domingo, 24 de março de 2013

Mito e história na bíblia


O que é a bíblia? Segundo a ortodoxia, a bíblia é, na sua totalidade, a palavra de Deus revelada aos homens. Tudo que nela está é exatamente tudo que Deus quis dizer ao ser humano. Ao se comunicar, Ele usou diversas estratégias e categorias textuais: narrativa histórica, músicas, poemas, profecias, parábolas, cartas, literatura apocalíptica etc. Só não usou mitos.

Por trás de todos esses procedimentos de produção e registro textual, e dos procedimentos posteriores de coletânea e organização, está a figura de um autor divino bastante criterioso e atento, agindo para impedir intervenções humanas indevidas.

Em alguns textos, Deus assumiu uma condição especial de autoria: dispensou as palavras de intermediários, e falou diretamente ao ser humano, usando o discurso em primeira pessoa para comunicar sua vontade e suas ações. Por exemplo, a narrativa que descreve os eventos que cercaram a saída dos hebreus da terra do Egito em direção a Canãa apresenta uma série de punições anunciadas e aplicadas pelo próprio Deus. Essas punições (ou pragas) culminaram na matança fria e sorrateira dos filhos primogênitos de todos os egípcios.

De acordo com a ortodoxia, narrativas como essa do Êxodo são integralmente factuais e históricas. Mais que isso: registram ações criteriosamente pensadas e executados pelo próprio Deus, sem qualquer intervenção humana.

Como se nota, a perspectiva ortodoxa concebe a bíblia como um livro supra-histórico, supra-científico etc. Esse livro, diferentemente de qualquer outro já escrito, não é humano. Portanto, está além de qualquer juízo, crítica, análise. Nenhuma evidência em contrário é capaz de derrubar a historicidade da narrativa cosmogônica do Éden, bem como de outras as narrativas míticas e/ou literárias, como a do dilúvio, de Babel, da jumenta de Balaão, de Jonas, de Jó etc.

Em síntese, pode-se dizer que a ortodoxia fundamentalista assume que a bíblia:

a) contém toda a revelação de Deus;
b) embora tenha sido escrita por seres humanos, não contém erros, já que os autores humanos não são propriamente os autores; são uma espécie copistas ou meios de transmissão;
c) apresenta todos os planos de Deus para o ser humano;
d) descreve a antropogênese e boa parte do percurso antropológico, social e histórico do ser humano;
e) mostra a história de uma etnia-nação escolhida (exclusivamente) e protegida por Deus;
f) registra uma versão factual da história de Israel;
g) é formada por um conjunto de livros selecionados pelo próprio Deus, com pouca (ou quase nenhuma) interferência humana.

Existem, certamente, outros pontos que estão na base da compreensão da bíblia como a palavra plena de Deus. Contudo, os que foram mencionados acima são suficientes para nos mostrar o quanto é difícil, para quem tem um mínimo de sensatez intelectual, navegar no mundo da fé cristã sem chocar, sem desmontar alguma coisa.

Praticamente todos os pontos mencionados apresentam inconsistências elementares, facilmente detectáveis. Basta um pouquinho de racionalidade e uma bocadinho de conhecimento de filosofia, história, antropologia, sociologia, biologia, ciência política, linguística, análise do discurso, entre outras ciências, para saber que narrativas como a do Éden, do dilúvio, de Jonas não são narrativas históricas, mas mitos. Talvez até tenham algumas pitadinhas de historicidade, mas no plano geral são claramente narrativas que expressam uma compreensão de mundo pré-científica.

É importante dizer que o fato de serem narrativas míticas não implica que sejam vazias de revelação ou inúteis. De modo algum. Os mitos são componentes fundamentais da história cultural humana. Existem desde que o ser humano se viu na condição de humano, e continuam existindo até hoje, apesar do avanço da ciência. Pode-se dizer que sem mito, não há ser humano. Os mitos em geral, tanto os bíblicos quanto os ameríndios, gregos, nórdicos, persas etc., são narrativas que nos mostram certas nuances do ser humano que seriam indiscerníveis e/ou intransmissíveis de outra maneira.

Portanto, o fato de se dizer que a bíblia está carregada de mito não a invalida como tal. Ela continua sendo bíblia, mas com outra feição. Posso perfeitamente continuar recorrendo à bíblia como um livro que inspira e orienta a vida cristã, mesmo sabendo que a narrativa de Noé é um mito.

