremendo invejoso! Além do mais, se acha um "super intelectual", mas em cada palavra que digita, demonstra ser preconceituoso.

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