Para ser cristão, não preciso renunciar minha dignidade racional. Posso ler os textos que narram as campanhas militares de Davi – desde quando ele era um guerrilheiro fora da lei até quando tomou o trono de Saul – sem ter de aceitar que Davi fez o que fez (se é que fez mesmo tudo aquilo que está narrado!) porque Deus queria que ele fizesse. 

Davi foi um guerreiro sanguinário e vingativo. É difícil aceitar que Deus tenha aprovado suas ações. Portanto, quando se diz que Davi foi um homem segundo o coração de Deus, é preciso que se pergunte imediatamente: “De qual de Deus estamos falando?”. Para mim, a resposta mais sensata para essa pergunta seria: “Do deus construído pela assessoria de imprensa da monarquia e dinastia davídica”.

Pois é, os textos de I e II Samuel, que narram a ascensão de Davi ao trono, nos mostram claramente que essa história de imprensa oficial a serviço do poder existe há muito tempo. Certamente, começou a operar bem antes do surgimento dos nossos jornais e revistas.

Só para provocar: Será por que Saul entrou para a história como vilão e Davi como mocinho? Não resta dúvida. A versão final da história é escrita por quem tem mais poder.

Eu leio a bíblia com a seriedade que a fé cristã exige de um cristão. Mas não me sinto obrigado a ignorar o óbvio, a renunciar a sensatez, o juízo e a razão. Ser cristão não significa ser ingênuo.

11 comentários:

  1. Sóstenes eu acho muito interessante os seus argumentos, mas o que me preocupa é que seus argumentos estão a um passo do ateísmo, olha que sei o que estou falando pois trabalho com evolução e conheço muitos ateus nesse meio e os argumentos deles são muito parecidos com o seu. não estou criticando e sim tentando entender o seu "crer" em Deus e na Sua palavra. Acho que vc tem um novo entendimento da Bíblia. Espero compreender....Abraços Alinne

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    1. Oi, Alinne.

      Eu acho que o grande desafio de uma fé madura é encontrar um caminho para a transcendência num momento histórico em que as ciências vem desvendando um monte de questões que eram misteriosas para nós.

      Para mim, o valor da bíblia não está na suposta explicitação do modo como o mundo veio a existir e na apresentação da "história" do judeus. Como tenho tentado construir uma fé que busca a transcendência, não vejo problema é mostrar os relação mito-história-tradição na constituição da bíblia. Confesso que é uma opção complicada, às vezes.

      Muito obrigado por sua leitura atenta. Vamos caminhar juntos, e nos ajudarmos mutuamente na construção de um modelo de fé alternativo.

      Abraços

      Sostenes

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  2. Se leremos como mito, a "provocadinha" parte de uma tentativa de encontrar a "história real por trás dos textos bíblicos". Levantar esse problema é querer caçar a "verdade" por trás de um mito. Nessa proposta esconde-se a diferença que você se propôs a criticar durante o texto: mito não contém verdades, mas, a história (fato) sim. Quer dizer, apesar de ter se lançado como leitor de mitos, critica o mito através de uma possível história verdadeira por trás do mito... Mito e verdade. como você disse, não estão em oposição: mitos expressam verdades.

    Exatamente por isso, tenho que criticar a postura que você teve frente a afirmação de Davi ser um homem segundo o coração de Deus. Sim, Davi foi um homem segundo o coração de Deus e o mito permite que aceitemos isso. O mito abre infinitas interpretações que se adequam a diferentes tempos e contextos. Hoje, por exemplo, ao ler I e II Samuel, vejo que Deus realmente pode transformar a vida de um homem: mentiu, roubou, matou, adulterou e, no fim, arrependido, converteu-se aos olhos de Deus como um homem segundo seu coração. Isso "aconteceu"? Acontece todos os dias. Foi assim com Davi? É assim todos os dias, conosco, reis sedentos por sangue de povos revoltosos que cometem atrocidades e nos arrependemos ao sermos denunciados... Vamos nos tornando homens segundo o coração de Deus.

    Abraço!

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    1. Oi, Bruno.

      Você fez uma ótima leitura do texto. Gostei de sua crítica. Acho que a polarização "homem segundo o coração de Deus" ou "guerreiro sanguinário e vingativo" não é mesmo o melhor caminho. Nunca somos uma coisa ou outra. Somos necessariamente ambíguos. Isso quer dizer que o fato de Davi ter sido um guerreiro violento não impediu, necessariamente, que ele fosse homem segundo o coração de Deus. Numa possível continuação do texto, vou levar isso em conta. Obrigado por sua leitura atenta e respeitosa.

      Abraços.

      Sostenes Lima

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    2. Que é isso! Li porque me chamou a atenção e na minha comunidade e no seminário que cursei e aonde hoje sou professor-auxiliar, tenho encontrado bastantes interpretações assim. Aprendemos que a Bíblia está em torno do mito e que isso não significa que ela não possua verdades, entretanto, quando vamos tratar dessa questão, abrimos espaço para uma "verdade" da qual a Bíblia não dá conta; quer dizer, colocamos novamente mito x verdade e perdemos nossa primeira proposta de vista. Esse cuidado precisamos recuperar para não criarmos duas "Bíblias": a mítica - usada pelos "pobres ingênuos fieis" - e a "verdadeira história por trás do mito" - usada pelos "poderosos teólogos-arqueólogos doutores verdadeiros do Livro Sagrado".

      Parabéns!

      Abraço...

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  3. Nossa Sóstenes estou gostando muito dos seus textos e dos comentários (Aprendo tb com os comentários). rsssss. Como não sou teóloga é muito difícil entender certas conclusões.Depois que o Bruno explicou eu entendi um pouco melhor. Agora não sei pq vc não respondeu meu comentário, acho que vc não gostou. rssss. Que Deus te abençoe. Abraços!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Você sempre só "piora" as coisa, rsrs.

    Como sempre genial !

    Obrigado por isto!

    "Quanto maior o conhecimento, maior o desgosto" .... Salomão, o Kohelet.

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  6. Muito interessante. Acredito que transcender a fé além da própria bíblia, ancorando nossas mentes na eternidade, na Graça, no amor, e não em comprovaçòes de fatos históricos é o único caminho que nos permite continuar trilhando o caminho em busca de conhecer a Deus. Na certeza de que vivemos, nos movemos, filosofamos e concluímos (às vezes ") em Cristo. Eu sempre acreditei que a bíblia possa sim, conter erros. Também não acho que a Bíblia seja o Livro de Deus. Ela relata fatos. Nos quais Deus estava envolvido de alguma forma, mas Ele está envolvido em tudo, inclusive em mim agora aqui escrevendo! E ninguém vai escrever um livro sobre isso. Deus é grande demais pra caber em um livro! As cartas de Paulo, magníficas, mas são cartas! E as cartas às quais eu não tenho acesso? Também não são palavras de Deus? A mensagem de Deus eh muito maior que a contida na Bíblia. Já os evangelhos, considero um caso à parte, já que nos relatos da vida de Cristo, nos revela a mensagem da salvação de todos nós por meio da Graça! Mas entre copistas e copistas, acabaram adicionando um cego aqui, tirando outro ali, mas pra mim isso pouco importa, o difícil era ter que aceitar antigamente ler os evangelhos, se contradizendo, e ter que aceitar. Homens erram e transferem erros, por isso acredito que possa haver erros na bíblia, mas "o amor cobre uma multidão de pecados" ") e TODA a mensagem de Deus, pra mim, não se transfere por letras, palavras e textos, mas ela se revela em meu espírito, em Graça, através do universo, através das pessoas, dos olhares, dos amores, desamores, dos sons, do céu, das flores, da lua, A MENSAGEM é viva e se move e se revela incessantemente, através de veículos mil, e não apenas através de um livro!

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  7. Muio bom seus textos como sempre. Acho que, quando ouvimos a palavra 'mito' acredito que a maioria das pessoas associam a mitologia grega, porque nas escolas é usada nas aulas de filosofia para ilustrar aos alunos o que é mito e o que é verdade, verdade por trás dos mitos etc. falar numa sala de aula que a bíblia contém mitos, é pedir pra morrer risos...então é usada uma cultura 'morta' para usar como exemplo e não atingir ninguém, ofender, me lembro nos meus tempos de escola que somente um professor teve coragem de fazer tal associação, não preciso dizer que ele era visto com maus olhos e até certo medo. Me corrija se eu estiver errado, mas fazer um abordagem dessas, num veiculo de massa, numa sala de aula no ensino médio ou num púlpito, culturalmente seria um choque, Sostenes você acredita que os brasileiros cristão estão reparados para essa racionalidade, já que a escola aqui é cada vez mais fraca?

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